Observatório Psicanalítico – OP 354/2022

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

Ensaio sobre o Colapso Brasileiro de 2020

Víctor Cruz de Freitas (SPRJ)

Há alguns anos, mais de uma década, vimos nos dedicando aos estudos dos traumatismos precoces. Entre outras coisas, observamos que, em situações onde houve experiências traumáticas precoces, o traço mnemônico prematuramente “inscrito” exerce seu poder sem muitas restrições, torna-se soberano, e a atualização de seu efeito, no a posteriori, testemunha em detrimento da experiência de prazer e dos sentimentos de confiabilidade e segurança.

Nesse ensaio, dedicamo-nos aos efeitos do trauma atual, a partir da crise política, social e sanitária que assola nosso país desde o início do ano de 2020.

Mas o que haveria de novo no trauma atual? Quais seriam suas implicações sociais e psicanalíticas?

O Colapso

O termo colapso – de inspiração winnicottiana – foi escolhido para pensar a crise política, social e sanitária que assola o nosso País – mais precisamente – desde 2020, momento sócio-histórico de grande significância para todos nós, sobretudo no que se refere aos temores e terrores decorrentes do risco de contaminação pelo Coronavírus. O colapso colocou em xeque a qualidade de nossas defesas. Não apenas as dos organismos afetados pelo vírus, mas, antes de tudo, as defesas sanitárias e governamentais, gerando em boa parte da sociedade, profundo sentimento de desassistência e desproteção.

Sobre o colapso, apoiados em Winnicott, compreendemos que o ego organiza as defesas contra o colapso do próprio ego e é justamente esta organização que está aqui ameaçada, sob risco da própria aniquilação, da aniquilação do próprio self. Propomos pensar a sociedade a partir do ego, e o governo a partir das defesas.

Mas o ego (a sociedade) não pode se organizar contra o fracasso ambiental (governamental), na medida em que a dependência é um fato da vida. 

Somos dependentes do governo e do sistema capitalista, por exemplo. 

Vale salientar que “o medo do colapso é o medo de um colapso que já foi experienciado”. Observamos isso tanto na história individual de alguns de nossos pacientes, quanto na história do processo de colonização exploratória brasileira e na ditadura.

Face à ruína das defesas, emerge o trauma, e assim, fomos todos relançados à condição radical de insocorribilidade (hilflosigkeit) já descrita por Freud.

Parece-nos oportuno aqui evocar a noção de trauma para S. Ferenczi (1934) como ruptura ou comoção. Para o autor, trata-se de uma reação a uma excitação externa ou interna, mais sob um modo autoplástico, que modifica a si mesmo, do que aloplástico, que modifica a excitação. Em suma, diante da adversidade traumática, não podendo modificar o ambiente causador do trauma, é imperativo que nos adaptemos nós mesmos.

Choque inesperado e esmagador, o trauma equivale à aniquilação do sentimento de si mesmo, da capacidade de resistir e de pensar. (Ferenczi, 1934). Ataca, dura e diretamente, a integridade narcísica de um indivíduo, de uma cultura ou mesmo de uma sociedade inteira. Vivemos a queda daquilo que acreditávamos ser permanente. (Freitas, 2022)

Aquilo que ouvíamos desde criança “Moro, num País tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Mas que beleza! ” já não se sustenta mais. Tentamos, por algum tempo, acreditar nisso. Tentamos acreditar, com veemência, que o Brasil seria esse país, um lugar maravilhoso e sagradamente protegido, inviolável, um lar, um heimliche. Mas quanta ilusão!

Vale ressaltar que esse tipo de crença foi descrito por Freud (1927) como sentimento religioso, sensação do eterno e sentimento oceânico.

Mas estávamos, durante a Pandemia da Covid-19, diante do unheimliche, do infamiliar, estrangeiro, estranho, desconfortável, sombrio, horrível, sinistro, inquietante, lúgubre, demoníaco, morto, inanimado, inumano. O vírus é unheimliche, e a Pandemia, inusitada e avassaladora, é geradora de trauma. Decorrente da Pandemia, o trauma atual “recruta experiências traumáticas de outrora, podendo engendrar um desencadeamento traumático em série” (Freitas, 2020)

Tomando a sociedade brasileira, a massa, o povo, em analogia ao aparelho psíquico imaturo pouco desenvolvido, percebemo-la inibida pelo medo, frágil, vulnerável e incapaz de protestar. Esse medo, quando atinge o ponto culminante, obriga as pessoas a se submeterem automaticamente à vontade do agressor, a adivinhar o menor de seus desejos, a obedecer, esquecendo-se de si mesmas e a identificarem-se totalmente com o agressor. (Ferenczi,1932).

É lamentável, triste e inaceitável que psicólogos e psicanalistas se identifiquem e se posicionem pró-fascismo.

Mas o que esperar de um país em que teve seus militares-torturadores anistiados?

Onde não há justiça e reparação, sobra a compulsão à repetição. Não por acaso, estamos sendo governados por um herdeiro da ditadura, que conseguiu avançar para um segundo turno depois de 4 anos de um desgoverno absurdo e desastroso.

O Brasil não reconhece os crimes que cometeu desde os tempos da escravidão, e portanto repete e repete e repete o terror. (Degani, R., 2022)

Tendo em vista o Colapso Brasileiro de 2020, observamos seres “humanos” robotizados, sem ressonância afetiva interna alguma, em real situação de assujeitamento. Conforme Cyrulnik (2016), isso corresponderia aos efeitos do trauma.

Para o autor, “Enquanto o trauma não tem sentido, fica-se paralisado, aturdido, abestalhado, embaralhado por um turbilhão de informações contrárias (fake news) que nos tornam incapazes de decidir” (ou de ter qualquer tipo de discernimento e de nos implicar como parte responsável por todo esse colapso). (Cyrulnik, 2006, p. 27).

Além disso, é provável que parcela significativa da população, por nós chamada de seres humanos robotizados, não seja capaz de ter um contato autêntico e verdadeiro com o mundo, com a realidade e que não seja, tampouco, capaz de pensar sobre sua realidade e criá-la.

A identificação com o agressor se dá tanto pelo medo, quanto pela identificação de que esta é uma forma assegurada para a obtenção do prazer/gozo.

O pior foi realmente a negação, a fala de que nada aconteceu, que não houve sofrimento, que o vírus “não passava de uma gripezinha” e que não há fascismo no Brasil. Isso é, sobretudo, o que torna o traumatismo ainda mais patogênico, nos dirá S. Ferenczi (1931). 

Supomos que isso tenha feito com que parte da população ficasse paralisada diante do trauma, impedida de pensar e de se movimentar.

A respeito da negação, propomos pensá-la a partir da alucinação negativa de Green: “a alucinação negativa é a não percepção de um objeto ou de um fenômeno psíquico perceptível”. Entre outras coisas, isso tem a ver com “uma percepção indesejável, insuportável, ou intolerável” e “agrega uma alucinação negativa que traduz o desejo de recusá-lo ao ponto de negar a existência dos objetos da percepção”.

Não obstante, por mais bem-sucedido que tivesse sido esse mecanismo de defesa radical, ele foi e é um ataque direto ao pensamento e ao afeto. Seu preço será – inevitavelmente – a brancura do pensamento e o esvaziamento afetivo. Quando a alucinação negativa falha, talvez reste apenas o ódio. Em todo caso, haverá um empobrecimento do próprio Eu.

 As eleições 

Parafraseando o Presidente eleito, pouco antes e durante as eleições, tentaram nos enterrar vivos. Mas é primavera, e ainda que nos cortem algumas flores, o que pulsa é a vida. 

Tivemos o infortúnio de ouvir descabimentos de vários tipos. Quiseram nos calar, ao falso favor da suposta neutralidade e abstinência psicanalítica. Que hipocrisia! Diríamos que se calar diante de tal circunstância consistiria em ser omisso ou cúmplice. 

A psicanálise começou fugindo do nazismo, Freud, de Viena à Paris, com a ajuda da Princesa Marie Bonaparte.

É verdade, a psicanálise por vezes flertou com movimentos bizarros, foi conivente com torturas como no caso Amilcar Lobo e agora, por alguns dito analistas, se identifica com o anti-humano, com o fascismo brasileiro denominado bolsonarismo. Mas é chegada a hora de voltar a escutar o silêncio dos sem voz, dos oprimidos e dos deslocados.

Ouvimos que não poderíamos nos posicionar politicamente, mas o que escutamos foram os nossos corações.

Era preciso acessar, dar forma e destino aos nossos afetos, e não nos desafetar. Era preciso que a(s) pulsão(ões) circulasse(m), não de forma hordeira e primitiva, mas que circulasse(m).

Aos poucos, entidades e sociedades psicanalíticas se posicionavam – pelo amor – por todo o Brasil. Outras se calavam.

Mas é isso, a luta continua, e seguimos nos posicionando, pois não podemos ser silenciados como cúmplices, nem sermos adoradores do cão.

E assim é, sempre que nos posicionamos ganhamos em liberdade, autonomia e fortalecemo-nos egoicamente. Não obstante, sempre corremos o risco de ser fatidicamente (ou no campo da fantasia) expulsos de alguma parte do paraíso.

Considerações finais

Pode-se dizer, com certa segurança, que a crise político-social que assola o Brasil decorre de um funcionamento governamental nos moldes antissociais, acrescido de aspectos narcisistas e delirantes.

São exemplos disso, o apoio a atos antidemocráticos pró-ditatoriais, fascistas, o negacionismo da gravidade e o escárnio diante da Pandemia da Covid-19, a desconsideração radical de orientações científicas oriundas de organizações governamentais de saúde internacional e nacional, o ataque a jornalistas e aos meios de comunicação, a crença descabida em ações e medicação que não têm eficácia comprovada, a desproteção e incentivo a condutas anti-sanitárias, e, mais recentemente, pós eleições, o aceno nazista, o pedido de intervenção militar e a negação da realidade fundamentada pelo delírio persecutório das eleições fraudadas.

Os transtornos antissociais são também compreendidos como transtornos da personalidade ou caráter. Indivíduos portadores destes transtornos são – muitas das vezes – considerados como intratáveis, e manifestam condutas mentirosas, ludibriantes e indiferentes quanto ao sofrimento dos outros.

É inconcebível aventarmos uma psicanálise que se identifique (ao falso favor da moral, do respeito às diferenças e da liberdade de pensamento) com um ser narcisista, onipotente, a quem só interessam os seus, sua família, seu clã e sua raça, escolhido pelos signos evidentes da Divinidade, feito à sua imagem. Mestre do Universo, do Tempo e da Morte. Inatingível, imbrochável, imortal e atemporal.

É muito triste e indignante ver pessoas queridas e colegas de profissão se identificando com tamanha barbárie.

Negação ou delírio coletivo? Sabemos que o delírio se caracteriza por convicções falsas firmemente mantidas, falsos juízos da realidade. Estamos diante do quê? Da banalização do mal? De personalidades cindidas em que alguns aspectos não se comunicam com outros? Abriram-se as portas dos infernos e os traumas enquistados estariam jorrando um pus malévolo indiscriminadamente?

Seja lá o que for, a crença em um mundo justo é o que dá uma esperança de resiliência (Cyrulnik, 2006). Ela é fundamental para que possamos almejar uma restauração do trauma, dando continuidade aos processos que há muito sofreram ruptura. É nisso que apostamos.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Categoria:  Política e sociedade

Palavras-chave: Colapso, identificação com o agressor, desmentido, negação e eleições.

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Tags: Colapso | desmentido | identificação com o agressor | negação e eleições
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