
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Sobre o horror à feminilidade
Julio Cesar Nascimento – SBPSP
Tainara Souza Santos teve as pernas amputadas após ser atropelada e arrastada por um quilômetro na Marginal Tietê. O roteiro das tentativas de feminicídio possui elementos repetitivos. O crime ocorreu por volta das 6 horas da manhã do sábado, depois que Tainara deixou o Bar do Tubarão, no Parque Novo Mundo, onde havia passado a madrugada em um forró com uma amiga e um rapaz.
A confusão começou quando o agressor, Douglas Alves da Silva – com quem Tainara havia saído algumas vezes – chegou ao forró e, tomado por ciúmes, deu um soco no rapaz. Quando Tainara saiu do bar, Douglas já a esperava e a atropelou. Um número significativo de tentativas de feminicídio É perpetrado por homens que tiveram algum tipo de relacionamento “amoroso” com a vítima.
Outro elemento comum aparece em um caso amplamente divulgado: a mulher que levou 61 socos do seu namorado dentro de um elevador. Antes da agressão, ela estava em uma área de lazer, fazendo um churrasco com amigos, quando o casal teria discutido. Nesse momento, em uma crise de ciúmes, o agressor jogou o celular da vítima na piscina.
Num terceiro tempo, a vítima que tenta fugir do raio de influência do agressor enciumado é atacada covardemente. A violência do assassino é despertada quando as mulheres que eles usam como “equipamento” (Balint) ousam seduzir outros homens. Em algumas situações, a mulher já havia terminado o relacionamento embrionário justamente por perceber violências relacionadas a tentativas de controle: “Sério que você vai sair comigo com essa saia? Você está parecendo uma puta!”.
Então, quando essa mulher decide, agora solteira, sair com outros homens e exercer sua liberdade sexual, ela é cruelmente agredida. Mas a cena do terceiro excluído não precisa ser real; pode se tratar apenas de um delírio: “Pensa que eu não vi você com as pernas abertas oferecendo a buceta para ele?”. Relatou uma paciente que estava simplesmente sentada em uma piscina infantil, quando abriu as pernas para melhor acomodar e proteger seu bebê que brincava alegremente com a água.
No fantasma inconsciente, a mulher que primeiro me seduziu agora me coloca no lugar de terceiro excluído, preterido, sendo obrigado a testemunhá-la seduzindo meu rival imaginário. No Édipo completo descrito por Freud, raramente mencionado pelos psicanalistas, o menino vê no pai tanto alguém de quem deseja livrar-se, quanto alguém em relação a quem ele nutre desejos homoeróticos.
A triangulação transforma o homem que essa mulher livre e potente decide seduzir um objeto de ciúmes – “Você está dando para ele o que prometeu dar exclusivamente para mim” –, em objeto de inveja – “Ele possui atributos que faltam ao meu Eu para alcançar o Eu ideal; diante dele me sinto inferior, castrado, humilhado” –, mas a bissexualidade inconsciente cria uma terceira camada: eu desejo este homem. “Pensa que eu não vi você olhando para aquele gostosão cheio de tatuagens?!”
Curiosamente, alguns assassinos não destinam seu ódio ressentido aos rivais, mas às mulheres que, ao preterí-los por um terceiro mais potente, produzem evidências do desejo homoerótico recalcado.
Mas por que, diante da perda de objeto, estes assassinos não acionam um mecanismo melancólico de identificação com o objeto externo ambivalente, substituindo-o de modo onipotente por um objeto interno – o Eu identificado com o objeto? Quando a sombra do objeto cai sobre o Eu, a hostilidade do sistema segue o caminho da autodestruição como via indireta de vingança contra o objeto original. “Além disso, embora saibamos que as intenções suicidas do neurótico na verdade são impulsos homicidas antes dirigidos a outrem e que posteriormente foram redirecionadas ao próprio sujeito, continua a ser incompreensível por qual jogo de forças tal intenção consegue transformar-se em ação efetiva.” (Freud, 1917)
Enquanto, em “Luto e Melancolia”, Freud se pergunta por qual jogo de forças alguém consegue efetivar um suicídio, minha pergunta é: por qual jogo de forças um homem consegue passar ao ato e efetivar uma tentativa de feminicídio?
Neste ponto de nossa reflexão, preciso falar da minha experiência pessoal e de como me tornei homem. Em minhas rememorações, sou uma criança morando em uma COHAB: rua sem asfalto ou calçada, sem esgoto; as casas tinham fossas. Subo no sofá encostado na janela que dá para rua para obter um melhor ângulo de visão do espetáculo que, fascinado, não quero perder: dois vizinhos bêbados puxam facas um contr o outro; em outra “sessão de cinema”, seguraram o gargalo da garrafa para quebrá-la e transformá-la em arma cortante; em outro “episódio da série”, um pai espanca a mãe de um amigo meu; algumas vezes o camburão aparecia na rua e os policiais “desciam o cassetete”; e em territórios controlados por facções, ocorriam assassinatos praticados por milícias ou por agentes do Estado.
Como descrito em “Confusão de Línguas entre adultos e crianças”, a criança violentada sexualmente pode interpretar o ato como brincadeira destinada a satisfazer seu desejo de ternura. Para aquela criança, aquilo era um teatro real ao qual eu assistia, privilegiado, diante da escassez de entretenimento.
Corta. Eu estou na sala do primário na escola pública quando outra criança me chama de “maricas”. Imediatamente avanço sobre ela, emulando o comportamento heroico dos adultos valentões da minha rua. Esse “sucesso” autoprotetor não perdurou. Sua eficácia defensiva se extinguiu quando entrei na adolescência e me tornei magricelo demais para fingir altivez.
Compreendi que a única forma de me proteger das agressões físicas era traficar “cola” de provas para os adolescentes – pais da horda primitiva – ou permitir que comessem meu lanche. Os mesmos valentões me assediavam sexualmente sempre quando ninguém estava olhando.
Voltando à metapsicologia, acredito que a angústia-sinal despertada pelos derivados do desejo homossexual recalcado não é a causa primária deste ódio a feminilidade. Há muitas camadas nessa arqueologia psíquica. Se, para Freud, a visão da diferença anatômica entre os sexos cria a ilusão de que a castração é uma ameaça factível – uma vez que, na fase fálica, só existe um órgão sexual, aquele que Lacan nomeará de falo imaginário –, para Klein, a inveja do pênis e a angústia de castração já são formações secundárias da inveja do útero e a da angústia correlata de ser devorado e aniquilado pela mãe.
Stoller nos lembra, com brilhantismo, que todo homem saiu de um útero (a anatomia é o destino?) e que todas características estereotipadas da masculinidade são reações a esse feminino primevo. Ferenczi descreve poeticamente, em Thalassa, o desejo de retorno a este ambiente mítico aquático. A experiência talássica seria revivida quando o homem, identificado com “seu Junior”, penetra a mulher: uma experiência de completude, ao mesmo tempo ameaçadora pelo medo da regressão à dependência e da diluição mortífera.
Quando homens de constituição egóica frágil se apaixonam, a mulher é fantasiada como a grande mãe nutritiva, mas também como ameaça de feminização, em razão do desejo primitivo de fusão que a experiência amorosa sempre desperta. Manter sempre acesa a chama da pulsão de domínio é como sustentar uma fogueira incandescente para proteger o homem primitivo dos animais devoradores.
Ser preterido por aquela mulher que expressa livremente sua potência sedutora e erótica constitui, na fantasia desses homens, uma “ofensa, negligência e decepção” (Freud, 1917) perpetrada por aquela que deveria ser exclusivamente deles. Então todo edifício rui: as camadas do sítio arqueológico se misturam em uma complexa multideterminação.
A mulher representava a esperança de cura pelo amor que é sempre mais sedutora que a psicanálise. Era um objeto de possessão narcísica, um troféu a ser exibido aos amigos, que prometia transferir ilusoriamente seu valor fálico (“ela é gostosa, bonita”) para um Eu deficitário de valor, marcado pelo famigerado sentimento de inferioridade. Prometia curar as feridas da adolescência do menino magrelo, sem aptidão para esportes ou para seduzir as adolescentes populares – muitos desses agressores tornaram-se musculosos tardiamente.
Prometia ainda protegê-los de seus desejos homoeróticos, da inveja do pênis – sucessora da inveja do útero e de sua capacidade enigmática de gerar bebês. A suposta traição imaginada paranoicamente, e o posterior abandono – gesto de saúde dessas mulheres – são percebidos como crimes hediondos e inafiançáveis, puníveis com a morte.
Em um só ato, esses homens se identificam com os supostos heróis fálicos de sua infância violenta, vingam-se da mãe traidora – objeto simultâneo de fascínio e terror – detentora de um superpoder mágico: a capacidade de hipnotizar até o mais potente dos homens, aquele que é ao mesmo tempo rival, modelo identificatório e objeto de desejo.
Mas a camada mais primitiva é: se eu assassinar essa mulher, destruo seus poderes uterinos, que exercem sobre mim uma atração fascinante, e me represento, mais uma vez, como um homem potente que triunfou ilusoriamente sobre o feminino.
Não é coincidência que a esmagadora maioria destes homens se identifique com um ex presidente inelegível que nega a existência do feminicídio, se auto declara imbroxável e discursava que o Brasil “precisa deixar de ser um país de maricas”, defendendo o enfrentamento da pandemia de Covid-19 “de peito aberto”. O Eu Ideal desse grupo favorece identificações com o pai da horda primitiva.
Mas a pergunta permanece: por que, para alguns, não basta – como fez Mark Zuckerberg escrever em seu cartão de visitas – “I am CEO, bitch!”, realizaando assim sua vingança imaginária contra a mulher que o rejeitou?
Minha hipótese – válida apenas para um subgrupo dos casos de feminicídio – é que alguns desses homens foram vítimas de violência física e/ou testemunharam seus pais espancarem suas mães, assim como muitos abusadores sexuais foram vítimas de predadores na infância. Uma criança espancada ainda pode se refugiar no colo da mãe, da irmã mais velha ou de uma cuidadora, na tentativa de retorno ao útero protetor. Em determinado momento, esse comportamento passa a ser visto como atitude de “maricas”: “Não chore como uma manteiga derretida, vou te dar motivos para você chorar com gosto”.
Esta frase, ou suas variações, era frequentemente pronunciada antes das surras destinadas a “ensinar a ser homem”. Na experiência amorosa, esses homens podem inconscientemente regressar ao útero materno protegidos pela falicidade imaginária: “Eu estou comendo aquela gostosa!” Quando essa mulher ousa ser livre, cultura e mecanismos intrapsíquicos se suplementam para a atuação perversa feminicida, que é, no inconsciente, um matricídio.
Assassino a parte mulher do meu Self.
Palavras-chave: Feminicídio, Masculinidade, Bissexualidade, Violência de gênero, Retorno ao útero.
Imagem: ”Orestes matando Clytemnestra”. História do mito: Orestes voltou para vingar a morte de seu pai, Agamemnon, e matou sua mãe Clytemnestra e o amante dela, Aegisthus, para cumprir o dever de vingança e a ordem do deus Apolo.
Categoria: Política e Sociedade
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