Observatório Psicanalítico – OP – 324/2022

 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo 
Ancestralizar

Maria Teresa Lopes (SBPRJ) 

Ancestralizar

(Poema da Morte)

“Canta no último dia

Iku a luz da noite

A dor da nossa agonia

Canta Iku com alegria.

Canta no último dia

Chamando Oyá balé

E sua ventania

Para levar para Orum

Mundo que ninguém via

O espírito que livre partiria.

Canta Iku com alegria.

Canta Iku no último dia

Despertou Omolu que dormia

Para se alimentar do ará

Daquele que não mais via.

Comeu Omolu o que podia.

Canta Iku no último dia

A borboleta Oyá a alma varia

Chamou Nanã da terra fria

Para abraçar o egun do dia.

Canta Iku no último dia

Nanã dançou em melodia

O banhou de lama sem agonia

Para findar com poesia

O fim do seu tempo no Ayê

Eis outro dia.

A Olodumare Nanã entregou

Seu Orí abençoou

O seu sopro retornou

Outro dia ele voltaria.

Canta Iku com alegria

Canta Iku com alegria

Ancestralizou quem aqui vivia

Agora no tempo permaneceria.

Canta Iku

Canta Iku com alegria.”

(Omoloji Àgbár)

Dessa forma, Milton, - que não é Nascimento - mas Gonçalves - que não fez música, mas fez teatro de alta qualidade, e também se esmerou pela voz e pela criatividade atuando como diretor, produtor e dublador - vira ancestral. Seu legado fica não somente como uma grande obra construída por um negro em ascensão, mas como um representante  do povo negro, que furou algumas bolhas para chegar onde chegou. 

Milton foi, segundo Elisa Lucinda, o Abre-Alas para artistas negros atuarem em teatro, TV e Cinema. Foi um ativista do movimento negro e muito lutou para que os homens e mulheres Negras tivessem seu espaço conquistado e respeitado no meio artístico. 

Mineiro de nascença, mas sua carreira começa na cidade de São Paulo como gráfico, até se encantar com o teatro, depois de assistir à peça “A Mão do Macaco”, a convite do ator Egídio Écio. A partir daí, ninguém mais segurou esse artista que brilhou no teatro, na TV e nos cinemas brasileiros. Estreou no teatro com o diretor Augusto Boal, que procurava alguém para fazer o papel de um Preto Velho na peça Ratos e Homens, no grupo Teatro de Arena de São Paulo, onde veio a conhecer grandes nomes do teatro como Gianfrancisco Guarnieri, Flávio Migliaccio, Oduvaldo Viana, entre tantos outros. Escreveu quatro peças, sendo uma delas para o teatro experimental do negro e dirigida por Dalma Ferreira. “Ali aprendi tudo o que sei sobre teatro. Foi fundamental para minha compreensão do mundo”. 

Esse era Milton Gonçalves, um artista enorme, carismático, que no inicio de carreira sofreu pela cor que carregava e mesmo assim, lutou e conseguiu se posicionar frente à opressão sofrida pela população negra neste país tão racista como o Brasil. Conseguir furar a bolha racial não é fácil, principalmente naquela época em que se deslumbrou com o teatro. Penso que isso, talvez, tenha sido a chave que o levou a ser um militante do movimento negro, chegando mesmo a se envolver na política e se candidatar ao governo do estado do Rio. A sua luta, porém, não foi em vão. Em uma entrevista ele diz assim: 

– “Milton, você acha que quebrou barreiras? 

– Eu só quebro barreiras, amigo. O que eu mais faço na minha vida é quebrar barreiras, mas eu gosto de quebrar barreiras, eu sou provocador, eu sou number One, mexeu comigo, o couro come…” 

Podem ver esse pedaço da Entrevista na página do Instagram da @midianinja, é bem interessante a sua colocação e mostra a sua potência  quando diz que é number one. Alguém duvida? 

E com essa garra foi também o primeiro brasileiro a apresentar uma categoria na cerimônia de premiação do Emmy Internacional, em 2006. Atuou entre mais, muito mais de cem telenovelas e minisséries, além de alguns filmes. Em 1975 foi eleito pelo Festival de Brasília o melhor ator, com o Filme Rainha Diaba. Em 2003 foi homenageado por ter participado em mais de cem filmes nacionais, no Festival de Gramado. Em 2022 foi o homenageado pelo Acadêmicos de Santa Cruz escola de samba, com o enredo “Axé, Milton Gonçalves! No Catupé da Santa Cruz” que trouxe a sua história para a Sapucaí do Rio de Janeiro. 

Gonçalves foi um homem simples, mas longe de ser simplório. Tinha uma presença muito viva e um humor afinadíssimo. Quem aqui não lembra de seus personagens nas mais variadas novelas e filmes? Seu último papel foi no filme “Pixinguinha: Um homem Carinhoso” (2021) que recomendo muito para quem ainda não assistiu. Assim, Milton vira ancestralidade, nos deixando um legado enorme e rico de experiências e lutas antirracistas. 

Ao declamar a poesia “Heróis de todo mundo”, de Dragão do Mar –parafraseando o Dragão do Mar -, nos diz:

“Sou um libertador

Da Primeira fila”, disse Dragão do Mar.

“Eu digo: Sou Milton Gonçalves

Um cidadão Negro Brasileiro.” 

Assim me despeço desse que muito fez para que mais homens e mulheres negras ocupassem um lugar de ponta nas telenovelas, cinema e séries brasileira. E homens e mulheres brancas pudessem repensar seus lugares de privilégio. Ele não queria uma revolução, ele queria igualdade racial, ele queria respeito e reconhecimento como um cidadão negro brasileiro. Foi grandioso, e hoje brilha no céu como uma estrela que nos guia. Milton Gonçalves, PRESENTE!!!

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Heróis de Todo Mundo – O Dragão do Mar, por Milton Gonçalves: disponível 

em: https://youtu.be/ejakifhlgt8

Categoria: Cultura

Palavras chaves: Milton Gonçalves, Ancestralidade, Ator brasileiro, Representatividade, Racismo

Colega, click no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página no Facebook: 

https://www.facebook.com/252098498261587/posts/pfbid035ZFtYR3Cq1GLuKVFmrCTbNrazuaUSxYrdNfDCtPmXiibTAN4cMJeYo93ZPh9Gx6Sl/?d=n

Categoria: Homenagens
Tags: Ancestralidade | Ator brasileiro | Milton Gonçalves | Racismo | Representatividade
Share This