Observatório Psicanalítico OP 479/2024 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

Somos as netas de todas as bruxas que não puderam ser queimadas!

Alícia Killner – APA

Beth Mori, surpresa com as fotos que aparecem nos jornais referentes ao “Dia da Mulher” em meu país, perguntou: quem poderia escrever algo para agora, para estes dias, sobre o acontecimento?

Na Argentina, o dia 8 de março foi um dia de mobilização em massa. Em minha opinião, foi o primeiro protesto sério nesse período de governo. Os jornais cúmplices se pouparam de colocar na primeira página as merecidas fotos – eles não as queriam na primeira página, mas estamos acostumados a isso.

As mulheres, jovens e não tão jovens, percebem que seus direitos adquiridos estão ameaçados e, embora a marcha, nesse ano, tenha sido mais modesta do que em outros anos, por causa do medo, ela é sempre impressionante. O centro de Buenos Aires estava tingido de verde, a cor daqueles que lutaram e conquistaram seu direito ao aborto.

O movimento feminista na Argentina teve uma primeira geração memorável por sua bravura, especialmente para sua época. Sua história recente começou em 2015, com o “Ni una menos” (“Nenhuma a menos”) um nome que veio de um poema de Susana Chávez, uma poeta mexicana de Ciudad Juarez. A poeta, que foi assassinada aos 37 anos por três adolescentes, sabia do que estava falando.

Em 2015, houve vários acontecimentos: uma série de assassinatos de mulheres em uma sucessão macabra, e a reabertura do caso de uma adolescente que foi estuprada por um vizinho muito mais velho e engravidou. 

Filha de uma família violenta, o pai havia advertido que, se alguma de suas filhas tivesse uma gravidez duvidosa, essa seria imediatamente excluída da casa. Romina Tejerina escondeu a barriga e deu à luz no banheiro. O bebê foi perfurado por ela com agulhas de tricô. A criança morreu quase no mesmo dia, no hospital da cidade Jujuy, que é fortemente dominada pela hierarquia católica. O estuprador foi absolvido no julgamento apenas por declarar que a relação era consensual, e por chorar pelo destino de “seu bebê”.

Romina foi condenada a 14 anos de prisão por homicídio agravado. Assim é a justiça. O promotor não hesitou em mencionar o quão curta era a saia dela. O conceito de infanticídio, que leva em conta o estado emocional da mulher em trabalho de parto e que teria reduzido sua pena, foi eliminado do código penal pouco tempo antes de seu julgamento. 

Em 2015, um grande movimento transcendeu as fronteiras da Argentina e conseguiu que o caso fosse reaberto. Romina, depois de vários anos na prisão, recuperou sua liberdade. Na prisão, ela estudou direito.

O ano de 2015 abriu caminho para a luta que culminou com o direito ao aborto: o IVE (interrupção voluntária da gravidez) salvou muitas Rominas de morrerem infectadas ou sangrando até a morte em locais clandestinos. Houve muita oposição, muita discussão e muitas marchas até que, após longas vigílias de noites chuvosas e frias, o IVE foi votado em ambas as câmaras e finalmente aprovado em 2020.

Os lenços verdes que as mulheres balançaram substituíram os lenços brancos das Mães da Plaza de Mayo, ambos os movimentos femininos foram épicos e generosamente preencheram a lacuna entre as gerações.

Mas é verdade que a luta das mulheres vai além do direito ao aborto, além do direito de não serem assassinadas ou brutalmente punidas por seus parceiros ou ex-parceiros. 

Por causa da surpresa de Beth, conversei sobre o assunto com Virginia Ungar, a primeira mulher a presidir a IPA, e ela me enviou algumas palestras que ela proferiu e foram publicadas. Ela contou que milhares de vezes lhe perguntaram por que ela foi a primeira a ocupar esse cargo, depois de mais de cem anos de existência da instituição. Em resposta, li seu discurso “From the glass shoe to the glass ceiling” (“Do sapato de vidro ao teto de vidro”), sobre como o olhar masculino constrói e ordena uma subjetividade, desde o baile principesco até o momento em que a carreira de uma mulher é interrompida por ela passar a ter um emprego melhor ou mais bem remunerado. E a questão é: até que ponto nós, mulheres, tornamos a dificuldade como nossa? Até que ponto isso é colocado no coração do ser da mulher, que é responsável até a exaustão por todos os cuidados dos pais, marido, filhos, netos, trabalho, dinheiro e assim por diante?

Somos analistas e, como mulheres, defendemos direitos, mas, como analistas, fazemos com que cada uma, no famoso caso a caso, faça um trabalho que leve a mulher para além da demanda de construção de um conhecimento sobre si mesma, o que pode ser sua saída de qualquer fantasma masoquista falsamente instalado e incutido.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

Categoria: Política e Sociedade 

Palavras-chave: a mulher, o feminino, direitos, aborto

Imagem: 8 de março em Buenos Aires 

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Texto originalmente escrito em espanhol

Observatorio Psicoanalítico – OP 479/2024

Ensayos sobre acontecimientos sociopolíticos, culturales e institucionales en Brasil y en el Mundo

Somos las nietas de todas las brujas que no pudieron quemar!

Alícia Killner – APA

Beth Mori se sorprende de las fotos que parecen en los diarios referidas al Día de la Mujer en mi país. Quién podría escribir algo para ya, para estos días.

En Argentina el 8 de marzo fue una jornada de movilización masiva. En mi parecer la primera protesta seria en este período de gobierno. Los diarios cómplices ahorraron las fotos que se merecía la portada, no quisieron primera plana para ellas, igual ya estamos acostumbradas.

Las mujeres, las jóvenes y las no tanto, ven amenazados los derechos adquiridos, y aunque la marcha fue más modesta que otros años por el miedo, la cosa siempre es impresionante. Buenos Aires en el centro se tiñó de verde, el color de las que lucharon y obtuvieron su derecho al aborto.

El movimiento feminista tiene en Argentina una primera generación memorable por su valentía, en especial para su tiempo y una historia reciente que se inicia en 2015 con el “Ni una menos”, nombre que surgió de un poema de Susana Chávez, poeta mexicana de Ciudad Juarez, nada menos. La poeta que fue asesinada a los 37 años por tres adolescentes sabía de lo que hablaba. El 2015 varios sucesos, una serie de asesinatos de mujeres en espantosa seguidilla, y la reapertura del caso de una adolescente que violada por un vecino mucho mayor quedó embarazada. Hija de una familia violenta, donde el padre había advertido que si alguna de sus hijas tenía un embarazo dudoso sería inmediatamente excluida de la casa, Romina Tejerina disimuló su vientre y parió en el baño al bebé que fue atravesado por ella con agujas de tejer. 

La niña moriría casi el mismo día en el hospital de ese pueblo de Jujuy, fuertemente dominado por la jerarquía católica.

El violador fue absuelto en el juicio sólo por declarar que la relación fue consentida y llorando por el destino de “su beba”, en cambio Romina fue condenada a 14 años de prisión por homicidio calificado por el vínculo. Así es la justicia. La fiscal no se privó de mencionar lo corta que era su falda. La figura de infanticidio que considera el estado emocional de la parturienta, y que le hubiera dulcificado la pena había sido eliminado del código penal poco antes.

En 2015 un gran movimiento que trascendió las fronteras de la Argentina logró que el caso se reabriera. Romina, después de varios años presa recuperó su libertad. En la cárcel estudió Derecho.

El 2015 abrió el camino para la lucha que culminó por el derecho al aborto: IVE, interrupción voluntaria del embarazo que salvó a muchas Rominas de morir infectadas o desangradas en lugares clandestinos.

Hubo mucha oposición, mucha discusión y muchas marchas donde luego de largas vigilias de noches enteras de lluvia y frío, la IVE se votó en ambas cámaras y finalmente fue aprobada en 2020.

Los pañuelos verdes que enarbolaron tomaron la posta de los pañuelos blancos de las Madres de Plaza de Mayo, epopeyas femeninas ambas que tendieron un generoso puente generacional. Pero es cierto que la lucha de las mujeres va más allá del derecho a abortar, del derecho a no ser asesinadas o castigadas brutalmente por sus parejas o sus ex.

A causa de la sorpresa de Beth conversando con Virginia Ungar, primera mujer en presidir la IPA, me envía unas charlas que dio, convertidas en trabajos publicados. Ella cuenta de las miles de veces que le preguntaron por qué la primera en ese cargo, a más de 100 años de existencia de la institución y ella misma se sorprendía de la pregunta. En respuesta leo su alocución sobre “Del zapato de cristal al techo de cristal”, de cómo la mirada del hombre construye, ordena una subjetividad desde el baile principesco hasta el momento de detención en la carrera de una mujer hacia un trabajo mejor o con más paga. Y la pregunta es hasta qué punto las mujeres hacemos nuestra la dificultad, ¿hasta qué punto eso se coloca en el corazón del ser de la mujer, encargada hasta el cansancio de todos los cuidados de padres, marido, hijos, nietos, trabajo, dinero y más etc?

Somos analistas, y como mujeres defendemos los derechos, pero como analistas hacemos con cada una, en el famoso caso por caso un trabajo que la lleve más allá de la demanda a construirse un saber sobre sí que pueda ser su camino por fuera de cualquier fantasma masoquista falsamente instalado e instilado.

(Los textos publicados son responsabilidad de sus autores)

Categoría: Política y Sociedad

Palabras clave: La mujer, lo femenino, derechos, aborto

Imagem: 8 de marzo en Buenos Aires

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Tags: a mulher | Aborto | direitos | o feminino
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