Observatório Psicanalítico OP 459/2023 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

*Coto umbilical: uma ferida narcísica* 

Aline Sant’Anna Ferreira da Silva – SPBsb

Em o “Eu e o Id” Freud menciona, de passagem, o homúnculo cerebral que, com suas desproporções peculiares, tanto diz de nossa relação com o mundo externo. A menção é breve e não se desdobra em maiores conjecturas; talvez um resquício do Freud neurologista… No entanto, numa releitura recente do referido texto, fui fisgada por essa figura, à qual fui apresentada em meus tempos de faculdade.

A imagem que representa a sensorialidade – homúnculo sensorial – traz uma figuração imensa da boca. Embora, estabelecer correlações cerebrais para a teoria Freudiana não seja meu objetivo, a ilustração me intriga e me faz pensar no “tamanho da oralidade”: é com a boca que o bebê recepciona o mundo em seus primórdios. Esse “enorme órgão” está relacionado a dois sentidos que alimentam o Eu com percepções: tato e paladar e, por meio deles, o bebê irá conhecer, reconhecer, estranhar a mãe nos sucessivos encontros e desencontros com o seio.

O bebê recebe a cada mamada uma nutrição para a ilusão de refundir-se com a mãe num só corpo, a ilusão de que o objeto que satisfaz não somente pertence a ele, mas é ele. Freud menciona em “Sobre a sexualidade feminina” a voracidade da libido infantil e o desejo de devorar a mãe, de quem nos alimentamos, expressando, inequivocamente, a intensidade dessa ligação inicial. Anos antes, em “Dissolução do Complexo de Édipo” ele apenas cita superficialmente a privação do seio, à época do desmame, como uma perda prévia ao medo de perder o falo/pênis, e possivelmente emblemática desse temor.

Freud teve um empenho de construir e sustentar todo o arcabouço teórico da psicanálise e foi alguém, inquestionavelmente, a frente do seu tempo. As limitações que observamos em seu pensamento no que tange ao feminino e às mulheres me parece ter sido reconhecida por ele, favorecendo a chegada de pensadoras no universo psicanalítico. Freud deixou “fios soltos” em vários trechos de seus escritos; em alguns deles, expôs suas limitações abertamente, em outros, protegeu-se com construções calcadas no pensamento masculino dominante em seu tempo.

Naturalmente, o avanço da compreensão psicanalítica acerca das questões femininas traz luz para pensar o psiquismo humano e não apenas das mulheres. A relação mãe-bebê, a relação do bebê com o corpo da mãe (desde a concepção) e os estados de mente arcaicos são temas centrais para pensarmos o psiquismo humano e por eles enveredo a seguir.

Quando o assunto é o medo da castração e toda a literalidade que permeia os textos freudianos ao associar o tema com o temor de perder o pênis, suponho que a questão seja mais antiga e primordial. Somos todos castrados porque nascemos e fomos separados do corpo da nossa mãe; porque, mais cedo ou mais tarde, perdemos o peito (a mamadeira, a chupeta) e com ele a ilusão de completude que aplacava as angústias mais primitivas.

Encontro uma pertinente articulação entre minhas abstrações e a ideia desenvolvida por Françoise Dolto a respeito da castração umbilical. Nesse sentido, a castração se impõe como experiência de dor e de luto precoces, muito antes da constatação de uma diferença anatômica entre os sexos. Seguindo o mesmo fio de pensamento, tenho a lembrança de um trecho de artigo científico lido, ao acaso, numa revista de cirurgia plástica sobre reconstrução anatômica da cicatriz umbilical: “A cicatriz umbilical, apesar de deprimida e aderida aos planos profundos, _é a única cicatriz no corpo humano que o indivíduo faz questão de possuir_.” 

Talvez, o coto umbilical seja a ferida narcísica por excelência e represente a perda do ambiente uterino, a dor de nascer, como vemos no belíssimo poema de Eduardo Galeano:

_Não nos provoca riso o amor_ _quando chega ao mais profundo_ _de sua viagem, ao mais alto de seu voo: no mais_ _profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros,_ _vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há_ _nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói._ _Pequena morte, chamam na França a culminação do_ _abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos_ _faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia._ _Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar_ _nos nasce._

À propósito do poema, surge um acréscimo em minhas elucubrações: assim como o nascimento, também a morte – que nos coloca de frente com a finitude – é algo do qual nenhum ser humano escapa. Então, eu diria que somos todos castrados porque nascemos e porque morremos.

Seguindo com as ideias na direção das fantasias de completude, o pênis – enquanto falo – é também revestido de uma certa ilusão para o menino: não tenho/sou o peito (não tenho/sou esse outro – mãe, pai, babá – com quem me fundi para suportar a separação do nascimento), mas tenho o pênis. Talvez toda potência fálica seja uma ilusão de poder; e na relação com o outro (que exerce a função parental de maternar) o bebê experimenta o sentimento de que ela (figura materna) detém o poder, uma espécie de “suposto poder” materno, que também é uma ilusão. O bebê se ilude, nesse caso, como defesa e, posteriormente, precisa se desiludir precisa lidar com esse luto. Sendo assim, o tamanho do poder que o bebê atribui à mãe, não diz do poder real da mãe e sim da dimensão do desamparo e dependência do bebê.

Alguns exemplos me ocorrem para ilustrar o que pode restar num adulto – em forma de fantasias, criações artísticas e perversões – como defesas para fazer frente a essas perdas iniciais (primeiras castrações), e vou salientar alguns deles. Primeiramente, a existência de um site britânico para comercialização de leite materno que atrai homens adultos para a compra. O produto muitas vezes é anunciado como ouro líquido e o litro pode custar até R$ 480,00, segundo uma reportagem que circulou em março do ano corrente. Na sequência, trago algumas imagens criadas pela artista Louise Bourgeois, nas quais ela retrata os temas maternidade e família:

https://www.moma.org/s/lb/curated_lb/themes/motherhood_family.html

Por fim, trago minha forte impressão de que é especialmente difícil para o homem encontrar saídas para elaborar essa perda primária em relação ao corpo da mãe. O entorno social em nossa cultura machista não costuma acolher de bom grado um homem que não se afirme de forma máscula e que possua traços femininos em sua maneira de ser. Talvez, ao contrário do que pensava Freud, os caminhos do menino na dissolução do complexo de Édipo não são tão mais simples. A partir de uma dificuldade de se apropriar de características da mãe (via identificação), o menino pode cair em um lugar comum de buscar na relação amorosa uma mulher para chamar de sua e, em casos extremos, pode não suportar a ruptura do relacionamento, culminando nas dramáticas estatísticas de feminicídio – com frequência seguido de auto extermínio – que vemos diariamente nos jornais.

Mais uma vez, encontro nas expressões artísticas algo que confirma, amplia, enriquece o pensamento psicanalítico, e encerro com Gilberto Gil:

 _Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria_

_Que o mundo masculino tudo me daria_

_Do que eu quisesse ter_

_Que nada, minha porção mulher_ _que até então se resguardara_

_É a porção melhor que trago em mim agora_

_É o que me faz viver_

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

Categoria: Política e Sociedade

Palavras-chave: oralidade, feminino, castração, arte

Imagem: Umbilical Cord, Louise Borgeouis, 2000 https://www.moma.org/s/lb/curated_lb/themes/motherhood_family.html

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Tags: arte | castração | feminino | oralidade
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