Observatório Psicanalítico – OP 286/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Oswaldo, psicanalista singular 

Gustavo Gil Alarcão (SBPSP) 

Dia desses, um grande amigo, Oswaldo Ferreira Leite Netto, psicanalista paulistano, precisou passar por um procedimento médico. Ele não ficará incomodado comigo se eu disser que foi uma ablação cardíaca. Tudo correu bem, e ele está se recuperando. Fato é que essa situação mobilizou algumas ideias, que gostaria de compartilhar. 

Semanas atrás, em show de Paulinho da Viola, mandei uma mensagem para Oswaldo, brincando com seu “coração leviano”, mal sabendo que era justamente seu coração que estava lhe dando trabalho. “Preciso fazer um procedimento aqui, Gustavo, dá um medinho, mas vamos lá, confio que dará certo, e… não deixemos de marcar aquela reunião com os meninos da Liga, acho que será muito legal retomarmos as atividades”. 

Naquela altura, “procedimento” seria uma cardioversão, “um choque” no coração para ver se o ritmo voltava ao “normal”. Depois da cardioversão, escrevi para ele brincando, e dizendo que ele, que tinha se livrado do “eletrochoque na cabeça”, não tinha conseguido se livrar do “eletrochoque no coração”, e que estava tudo dentro dos conformes, porque as loucuras dele eram só aquelas do coração mesmo. “Deu mais ou menos certo” e, por isso, foi necessário o tal procedimento mais invasivo, a ablação.  

Rimos, foi espirituoso. O humor ajuda nos “medinhos”, o humor de gente que conhecemos e em quem confiamos. Quando eu li que ele, mesmo naquele momento, prestes à “cardioversão”, ainda estava preocupado em manter a reunião com os “meninos da Liga”, fiquei muito emocionado. 

Os “meninos da Liga” são alunos e alunas da Faculdade de Medicina da USP, que participam da Liga de Psicanálise, algo muito especial. A Faculdade conta com várias Ligas Acadêmicas, nas quais os alunos se dedicam a estudar determinado assunto, mobilizados pelos próprios desejos, acompanhados de quem tenha experiência e possa contribuir com seu aprendizado teórico e prático. 

Há anos a Liga de Psicanálise, que foi criada em 2005, com a ajuda da querida e saudosa Márcia Szajnbok, tem sido um ponto de encontro para interessados nesse saber subversivo e nessa prática escandalosa. Trata-se de uma atividade que coloca jovens interessados em psicanálise em contato com… psicanálise! Mas, uma psicanálise, assim como o coração, leviana. 

Com Oswaldo aprendi a viver a psicanálise de uma forma muito especial: encarnada, viva e profana. Não foram poucos os corações e as mentes que, como eu, chegaram à psicanálise após este encontro. Oswaldo foi a pessoa que me acolheu em São Paulo. Dezesseis anos atrás, logo após ter passado por outro “procedimento” médico, ele recebeu um grupo de colegas de residência de psiquiatria, recém-começada, para conhecer Freud. Fiquei impressionado com a pulsão de vida que havia ali, naquele homem generoso, paciente e apimentado, quando necessário. Nesses anos pude notar como fui sortudo em tê-lo como primeiro anfitrião psicanalítico. 

Como poucos, pouquíssimos, Oswaldo não controla, não tutela, não invade. Ao mesmo tempo, ele não se esquiva, não se omite e não foge. Acho que ele ensina, talvez ele próprio discorde desse verbo, mas ele ensina as peculiaridades de um saber e de uma prática, que são ao mesmo tempo bem complexos e bem simples, paradoxais e nada lineares, que andam pelas ruas das cidades e não habitam castelos imaginários de castas imperiais. 

Ele ensina psicanálise, mesmo nas divergências, sua presença singular ensina. Ensina sobre como viver numa direção genuína, correndo riscos e bancando estar na “contracorrente”. Incansável militante da psicanálise laica, nada ortodoxa e sem nenhuma pureza teórica ou técnica, ele navega em águas turbulentas como poucos. É claro que tem suas sacudidas, ninguém é de ferro e nem deseja ser! Nenhum pouco afeito às burocracias institucionais e ao mise-en-scène das formalidades, sabe usar da diplomacia necessária sem abrir mão de criticar e se inquietar com as tolices de muitas exigências do status quo. Nesses tempos difíceis, de brutalidades e preconceitos que sempre buscam novas roupas para velhos e conhecidíssimos problemas, Oswaldo e Oswaldos são necessários. 

A reunião com os meninos e meninas da Liga, pretos, pretas, pobres, ricos, gays, lésbicas, trans, cis, heteros, brasileiros, estrangeiros, loucos, normais, cientistas, com ou sem religião (ele tem uma preferência pelos menos religiosos, mas isso é só fofoca) e outras tantas designações quantas existirem, vem acontecendo e acontecerá. 

Há tanto por dizer e reconhecer que faltam linhas. Oswaldo milita pelo afeto, pela pessoalidade, pela liberdade e pela justiça social, quem o conhece sabe do que falo. Para quem não o conhece, que possa aproximar-se mais dele, percebendo também seu caráter político, defensor de uma psicanálise plural, laica, livre, inclusiva, com suas impurezas e transgressões. 

Oswaldo, psicanalista singular, amigo inesquecível, soube construir e preservar bússolas potentes. Sua apreensão e sua transmissão da psicanálise não se corromperam e nem se acomodaram, seja pelo poder em suas diferentes moedas, seja pela conivência em suas diferentes economias, seja pelo bom-mocismo em seus diferentes disfarces. 

Esse coração-leviano, de pulsações intensas, ainda tem muitas aventuras por viver. Oswaldo, um abraço! Amigos e colegas, vamo q’vamo! 

Vale a pena conferir o projeto Psicanalistas que Falam, de Heidi Tabacof, em que Oswaldo, ele próprio, fala: https://www.youtube.com/watch?v=kA41BVcXRek 

Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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