Observatório Psicanalítico – OP 409/2023

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

Dominar e escuridões: a desventura do Titan como parábola trágica

Carolina Scoz (SBPCamp)

É possível que nunca se esclareçam as razões exatas do desaparecimento dos cinco passageiros do submersível Titan, obra da companhia norte-americana OceanGate. Há destroços nos quais identificaram abaulamentos que sugerem implosão devido ao esmagamento sob altíssima pressão. Nada além disso restou – nem imagens do acidente, nem gravações de vozes ou fragmentos de corpos (emergirá algo que familiares e amigos possam sepultar a fim de seguirem vivendo ao menos sem a culpa de terem abandonado seus mortos num universo incivilizado, onde inexistem ritos de adeus?). 

Logo alguns curiosos sugeriram que o acidente teria sido forjado para que bilionários endividados fugissem de credores. É uma hipótese plausível, exceto pela terrível inclusão de Suleman Dawood, jovem universitário, na lista de vítimas fatais. Vi recentemente que ele levara consigo um cubo mágico de Rubik. Havia se registrado no Guinness World Records, planejando inaugurar um feito extraordinário. Embora a descida ao longo de 3.800 metros subaquáticos fosse uma demonstração inequívoca de espírito destemido e abundância financeira – resultando numa odisseia que nenhum de seus amigos jamais poderia contar no retorno das férias do verão europeu – a fissura por esse recorde específico sugere algo sobre o garoto. Talvez que desejasse provar a resistência de sua excepcional inteligência em condições bastante hostis. Voltaria todas as peças desordenadas a seus lugares corretos, em tempo mínimo, girando fatias do cubo multicolor freneticamente e sem falhar, sob a câmera que o pai levou para a filmagem.

Haveremos de esperar até que surjam diagnósticos mais confiáveis do que aconteceu a quilômetros da superfície oceânica. Por enquanto, apenas intrigantes conjecturas sobre a engenharia de submarinos e a fisiologia dos grandes mares. Quais são, afinal, todos os recursos necessários para sobreviver num ambiente colossal do qual o ser humano conhece somente 3%? Um pequenino quadrado do cubo mágico e nada mais – é o que está descrito pela atual geografia. Além das conjecturas, surgiram espantos. Coisas que vamos dizendo uns aos outros. Que é preciso alto grau de prepotência ou não se aceita entrar num equipamento cujas vulnerabilidades foram apontadas por diversos especialistas, uns angustiados pelo risco imposto aos desbravadores a bordo, outros preocupados com o efeito do iminente fracasso sobre a reputação mercadológica da empresa. 

Que todos eram indivíduos sagazes, bem-informados, experimentados em aventuras na natureza – então, como puderam se lançar a uma proeza que a nós parece evidentemente temerária? E como a mãe propôs ceder seu lugar ao filho, num gesto que parece negar o desfecho mais provável daquela viagem? Como um garoto que remonta um cubo mágico em 12 segundos foi atraído para uma expedição que o confinaria por oito horas, numa espécie de Zepelim aquático lacrado por fora, sem qualquer controle ou rota de fuga? Como ele supôs que, além do tal cubo, bastaria levar meias, gorro, e a playlist de músicas favoritas? Como foi que chegamos ao ponto de banalizar a quase onipresença das misérias humanas no mesmo planeta em que brincadeiras exóticas, acessíveis a uma ínfima minoria, custam milhões de dólares? 

Como é possível escapar-nos tanto a capacidade de pensar – incontáveis vezes num só dia – que, tragicamente, acabamos construindo nossas derrocadas com as próprias mãos?

ANTES QUE JULGUEMOS OS EXCÊNTRICOS

Deve pulsar dentro de nós um desejo atávico pelo domínio do desconhecido. O desejo irrefreável que condenou à morte o Capitão Ahab, obstinado a penetrar as vastidões marítimas a fim de capturar a baleia Moby Dick. Um livro cujo enredo, cá entre nós, é devassado o suficiente para sabermos muito bem qual será o final da caçada. Se continuamos a leitura, há de ser porque identificamo-nos com a estupidez de Ahab que, além de destruir sua própria vida, arrasta consigo os tripulantes. “Get ready for what Jules Verne could only imagine… a journey to the bottom of the sea”, instigava o anúncio da OceanGate nas redes sociais. Foi, será, a realização heroica do que era somente devaneio literário o que atraiu esses cinco homens para a escuridão?

Nós, também, flertamos com a morte para chegar mais e mais ao inacessível. Sobreviver a temperaturas desérticas, ou inóspitos terrenos glaciais. Fincar bandeiras em topos de cordilheiras. Atravessar as poucas florestas selvagens, onde espécies vivem ingenuamente livres desses predadores eficientes que somos. Penetrar o espaço sideral e orbitar ao redor de gigantes astros. Mapear buracos negros, abismos cósmicos insaciáveis que tragam até a luz. Alcançar o fundo do mar onde jazem ossos antigos e naufragadas embarcações, capturando imagens antes que a lenta degradação os consuma e nada mais exista além do breu absoluto.

Foi Drummond (“O homem, as viagens”) quem disse isso mais esplendidamente do que sou capaz: o homem pode explorar todos os planetas do sistema solar e continuará entediando-se. Não apenas visitá-los, mas dominá-los, e sua ânsia não findará. Quem sabe, então – sonha o poeta –, daí se aventurasse a mirar suas “próprias inexploradas entranhas”. Relembro aqui um breve trecho:

“Ao acabarem todos [os planetas]

Só resta ao homem

(estará equipado?)

a dificílima dangerosíssima viagem

De si a si mesmo:

Pôr o pé no chão

Do seu coração

Experimentar

Colonizar

Civilizar

Humanizar

O homem

Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas

A perene, insuspeitada alegria

De con-viver”.

Mas nem esse retorno à biosfera psíquica significa que desistimos por completo de triunfar sobre o incognoscível. Nós, também, em nossos consultórios, vez ou outra esquecemos da impossibilidade de chegar lá. 

Chegar lá e recompor o passado, reviver os traumas, restituir aos pacientes o que descobrimos ter-lhes faltado – ou sufocado – naqueles primeiros tempos após o nascimento. Decifrar os misteriosos anos da infância, nomear cada objeto ausente ou perdido que imaginamos recolher; cada vazio da negligência materna, cada ferida melancólica. Chegar lá, ao marco originário da existência, e ver de perto, e impedir que desastres como aqueles voltem a ocorrer na biografia de outras crianças, futuros adultos destinados a carregar o passado que lhes (de)formou.

Podemos todos concordar que a psicanálise se desiludiu aos poucos de localizar o reprimido nas profundezas do inconsciente – o que a tornaria uma arqueologia (ou oceanografia) terapêutica. E podemos, sim, reconhecer que a metáfora do iceberg é uma ideia apócrifa, nunca realmente defendida por Freud, como outras bonitas expressões que atribuímos a ele. No entanto, há uma parcela dessa radical ilusão epistemofílica que permanece latente, a despeito de tudo o que já estudamos e vivemos.

Transformações em K substituindo Transformações em O – pretensão de conhecer o que é inesgotável mistério. Bion (1967, Second thoughts) advertia que a angustiante complexidade de um texto, por exemplo, é o que nos convida à memorização. Ficamos “sabidos” ao possuir na mente cada parágrafo escrito pelo autor, ao reconstituir aquela sequência de proposições e exemplos como uma verdade encarnada em nós. Convencemo-nos de que isso ilumina plenamente o tópico abordado, que assim chegamos ao limite da imensidão. Atravessamos as muitas camadas obscuras: agora, sim, compreendemos? É dessa extasiante sensação que precisamos, vida afora? Todos nós, e não apenas os ricos extravagantes?

OS NOMES DAS COISAS

Meu pai gostava de repetir que escolhera Carolina para nome de sua filha porque nunca conhecera alguém infeliz que o trouxesse consigo. Não é possível saber o quanto era factual essa afetuosa narrativa. Posso supor, no entanto, que nenhuma dessas mulheres que meu pai tinha em mente pareciam a que Chico Buarque transformou em canção: “Carolina, nos seus olhos fundos, guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo…”. Ademais, nomes de filhos costumam nascer da inconsciente aposta narcísica que um vocábulo acertado consiga proteger o ser desamparado que escorregou do útero para o berço. E, em se tratando do meu pai, tinha lá suas razões para querer vaticinar felicidade sobre aquela pequena família, abençoando seus descendentes com palavras benignas, ele que tinha um nome agourento, o qual nunca apreciou – “filho do sofrimento”, ele dizia – lembrando-nos que assim foi chamado o bebê de Iracema, na obra escrita por José de Alencar, a índia que morreu ao parir Moacir, fruto do romance proibido entre a moça nativa e o jovem colonizador português.

Pode bem ter surgido daí meu apreço pelos nomes das coisas. “Vera é um bom nome para uma analista”, eu disse um dia numa sessão. Feito de quatro letras – duas vogais, duas consoantes – é conciso e simples. Não confunde, não engana. A mim faz lembrar dos tantos psicanalistas, começando pelo jovem Freud em carta a Fliess, que defenderam a busca pela verdade como a essência do trabalho clínico. “Vera Lúcia, a verdadeira luz, nem a luz medrosa, titubeante, nem a luz agressiva que cega nossos olhos. Por sorte, não uma Vera Regina, a rainha da verdade, Deus me livre!” Ela ouvia, deixando que eu seguisse com essa pequena etimologia transferencial. Não era analista de rir à toa – por certo, não quando a graça seria uma tentadora defesa contra a verdade desconcertante, ou mesmo dolorosa.

Titan parece-me um nome fiel para uma invenção que promete descer até o chão dos mares. Os Titãs nasceram no início dos tempos, antes dos poderosos deuses olímpicos (Zeus, Hera, Deméter, Hades, Poseidon e Héstia) e, também, de humanos, seres frágeis e mortais. “Ambiciosos, revoltados e indomáveis, adversários tenazes do espírito consciente, exprimem a oposição à espiritualização harmonizante. Sua meta é a dominação, o despotismo”, afirma Junito de Souza Brandão (2009, Mitologia Grega) sobre essas forças primitivas e violentas. Se não fosse pelo Titã Cronos, seus genitores Urano e Gaia – céu e terra – nunca haveriam se desprendido um do outro. Viveriam fusionados, eternamente, numa cópula opressiva que nada poderia gerar nesse estado pertinaz de indiferenciação. E, se não fosse por Zeus, filho de Cronos e Reia, todos os filhos engolidos por Cronos nunca seriam liberados do cárcere implacável em que se transformara o corpo do pai devorador. Sob a perspectiva dos gregos, portanto, caso queiramos definir a gênese da humanidade, não basta retrocedermos até o primeiro homem. A linha da história parte de Cronos, o grande Titã patriarca das sucessivas gerações que povoariam a terra. Um patriarca da voracidade que nos habita.

Por isso imagino que Titan seja o melhor nome possível quando se trata de batizar um invento feito para voltar até o lugar profundo onde nenhuma forma de vida consegue respirar, exceto quem se arrisca a embarcar nos pulmões metálicos do Titan, esse lugar fascinante de audácia e morte. 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

Categoria: Política e Sociedade; Cultura 

Palavras-chave: voracidade, estupidez, tragédia, pulsão de morte, Cronos

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Tags: Cronos | estupidez | pulsão de morte | tragédia | voracidade
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