Observatório Psicanalítico – OP  345/2022

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

“Caetaneando” para superar a dualidade: de Freud  à Vaca Profana

Kátia Barbosa Macêdo (SBPG)

Temos assistido a uma sequência de fatos  violentos como guerra, morte, pandemia, miséria e penúria, o que nos coloca a todos em uma posição de vivência de desamparo, angústia e medo, nos tornando a todos fragilizados e suscetíveis de ficarmos à deriva. 

Em tempos de muita angústia de castração  e impotência é muito fácil as pessoas buscarem de forma ilusória uma solução mágica ideal capaz de  transformar essa realidade cruel.  Às vezes se busca isso em uma religião , em um grupo ou em um líder.  A angústia e o desamparo levam a idealização do líder, em busca por amor e proteção. O sentimento de mal-estar fomentado pela pulsão de morte violenta passa a ser canalizado para os outros, de forma que a pessoa se sente protegida dentro desse grupo ou  por um líder,   e como consequência passa a atacar  e direcionar toda sua violência para os outros que não pertencem a esse grupo. 

Inundada como muitos por essa sensação de impotência e desamparo, fui buscar na psicanálise e na arte elementos para processar, elaborar e, quem sabe, transformar essa realidade. A obra artística sobre a qual me debrucei foi a composição cubista de Caetano Veloso, a Vaca Profana. Essa  obra  é considerada por muitos um símbolo da crítica aos padrões e indica uma disrupção de convenções estabelecidas, e permite várias interpretações. Nela, Caetano  usa frases aparentemente desconexas, com significados dúbios e enigmáticos. Ao mesmo tempo que ele aborda temas muito pessoais, indicando uma reflexão na construção da alteridade no tratamento com o outro, traz  o caráter de universalidade  de nossa condição humana. Aqui farei recorte de versos onde ele indica com um jogo de palavras sua mudança interna em relação ao julgamento de si mesmo e do outro, considerado diferente. O critério para esse recorte foi ilustrar, num diálogo com a psicanálise, a possibilidade de superar a situação de dualidade, polarização a que estamos assistindo de forma estarrecida. 

Freud (1921, 1930)  já sinalizava que para nós a vivência da angústia é difícil, e aciona todo um trabalho psíquico. Em psicologia das massas ele já indicava como somos alterados em nosso funcionamento psíquico quando  fazemos parte ou compomos uma massa. A vivência de desamparo leva à necessidade de buscar um líder, talvez buscando inconscientemente reviver o encontro com o Pai da Horda Primeva, que ama e protege a todos igualmente. Nessa obra, ainda comenta o processo de identificação com o líder e os ganhos emocionais pelo simples fato de sentir que faz parte de um grupo, que poderiam ser expressos como “Oba, que alívio, não estou sozinho, sou aceito, agora faço parte de um grupo, não estarei mais à deriva, serei protegido. Posso jogar para fora no outro grupo toda minha carga de insatisfação, violência e mal-estar nos outros que não fazem de meu grupo.” 

Os motivos que levam uma pessoa a fazer uma escolha por um líder estão relacionados com  valores e aspectos da personalidade que se identifica, adesão a um discurso ideológico e ressonância de suas fantasias de ter atendidas suas necessidades de amor e proteção, bem como de aliviar suas angústias mais primitivas. 

Essas vivências assumem uma força, de tal modo que toda nossa dualidade pulsional se expõe , e assim, tudo de bom para mim e meu grupo, e tudo de mal para os outros, que passam a ser vistos e tratados como inimigos, pois não fazem parte do meu grupo. Assim se constitui a polaridade que estamos assistindo. O primeiro trecho que recortei sinaliza essa reação. 

“Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada [ …]
Vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los “puretas”

“Vaca das divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas”

Nesse primeiro verso nos deparamos com uma fala que ilustra de forma clara o movimento de oposição entre nós (do mesmo grupo) versus o outro. De forma arrogante, julgam os outros, por diferentes que são, e desejam que todo o mau seja direcionado para eles. Esse mecanismo de defesa alivia a angústia, fortalece o sentimento de pertencimento e possibilita a projeção de conteúdos violentos próprios para um outro que não eu. Desse modo, nós, os “bons” segundo nosso julgamento, merecemos todo o leite bom e os outros, os “caretas”, merecem  como punição só o leite mau. Sinaliza exatamente a reação que surge diante da polaridade nós-eles. 

Outra psicanalista que abordou esse processo foi  Melanie Klein (1935, 1946). Ela descreveu que no desenvolvimento normal, a criança pode superar uma posição de dualidade dividida  (bom – mau), denominada de esquizoparanóide, construindo a possibilidade de conquistar uma  posição  mais integrada, global, também chamada de  posição depressiva.   A entrada na posição depressiva depende da autopercepção de que todos nós temos aspectos amorosos e também  violentos. Como diz a música, “de perto ninguém é normal”, e ao constatar que é assim, não faz mais sentido se agarrar a uma ideia arrogante e egocêntrica de que apenas eu tenho o direito ao bom, surgindo então  o conceito de alteridade, a noção de concernimento, a possibilidade de se colocar no lugar do outro, de se compadecer com a dor do outro. Pela progressão dos versos, Caetano sinaliza uma mudança na perspectiva sobre si mesmo e sobre os outros. 

“Mas eu também sei ser careta
De perto, ninguém é normal   […]
Dona das divinas tetas
Quero teu leite todo em minha alma
Nada de leite mau para os caretas”

Ele indica uma autorreflexão, compreendendo que em todo lugar há caretas e que ele também se vê como um de vez em quando. É como se ele deixasse sua posição de arrogância em julgar os outros como ruins por diferentes que são, e compreendesse o princípio da alteridade. O mesmo direito que eu tenho de ser como sou e fazer as coisas como penso ou quero. Então,  os outros  já não devem ser punidos, e têm o direito de receber o leite bom também.  Termina a canção com versos que sinalizam essa mudança, tendo a presença da compaixão.  

Deusa de assombrosas tetas

Gotas de leite bom na minha cara

Chuva do mesmo bom sobre os caretas…

Quem sabe possamos todos superar essa polaridade e dualidade , e chegarmos em uma posição mais  integrativa, onde possamos perceber que ninguém é melhor que ninguém, que todos temos o direito a uma sociedade mais inclusiva. 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Imagem: Anjos e Demônios (Escher)

Categoria: Política e sociedade

Palavras-chave: Desamparo, Grupos, Polarização, Cisão, Integração  

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Tags: Cisão | desamparo | Grupos | Integração | Polarização
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