Observatório Psicanalítico OP 492/2024

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

“No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é” 

Liana Albernaz de Melo Bastos – SBPRJ

Em memória de Galdino Pataxó-hã-hã-hãe queimado vivo em Brasília em 1997 por cinco brancos

Nesta 60ª Bienal de Artes de Veneza 2024, o pavilhão brasileiro foi rebatizado como Pavilhão Hãhãwpuá. Hãhãwpuá é o nome usado pelo povo indígena Pataxó para se referir à terra, ao solo ou, mais precisamente, ao território que depois da colonização ficou conhecido como Brasil. Dentro deste Brasil, há muitos Brasis, com mais de 200 línguas indígenas. Ailton Krenak, eleito este ano para a Academia Brasileira de Letras, representa o reconhecimento tardio e ainda reticente de nossa diversidade linguística e cultural.

A afirmação do antropólogo Eduardo de Viveiros de Castro, que dá nome a este texto, causou polêmica mas ela nos possibilita entender as dificuldades que temos com a diversidade cultural. Castro propõe que a alteridade antecede a identidade, ideia implícita na teoria lévi-straussiana da troca matrimonial e da interdição do incesto e determinadora da sociabilidade indígena.

Conta-nos Castro que quando um índio não sabe como chamar um estrangeiro, ele o chama de “cunhado” para não chamá-lo de inimigo. “Cunhado” tende a ser usado como a palavra genérica para um outro, um não-parente com quem se quer ter relações amigáveis, ou pelo menos neutras, mas que permitam a troca, isto é, a relação. Nós usamos “irmão” em vários contextos em que os índios usam “cunhado”. “Liberdade, igualdade, fraternidade”: nosso modelo da relação social é a fraternidade, isto é, a semelhança, O que é a fraternidade como modelo de relação social? É a ideia de que duas pessoas estão ligadas por estarem na mesma relação com um terceiro termo superior: pai, pátria, religião, ideologia. O irmão é um duplo, um igual. A igualdade se declina na linguagem da fraternidade. Em contrapartida, ser cunhado, significa uma relação diferente com um mesmo termo (irmão/marido). Neste caso, em vez de ser pela semelhança, a relação é pela diferença. O cunhado é alguém com quem se troca, ou seja, um oposto e não uma réplica. 

Essas duas maneiras de conceber a alteridade, como diferença como instituição do outro ou como duplicação do mesmo definem duas sociologias divergentes. A afinidade potencial, que a designação do outro como cunhado traz, tem, então, a ver com uma teoria da diferença enquanto fundamento da relação. Como diferença, ao chamar de cunhado, se cria a possibilidade de troca com o outro, o estranho, o estrangeiro.

Como fraternidade, pela igualdade com o irmão, há uma duplicação do mesmo. Apenas se pode repetir o que o outro faz: a imagem especular um do outro. Uma relação narcísica. Nosso modelo de relação é a fraternidade, para os indígenas é a afinidade. Quando dizemos “irmão” para um não-parente, e quando o indígena diz “cunhado”, nós estamos dizendo coisas opostas mas no mesmo sentido, ou, inversamente, coisas semelhantes mas com sentidos opostos. Nossos conceitos de relação social são diferentes e, consequentemente, são diferentes as subjetividades forjadas nestas matrizes sociais.

Para os europeus que aqui chegaram, a partir do século XV, o modelo da igualdade ainda estava se esboçando dentre eles. Havia, na Europa, os iguais e os menos iguais, nas relações de servidão. Contudo, em relação aos indígenas eles os consideravam como não iguais e o diferente era ninguém. Como tal, matá-los, escravizá-los, tomar seus territórios e subjuga-los era naturalizado.

No século XV, a população das Américas era mais numerosa que a população da Europa. Em 100 anos essa população perdeu 95% do seu efetivo, efeito mais letal do que o da bomba atômica. Os indígenas são sobreviventes de uma bomba atômica que caiu sobre eles em 1492, e que, em 100 anos exterminou quase toda a sua população. Mas não toda. Apesar dos ataques ao longo destes 500 anos, eles resistem. São exemplos da capacidade de resistência humana em tempos difíceis. (Castro)

É com esta força, resistência e beleza que, na Bienal de Veneza, Ka’a Pûera: nós somos pássaros que andam, com curadoria de Arissana Pataxó, Denilson Baniwa e Gustavo Caboco Wapichana, torna-se o elo central para a exposição do Pavilhão Hãhãwpu.

Ka’a Pûera é o nome da instalação homônima da artista, professora e ativista Glicéria Tupinambá, por meio da qual ela narra a sua missão de recuperar cultural e materialmente a tradição dos mantos Tupinambá que foram levados e hoje estão em diferentes museus europeus – ao todo existem espalhados pelo mundo 11 mantos. Não por coincidência, a exposição é realizada no ano em que um deles retorna ao Brasil, de forma definitiva, depois de mais de três séculos na Europa, para o acervo do Museu Nacional , no Rio de Janeiro, que será reinaugurado este ano após o devastador incêndio que sofreu em 2018.

Devastador também foi o contato dos Tupinambá com os portugueses, após o início da invasão de seu território em 1500. Eles habitavam várias aldeias ao longo de uma larga faixa do litoral atlântico. Enfrentaram guerras de extermínio, tomada do território, escravização, conversão religiosa e a imposição da língua portuguesa. 

Registros europeus do século 16 e 17 mostram que os mantos feitos com penas de guará eram usados pelos Tupinambá em importantes rituais. Mais que belos, são peças sagradas, através das quais se manifestam os Encantados.

A devolução dos objetos roubados pelos colonizadores aos verdadeiros donos é discutida por Mbembe (2021). As dificuldades nesta devolução e seu atraso por séculos revela a clivagem entre o direito de propriedade (europeu) por um lado e por outro, o ato de produzir e o sujeito que o produz. Age-se como se as condições em que estes objetos adquiridos não fossem problemáticas. Como se tivessem sido transações de igual para igual, em um mercado livre no qual o valor dos objetos fosse determinado por um mecanismo objetivo de precificação. 

O problema da restituição, desde que não implique nem em reconhecimento de dívida, nem qualquer outra obrigação decorrente, faz parte das estratégias de ofuscação utilizadas por aqueles que estão convencidos que numa guerra, declarada ou não, o vencedor sempre tem razão e o saque é a sua recompensa.

Questões histórico-filosóficas, antropológicas e políticas questão em jogo no ato de restituição. Qualquer politica autêntica de restituição é indissociável de uma capacidade de verdade, “sendo que honrar a verdade e reparar o mundo se tornam, por isso mesmo, o fundamento imprescindível de um novo vínculo e uma nova relação.” (Mbembe,1921)

A reparação do mundo Tupinambá está na base do trabalho de Glicéria. “Eu vejo a nossa cultura como um pote que foi quebrado, espalhando vários caquinhos, vários fragmentos por todo o canto. Agora é o momento de a gente recolher esses fragmentos e recompor esse pote”, diz Glicéria Tupinambá. “Ter os mantos, refazê-los é também agradecer aos Encantados pelo processo de retomada do território indígena.” Território e cultura são sagrados.

O primeiro manto que Glicéria teve oportunidade de conhecer pessoalmente está – ainda – na França. “Eu quero ver o avesso”, disse ela à equipe do museu parisiense, em 2018. “O pessoal fica muito ligado na cor da pena, mas eu queria entender a malha, ver o avesso”. No avesso, na trama, está a possibilidade de refazer o mosaico. Mas há mais. É preciso escutar os mantos, “é fundamental que se “escute o manto” para entender o papel que ele teve na sociedade. Só nós podemos contar nossa história. A gente tem uma relação ancestral.” Na Dinamarca, de onde virá um manto, ela se emocionou ao ouvir o manto expressar seu desejo de retornar. “Ele agora precisa de outro cuidado, um cuidado que seu povo precisa dar, os rituais necessários para a vitalidade dele”, Glicéria conta que o manto mostrou a ela três imagens: “Uma quando ele estava dentro do território, eu via mulheres, crianças, as penas, a feitura. Outra imagem que ele me apresenta era ele dentro de uma embarcação, as pessoas na margem. Eu podia sentir a areia nos meus pés e ver a embarcação sumindo no fio do horizonte. E, depois, eu vejo esse manto saindo da embarcação e desaparecendo por uma viela escura.” (https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2023/08/24/alta-tecnologiatentara-decifrar-origem-e-rota-de-manto-tupinamba.htm)

Neste mês de abril, de luta pela demarcação das terras indígenas, seremos nós, os cunhados, capazes de nos unirmos numa relação de troca com nossos povos originários? Seremos capazes de escutar o que nos dizem? Ou ficaremos surdos e cegos para as experiências daqueles que sobreviveram à queda do céu? Seremos capazes de sonhar outras temporalidades?

“Como analistas, ajudamos a integrar essas experiências em um contexto narrativo, ao mesmo tempo que nos movemos em outra temporalidade, aquela que é necessária para que o processo de subjetivação possa acontecer. Quando se trata de um fenômeno coletivo, faz-se necessário, também, um discurso social sobre a verdade histórica dos acontecimentos traumáticos, bem como sobre sua negação e seu desmentido defensivo.” (Virginia Ungar, Observatório Psicanalítico – OP 421/2023)

Salve Ogum!

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Categoria: Política e Sociedade 

Palavras chave: Bienal de Veneza 2024, Hãhãwpuá, Diversidade linguística e cultural, Manto Tupinambá

Fraternidade × Afinidade

Imagem: Manto tupinambá em exposição no Museu Nacional da

Dinamarca. Jamil Chade/UOL

Cliquem no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página no Facebook:

https://www.facebook.com/share/p/phVKeBkyzdB1CEj7/?mibextid=WC7FNe

E sigam nossa página no Instagram @observatorio_psicanalitico

Tags: Bienal de Veneza 2024 | Diversidade linguística e cultural | Hãhãwpuá | Manto Tupinambá
Share This