09.10.21 Observatório Psicanalítico – OP 271/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

Contágio

Mirian Malzyner (SBPSP)

Poder conversar e trocar ideias é sempre instigante e, agora, mais do que nunca! A situação em que vivemos pede distanciamento e traz muita tristeza. Permite, também usar criativamente o recurso das redes sociais e da internet para nos sentirmos menos sozinhos. A internet passou a ser o nosso espaço social, onde encontramos os amigos, trocamos afetos e informações.

Então tratemos do filme “Contágio”*, filme de Steven Soderbergh que trata justamente de uma epidemia muito rápida que assola a Terra.

Inicialmente tentei definir o lugar de onde eu poderia falar e fazer observações sobre o filme. A primeira ideia que me ocorreu veio do impacto que o filme me causou. Senti que estava dentro do filme. O filme retrata uma realidade muito próxima do que estamos vivendo. Eu faço parte do elenco e o cenário é o real que hoje me rodeia. Desde o início da pandemia, trazendo o isolamento social, os rituais de limpeza, as máscaras, um comentário comum foi de que parecia que vivíamos um filme de ficção científica. Pois bem, Contágio é um desses filmes.

O filme é de 2011. Baseia-se nas epidemias anteriores desse século, como  SARS e H1N1. Sabemos que essa era uma “bola cantada”, uma crônica de uma pandemia anunciada, um futuro previsível de uma guerra contra um inimigo invisível e implacável que, com rapidez, cresce e atinge exponencialmente os seres humanos.

A jornalista e pesquisadora de Harvard, e ganhadora do prêmio Pulitzer, Laurie Garret, foi consultora do filme, e já em 1994 escreveu um livro em que anunciava o grande perigo de uma pandemia. E mesmo assim, sabemos também que não estávamos preparados. Nem sei se de fato, seria possível estar preparado… Faltam investimentos em pesquisa e recursos na área de saúde, principalmente nas áreas menos desenvolvidas e carentes do mundo. 

Imaginei-me então como uma personagem de um  filme que me lembra outro filme – “A vida de Truman”. Talvez vocês conheçam esse filme e  lembrem de que Truman vivia numa realidade de ficção, numa novela de televisão, acreditando que era vida real. Assim estou me sentindo. Como se fosse uma personagem de um filme, comentando o próprio filme em que eu estou vivendo.

Então, peço desculpas, porque vou passear pelo filme e pelo que vivemos agora, sem muita discriminação de quando é uma coisa ou outra. Nesse meu cenário atual, temos uma tecnologia bem mais avançada, os nossos celulares são bem mais inteligentes e o nosso mundo tecnológico tem uma proliferação de imagens e vídeos em tempo real. Por outro lado, no filme Contágio, já temos o celular como meio de comunicação, as trocas de mensagens, Facebook e blogs.

A pandemia retratada por Sorderbergh é um inquietante retrato muito próximo do que vivemos no momento, talvez mais dramático e intensificado pois, como obra de ficção  deve caber em duas horas, sintetizando vários aspectos das relações humanas, da ciência e da política. Respiro aliviada pois o nosso Coronavírus, causador da Covid 19, tem um índice de letalidade bem menor. Alívio meramente ilusório que ajuda ganhar um certo distanciamento, mas que não apaga a sombra da Morte que tem rondado nossas vidas. Na verdade, vivemos um drama de grandes proporções que atinge o mundo todo, causando medo, dor, angústia, perplexidade e confusão.

No meu caso, a internet se tornou espaço de trabalho. Tenho atendido meus pacientes em análise on-line. São muitas horas que passo com eles usando esse novo formato de sala de análise, consultório virtual, e temos aprendido a superar os limites, criando espaços de troca sensível e verdadeira. Tenho tentado oferecer aquilo que mais acredito, que é a possibilidade de pensar, de criar ampliações, buscando mais e mais recursos para lidar com a realidade incerta, desconhecida e imprevisível.

Nós, psicanalistas, de certa forma, estamos habituados a caminhar nesse campo da falta de certezas e respostas. Isso nos ajuda. Paradoxalmente, sabemos da importância de termos espaços de estabilidade e confiança, para garantir um mínimo de segurança necessária para enfrentar as dificuldades que surgem no caminho do viver. As dificuldades que agora se apresentam são novas e assustam. O momento é completamente inédito para todos nós. Lembro de ter vivido igual sensação de perplexidade quando do ataque terrorista de 11 de setembro. Aquela mesma sensação que nada seria igual depois daquilo….

Na pandemia, apresentam-se sintomas que, em outros tempos seriam exclusivos de patologias: perseguição, mania de limpeza, fobia social, horror ao contato, sinais hipocondríacos. Hoje, penso ser difícil rotular esses sintomas na categoria de doença. A aproximação empática  nos coloca em outra perspectiva. Tentamos compreender e situar estados emocionais que oscilam entre a Negação e o Pânico. Tanto a negação como o pânico não ajudam a criar recursos para enfrentar o medo.

Voltando ao filme: em primeiro lugar quero falar do Contágio. Esse que se apresenta logo no início, o do título, a personagem principal. Ouvimos uma tosse e as primeiras cenas colocam foco aumentado, um grande zoom nos objetos que a personagem toca. O celular, o copo, o potinho com amendoins, o balcão do bar,  o cartão de crédito, o botão do elevador e por aí vai. É a vida acontecendo, de forma natural. As relações humanas, um possível encontro amoroso numa viagem de trabalho. A vida acontecendo e promovendo um potencial de encontros, desencontros, traições, possíveis dores inevitáveis. Tenho claro para mim que qualquer encontro humano, por melhor que seja,  tem um potencial de enriquecimento e ampliação, bem como de toxicidade. Desde o início da vida, o bebê no acolhimento da família, no contato com pai e mãe, ganha alimento, conforto, segurança e ainda um bônus inevitável das ansiedades, expectativas, fantasias familiares, conflitos e heranças  transgeracionais, intensidades emocionais invasivas…

É nessa interação que crescemos, necessitados do olhar humano que é fundamental para a constituição dos indivíduos. Adquirimos, quando tudo corre bem e quando prevalecem os aspectos saudáveis, os anticorpos e defesas físicas e psíquicas necessárias para o amadurecimento. É impossível ter contato sem sermos de alguma forma afetados, pelo bem ou pelo mal. E o amadurecimento físico e psíquico caminham juntos.

O grande vilão do filme é o Vírus que se apresenta colocando perigo, ameaçando matar pelo sufocamento, falta de ar. Um alerta que interrompe essa interação dinâmica da vida acontecendo, pela imposição do distanciamento social.

O diretor do filme disse que não pensou no vírus como metáfora. O vírus é o vírus. Também não pretendo buscar esse tipo de interpretação metafórica. O vírus se apresenta como ameaça, fruto de um possível desequilíbrio  na interação do homem com a natureza. É desconhecido, invisível, altamente contagioso e perigoso. Ele interrompe o ritmo natural das interações humanas, da forma como elas vinham se dando.

Outro destaque são os Números. As cenas são divididas em dia 1, dia 2 e assim sucessivamente. As cidades são apresentadas com números, números de habitantes, número de infectados, número de mortes. As estatísticas são impessoais e tornam a realidade algo abstrato. “Mas que são cem milhões de mortos? Quando se fez a guerra, já é muito saber o que é um morto. E visto que um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados ao longo da história esfumaçam-se na imaginação.” (Citação de “A Peste”, de Camus).

E então, a Morte aparece logo no início do filme, nua e crua. Precisamos ver a morte para que ela deixe de ser abstração estatística e adquira concretude. A alegria leve e descontraída da moça é seguida pela frieza da convulsão apavorante, das secreções, do corpo/cadáver dissecado em prol da investigação científica.

O filho ainda criança morre logo a seguir. Outras tantas pessoas aparecem adoecendo e morrendo em várias cidades do mundo. O marido, personagem de Matt DAmon, perde a mulher e o filho. Daí em diante será o pai que de forma incansável vai tentar proteger a filha mais velha, para que ela não adoeça. Ele se torna a consciência da importância do cuidado consigo e com o outro, sendo ele mesmo  imune ao vírus. Ele se torna guardião da casa impondo o isolamento social e o provedor que sai em busca se suprimentos básicos.

Parênteses: Talvez não por acaso, a menina é uma adolescente, pulsando de vitalidade e desejosa de encontrar o namorado. As famílias que convivem com seus filhos no confinamento da quarentena sabem bem como é difícil viver esse freio no processo do adolescente que está em pleno processo de separar-se dos pais e que precisa do encontro com seu grupo, para que, através das identificações e trocas possa ganhar corpo e autonomia.

E surge a Ciência. Os cientistas, as organizações mundiais de Saúde, os Centros de Controle de Saúde, os médicos, os heróis dessa guerra. Todas as esperanças são voltadas para que se encontre uma vacina para o vírus desconhecido. Aposta na Ciência. E nós sabíamos que a vacina viria, só não sabíamos quando.

Podemos prescindir da interação, do contato físico e psíquico? Podemos abrir mão do beijo e do abraço? Momentaneamente, devemos. Mas é uma parada estratégica.

Uma parada necessária que vem acompanhada de muitas reflexões, algumas bem surpreendentes. Muito se fala na necessidade de uma parada curativa para um mundo adoecido. Podemos celebrar o silêncio, encontrar novas formas de convívio. Questionamos o consumo desenfreado, tentando descobrir o que de fato é essencial para viver. Brincamos com novos ritmos e novas tarefas. Com mais ou menos dor, com mais ou menos prazer.

Seguindo o que o filme nos apresenta, tomamos contato com a evolução da Crise que se instala. Como costuma acontecer na História das crises,  o pior e o melhor do ser humano vêm à tona. Cenas de caos nas cidades, desorganização, saques e brigas nos supermercados, nas farmácias. Os hospitais de campanha, os cemitérios com milhares de covas. 

O personagem do blogueiro oportunista, vivido por Jude Law, que espalha fake News, propagandeia um remédio supostamente efetivo para a doença, causando confusão e desinformação.

Um membro da organização de Saúde usa de informação sigilosa para beneficiar um ente querido. Em outro momento, o mesmo personagem redime-se do egoísmo e, de forma altruísta cede sua vacina para uma criança. Esperança de um mundo melhor?

Uma cientista que investiga a trajetória do vírus no mundo é sequestrada na China. Líderes de um povoado muito pobre fazem dela moeda de troca por vacinas que são desenvolvidas nos Estados Unidos. Mais do que salvar a própria pele, essa personagem vivida por Marion Cotillard, desenvolve empatia e compaixão verdadeiras pelo povo carente daquele povoado.

Uma cientista  pesquisadora aplica vacina em si própria, acelerando o processo de descoberta e transgredindo os protocolos. Vaidade ou generosidade abnegada?

Uma profissional de saúde, Kate Winslet, atira-se nessa guerra pela saúde, de forma a descuidar de si própria, morrendo no campo de batalha. Profissão de risco.

Li outro dia uma citação da antropóloga Margaret Mead que achei muito precisa.  Uma estudante perguntou para a antropóloga o que ela considerava ser o primeiro sinal de civilização em uma cultura. A aluna esperava que Mead falasse sobre anzóis, panelas de barro ou pedras de amolar. Mas não. Mead disse que o primeiro sinal de civilização em uma cultura antiga era um fêmur (osso da coxa) que havia sido quebrado e depois curado.

Mead explicou que no reino animal, se você quebrar sua perna, você morre. Você não pode correr do perigo, chegar ao rio para beber ou caçar comida. Você é carne para animais rondando. Nenhum animal sobrevive a uma perna quebrada por tempo suficiente para o osso curar. Um fêmur quebrado que curou é evidência de que alguém teve tempo para ficar com aquele que caiu, amarrou a ferida, levou a pessoa à segurança e cuidou da pessoa através da recuperação. Ajudar alguém através da dificuldade é onde a civilização começa, disse Mead: “Estamos no nosso melhor quando servimos aos outros.”

E é nessa questão do Cuidado que pretendo finalizar meu texto, trazendo uma contribuição estimulada pelo pensamento de um psicanalista inglês, Winnicott. Esse pensador da natureza humana começou sua vida profissional como pediatra clínico, com extensa experiência nessa área. De forma bem resumida, sua teoria baseia-se em observação muitíssimo cuidadosa e elaboração das etapas do desenvolvimento humano, desde o nascimento até a conquista de um estado de amadurecimento pessoal que caracteriza o indivíduo autônomo. O ser humano percorre um longo caminho até adquirir uma verdadeira capacidade de preocupar-se e cuidar dos outros.

Winnicott enfatiza a importância da Criatividade como expressão mais característica do humano. Criatividade que só se expressa numa atmosfera que ofereça liberdade para o que ele chama de “Gesto Espontâneo”, que é um movimento inato para buscar o que precisamos no mundo. Esse movimento sendo acolhido encontra, inicialmente na mãe que está aí para prover alimento básico e posteriormente na comunidade, na sociedade é que vai estabelecer a base para um desenvolvimento saudável.

Faz parte desse desenvolvimento saudável, integrar os aspectos de agressividade, o potencial destrutivo, que é também a matéria prima para a construção criativa, para a contribuição com o grupo social.

Em momentos de crise, como esse que vivemos e em que a união de forças se faz imprescindível, sentimos a necessidade de contar com os aspectos mais amadurecidos dos indivíduos. Uma sociedade amadurecida, capaz de integrar aspectos de destruição, pode encontrar  vitalidade e criatividade necessárias à organização para lidar com a crise. Winnicott associa maturidade social ao regime Democrático.

Para Winnicott, temos uma disponibilidade inata para um comportamento ético em relação aos outros. Mas esta disponibilidade só se desenvolve se o mundo em que vivemos é estável, empático e predominantemente amoroso. O comportamento Ético se dá numa sociedade Ética, com o maior número possível de indivíduos que alcançaram o nível de maturidade necessária para ter responsabilidade e cuidado.

Ou, como pergunta Winnicott, “quantos indivíduos antissociais uma sociedade pode conter sem que a tendência democrática inata submerja?”

Conhecemos algumas das razões que fazem essa longa e exigente tarefa – o trabalho dos pais de conhecer [e cuidar] dos filhos – valer a pena, e, de fato, acreditamos que esse trabalho provê a única base real para a sociedade, sendo o único fator para a tendência democrática do sistema social de um país.

O dr Rieux, médico do livro A Peste, diz:

“Pode parecer ridículo, mas a única maneira de combater a peste é com decência.

E o que é decência?

Fazer o meu trabalho.”

Enfrentamos o vírus e, ao mesmo tempo, a natureza humana.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

*Este texto é baseado em fala realizada no Museu de Imagem e Som (MIS), dentro do ciclo Cinema e Psicanálise, coordenado por Luciana Saddi, representando a diretoria de Cultura e Comunidade da SBPSP. 

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