
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Do que somos feitos: Do que é feita a Psicanálise?
Morgana Mengue Saft Tarragó – SBPdePA
“A obra é criação, isto é, produto novo, original. Mergulhando nas fontes da origem, o originário dá à luz ao original”(Green, 1992, p. 248)
Começo por aquilo que tenta explicar o que, imagino, nem mesmo seu criador jamais pensou que sua criação alcançaria. Desde Freud e sob o modelo de seu método de investigação, nos debruçamos a buscar descobrir, conhecer e compreender o inconsciente recalcado, formado por desejos proibidos que nos constituem e dos quais derivam nossa forma única de ser e de viver. Para além do inconsciente – recalcado – a constituição psíquica também conta nossa história de origem e como as experiências originárias e os objetos primordiais marcam nossos destinos. À época de sua invenção e nos anos iniciais de sua construção teórica, à psicanálise não lhe tocava compreender do que é feito aquilo que se situa aquém do inconsciente: o não-recalcado, o não-simbolizado, o que não pode se revelar por representação de palavras. Hoje, graças a muitos que se inspiraram em Freud, com coragem suficiente para não se deter frente às críticas de suas propostas teóricas, sabemos que a associação livre, a atenção flutuante e o próprio setting, em alguns casos e, cada vez mais comuns em nossos tempos, são objetivos almejados, às vezes, uma utopia à lá dom quixote, que serve para que não percamos o horizonte – que não é nosso. Somos parceiros de caminhada, de travessia, de retorno e de novos caminhos abertos, mas o horizonte, esse é exclusivo de quem fala: o analisando.
Como terapêutica, a psicanálise, em seus primórdios, sustentava a escuta, exclusivamente, dos derivados do inconsciente. A associação livre, já um avanço da técnica, dá espaço para a escuta daquilo que escapa ao sujeito e que, é desejado, que não escape à escuta do analista: sonhos, atos-falhos, repetições, tudo isso mergulhado no caldo – que pode ser ralo como a vida de investimentos de um ou outro [analisando e analista]; ou espesso, viscoso gerando um meio difícil de mergulhar. A esse caldo, usualmente, chamamos de transferência, que funda a experiência psicanalítica, seu objeto, seu campo (Green, 1964/2005, p. 166).
Quando me atrevi a dizer que isso era antes, não é que hoje não escutamos sujeitos nos quais prevalece a estrutura neurótica. Mas, me refiro a um antes, quando, majoritariamente, os sujeitos foram escutados sob a ótica da prevalência desta montagem. Sabemos que não é assim, nem sempre e nem tudo o que acontece em uma sala de análise. Não fosse alguns corajosos e talentosos psicanalistas pós-freudianos, o que seria dos sofrimentos situados aquém da trama simbólica?
Como analisaríamos sujeitos acometidos por dores que se expressam prioritariamente no corpo, uma vez que seu psiquismo carece de vias para o trânsito dos representantes pulsionais, derivados daquilo que nasce no limite de seus corpos insuficientemente erotizados? E quando se trata de curtos-circuitos pulsionais, nos quais o ato prevalece sobre a capacidade razoável de trabalho psíquico/pensamento, quem os escutaria? E as estruturas fronteiriças, em que a própria fronteira é um território? Podemos imaginar que um dia, escutar dores dessa ordem, com uma técnica própria, não era psicanálise?
Falei da transferência, mas a contratransferência testemunho do desejo do analista (Green, 1964/2025, p. 168), não necessariamente como par complementar da primeira, senão um fenômeno com trânsito psíquico próprio, também sofreu modificações importantes. Menos cerceada pela teoria de falta de análise do analista, a contratransferência conquista um lugar de valor como ocorrência na mente do analista, inclusive, fica permitido valer-se da dela, como recurso analítico, se deixar usar para servir como objeto da ação específica que, diferentemente dos objetos da pré-história do analisando, pode oferecer uma ação de qualidade ligadora, com um algo a mais que alimenta a vida de libido. Para isso é preciso cuidado, claro, e ainda vale a advertência de que pontos cegos do analista… causam estragos.
Atualmente, questionamos, não mais em sussurros e cochichos com alguns de nossos pares que abstinência é desejável, todavia, nem sempre… – aqui falo nem sempre, porque é necessário que continuemos a questionar, mesmo quando a teoria, a técnica e a própria prática nos confirmam sua importância e veracidade, porque nossos pacientes são únicos e é uma questão de honestidade nossa, nos valermos da teoria para pensar, não replicar, imitar ou repetir.
Nesse jogo de avanços e retrocessos à origem, o conceito de neutralidade hoje pode ser tensionado. Questionar serve, inclusive, para não jogar o conceito com a água suja dos mal-entendidos teóricos. As perguntas, legítimas, é que dão vida – criatividade, espontaneidade, especificidade no estilo de intervir do analista. Claro que jamais é a vida – psíquica a que me refiro aqui – do analista que está em questão em qualquer condução de análise, mas nosso jeito de ser analista, nosso modo de escutar, de falar quando achamos apropriado, de silenciar quando o processo está se dando dentro e nos cabe deixar acontecer, sem interferir, a forma com que vivemos a própria vida, como desfrutamos de nossas análises, como lidamos com nossos medos, nossos preconceitos, as mudanças de rumo que conseguimos dar, isso tudo pulsa em nós, queiramos ou não. Dito isso, neutralidade pode andar ao lado da abstinência, quando temos, cada um de nós, recursos próprios para renunciar a nos colocarmos como protagonistas de uma história que nos cabe ser, no máximo, coadjuvante, porque, muitas vezes, nosso lugar é na coxia mesmo e, desde lá, nos limitarmos a estar disponíveis para alcançar o que, na verdade, já pertence ao sujeito-analisando, se, eventualmente, falta-lhe apropriar-se.
Um processo analítico é uma história de heranças, na qual o sujeito herda-se.
Em um momento absolutamente inaugural da minha vida, um amigo, também colega, me presenteou com sua percepção acerca de minha calma. Dentro de mim, revolvia um turbilhão formado de medo e de dúvidas. O que me disse esse amigo, me serve ainda hoje: quem precisa, se beneficia da sua aparente tranquilidade. Então, neutralidade para mim não é vestir cinza, senão, no colorido da vestimenta, um psicanalista puder ser/parecer para quem vem buscar ser escutado, o que esse precisa, mesmo que nem sempre o tenha para oferecer. Dentro do analista existe um mundo, dentro do analisando, existe outro mundo e é para este mundo, que o espaço analítico precisa estar disponível. O enquadre, enquanto continente, “não determina somente as condições de um espaço de trabalho, mas modifica os limites […] coloca em tensão em seu interior os limites entre analisando e analista”(Green, 1990, p. 275).
Particularmente, adoro uma boa retórica, me encanta o realismo mágico e a métrica de uma poesia bem escrita.
Eu queria ter feito um texto que alcançasse a profundidade do que a psicanálise significa para mim. Temo não ter conseguido, então, me contento com a ideia de que a concepção do que é psicanálise seja um trabalho árduo, pessoal e intransferível que, para fazê-lo, nos auxiliamos de muitos. Imitamos, reproduzimos tal e qual, idealizamos, nos afastamos, introjetamos, nos frustramos, nos identificamos, repetimos, projetamos, começamos a escutar a própria voz em meio aos ecos do que nos disseram e, de repente, nos reconhecemos feitos de todos os retalhos dos quais nos apropriamos. Então, passamos a ser, o que nunca está acabado, mas aprendemos a localizar dentro de nós fios condutores para nossa escuta, para e por quê dizemos o que dizemos e ainda, para deixar ir o que um dia, era tudo o que tínhamos.
Cada um, à sua maneira – ancorados na origem do que um dia, alguém pensou teórica e tecnicamente, para construir um método que poderia proporcionar que um sujeito seja quem ele teria sido, se seu sofrimento não tivesse atrapalhado, vai se tornando o analista que é. Eu ia escrever aprimorando-se, mas achei que essa palavra não seria apropriada. Acredito que um analista precisa ser e quando é, pode transformar-se, metamorfosear-se, ser muitos e para isso, precisamos estar caminhando com.
Eu almejava escrever de forma simples, porque as coisas mais belas, profundas, verdadeiras e restauradoras são ditas assim. É na simplicidade das palavras que “o efeito surpresa da interpretação cria um desequilíbrio no sistema psíquico do paciente que faz vibrar toda sua rede de associações e o ajuda a sair do círculo, no qual ele gira sem fim, para se abrir para a simbolização”. Danielle Quinodoz (2002) escreve isso, assim, fazendo parecer fácil, o que nos exige um investimento alto. Pulsionalmente alto, o que me faz lembrar de Anzieu, que refere ser o masoquismo de Freud, do homem Freud, um marcador importante de sustentação da sua capacidade criativa. Acredito mesmo que é para lá que voltamos para reinventar meios para seguir. Green, postula que o processo de criação é uma forma de lidar com o incriável que é o núcleo materno, “o representante psíquico da pulsão, sob a forma de afeto ligado à relação com o corpo materno que tem de ser representado de outra forma, pelo trabalho da arte” (1992, p. 251).
Se o fim revela o trajeto e resguarda a história dos inícios, a sujeição e a passividade são marcas inquestionáveis do início da vida de todos, a capacidade de pensar, recurso tão caro e sofisticado, nasce do mesmo material primitivo: a realização alucinatória do desejo, essencial nos primórdios do psiquismo e semente do vir a ser. Nosso mais requintado recurso nasce de uma dor que pudemos transformar: o rompimento da ligação com o corpo da mãe, quando deste, subsistem investimentos eróticos e agressivos – recalcados; sensuais e afetuosos – inibidos quanto a seu objetivo [assim, sublimados] (Green, 1992).
“Simplificar é muito louvável, mas não devemos sacrificar a verdade pela simplicidade”. Essa frase é do Freud, escrita em 1931, para falar que aquilo que se apresenta como masculinidade ou feminilidade não se restringe somente à libido e seus movimentos ativo e passivo, mas ao acréscimo de um tanto de agressão ou prazer destrutivo, entendido como pulsão de morte prevalente. Ainda assim, quantas simplificações resultaram em teorias preconceituosas, aliás, lembrando que simplificar não é o mesmo que tornar simples, simplificação é um recurso do qual nos valemos quando nossa ignorância não se desdobra na busca por conhecer, senão, invalida toda e qualquer forma de viver que não compreendemos. Isso já foi psicanálise na mente de alguns, de outros, ainda é.
Somos muitos e é também por isso que temos a possibilidade renovada de nos conectarmos com o mais profundo, denso e único de cada um que vem nos falar de si. Acredito ser inegável que cada paciente nos marca de forma diferente, e vai ver, é porque em cada um deles, reencontramos algo que já foi nosso, e, eventualmente, ainda é. Não me é possível conceber a ideia de que num processo analítico só um é tocado, mesmo quando o processo foi um fracasso, que às vezes é. O mais lindo, também o mais dolorido, se dá quando reconhecemos o que há de nós, no sofrimento contado do divã que dispomos para oferecer. Contudo, o que seria a psicanálise sem esse encontro?
Pode-se definir a psicanálise de maneira poética, literária, fruto da vivência em carne viva ou em pele constituída. Em uma sala de análise sempre nos encontraremos com tragédias e, com o depois de “finais felizes”. Poderemos sempre, até pode ser desejável, conjugar diversas teorias para escutar melhor, mas é inegável, para deslizar teoricamente, para ousar dizer o que nos ocorreu, para nos valer do que sentimos, é preciso que tenhamos construí[n]do um aporte teórico consistente, amplo e profundo. Psicanálise, talvez seja o que pretendemos fazer, sustentados pelo estudo incansável, pelo que vivemos nos divãs que nos deitamos, pelo auxílio de nossos pares e, impreterivelmente, pelo que carregamos dentro de nós.
Repetimos aos borbotões que Freud é filho do seu tempo. Nós, igualmente, somos, do nosso. Nesse sentido, imagino que a psicanálise é o que vamos fazer dela e com ela, para o melhor e para o pior, bem ou mal-intencionados que formos.
Afinal, o que somos feitos? Em cada linha desse escrito, reencontro com pessoas, com textos, com reflexões que estas pessoas ou estes textos produziram em mim. Somos feitos de pó e cada micropartícula desse pó do qual é feito o universo que conhecemos, também faz a psicanálise. Existem encontros, momentos que resultam em experiências emocionais, disso somos feitos, disso é feita a psicanálise: de inédito, de surpresa, de desconhecido, de reencontro, de pós-encontro, de desamparo, de susto, de ritmo, de tempo, de sorrisos que encontramos no caminho.
De verdade, eu gostaria de ter escrito um texto teórico, metapsicológico, que descrevesse as diferentes psicanálises da primeira e segunda tópicas, que confirmasse a veracidade do inconsciente, a primazia do desejo, o lugar do analista. Em vez disso, talvez, ao fim e ao cabo, intuo que a psicanálise seja o encontro íntimo entre duas pessoas que reconhecem similaridades entre suas histórias de constituição psíquica, subjetiva, e singular e, justo porque ignoram tal fato, se demoram nesse encontro que muda destinos. Mutuamente.
Palavras-chave: psicanálise, método, transferência, inconsciente, pulsão
Imagem: foto da autora
Categoria: Instituição Psicanalítica
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