12.06.21 Observatório Psicanalítico – OP 249/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

SAÚDE MENTAL NA PANDEMIA: Desafios para uma Articulação Nacional no Enfrentamento à Pandemia*

Bernardo Tanis (SBPSP)

Tese inicial: na esfera da humanidade, nada escapa ao modo como os homens organizam a vida social, política e econômica das nações. A saúde mental não está fora desta premissa.

Catástrofes ditas “Naturais” não eximem de responsabilidades os governantes, nem a sociedade civil de responsabilidades preventivas, durante e posteriores aos acontecimentos.

Todo desastre ecológico e sanitário, tem o potencial de gerar um trauma que afeta a vida mental dos indivíduos e da sociedade como um todo, apenas se compreendermos a dimensão psíquica, social e econômica da catástrofe humanitária poderemos dimensionar, planejar e executar caminhos e ações de contenção e reparação. O negacionismo obscurece , mascara e impede a busca de propostas concretas e adequadas, além de gerar desamparo e incerteza na população.

Chamamos de reparação em psicanálise a ação ou o pensamento que visam reparar um dano real ou fantasiado. Os líderes e governantes deveriam, diante destas catástrofes ecológicas-humanitárias, procurar as condições de ação imediata nas múltiplas frentes de ação. Isto não apenas ameniza a dor e o sofrimento, mas cria uma rede de apoio da população ancorada na confiança  pelo seus governantes, garantindo  adesão a medidas como “lockdown” que, mesmo desagradáveis e não populares, revelariam o gesto de cuidado e prevenção.

A psicanálise nos ensina que o trauma diz respeito ao efeito da incidência de um acontecimento singular ou reiterativo que impacta a vida e a subjetividade dos indivíduos e da comunidade. Diz respeito ao impacto capaz de desestruturar o psiquismo, de questionar os alicerces da subjetividade que se constrói na confiança no outro para mitigar o desamparo constitucional do ser humano.

O Estado moderno, além de figura de autoridade que tem como função a regulação da vida coletiva, tem o dever de zelar pelos direitos básicos de seus habitantes, dentre eles a saúde mental. Não se trata de bravatas ou sofismas, mas de atos concretos que garantam o amparo social e a atenção empática à dor e ao sofrimento psíquico da população.

O que esses desastres assinalam é a falência do Estado, um Estado submetido a interesses de determinados grupos que não se importam em colocar o planeta nem a população em condição de risco. Esta lógica predatória dizima populações E recursos  naturais, gera desesperança, trauma social,  provoca o surgimento do ódio, do ressentimento e da violência social.

Como continuar em frente quando a realidade se mostra tão avassaladora?

Como se sobrepor ao sentimento de impotência frente ao desamparo gerado pelo desmando e negacionismo?

Como elaborar o luto pela perda de tantas vidas quando o ódio e o ressentimento se constituem no oxigênio que alimenta a chama viva da perda?

O acontecimento, para Alain Badiou (1988. L’être et l’événement. Paris: Seuil), manifesta a marca de uma quebra, de uma ruptura, de um vazio “que destitui a situação sólida, ocasionando a expiração dos referentes seguros, dos lugares estabelecidos”, nas palavras de Janine  Puget. Assim, a pandemia é da ordem do factual do acontecimento, como acima assinalado, e pode ou não devir traumática, já que o trauma psíquico, na sua dimensão de aprè-coup, é da ordem do desmantelamento das referências sociais e subjetivas que conferem nossa identidade, nossa esperança, nossa confiança, nossa noção de tempo e continuidade, nossos sonhos e projetos. O trauma demanda a necessidade imperiosa de recompor um tecido mental esgarçado, demanda recuperar a confiança, a vontade de viver e produzir. Nossa missão, como profissionais da saúde mental e cidadãos, é contribuir de todas as formas possíveis para recompor estes vínculos esgarçados do sujeito com ele mesmo, com as famílias, com a vida, com projetos e sonhos.

Os líderes de uma nação tem o dever de compreender não somente o dano material, mas também o dano subjetivo destas catástrofes sócio-ecológicas e humanitárias.

Os líderes de uma nação não podem apenas fazer contas.

Os líderes de uma nação não podem olhar a realidade da morte apenas como estatística.

Os líderes de uma nação precisam dispor de um mínimo de empatia pela dor do outro, agir de modo a desenvolver orientados pela ciência, pelos profissionais da saúde mental, acolher e conter a angústia inominável do sofrimento pela perda real e imaginária que a catástrofe produziu.

Psicanalistas da nossa instituição, e de tantas outras, criamos no Brasil inúmeras iniciativas, redes e plataformas de atendimento on line, oferecemos espaços de escuta e contenção para a dor e angústias, atendimentos gratuitos para todos os profissionais envolvidos no tratamento da COVID que nos procuraram. Continuamos parcerias e convênios com comunidades mais carentes, orientamos professores de escolas públicas e privadas, famílias, etc. Criamos redes de assistência nas quais a solidariedade, o amparo e a empatia podem contribuir para diminuir o impacto traumático e desestruturante consequente ao acontecimento tão devastador. Estamos à disposição, ainda, para oferecer assessoria em diferentes níveis e contribuir com todas as instâncias que busquem oferecer apoio e cuidado à nossa polulação.

*Texto apresentado no “Seminário Interdisciplinar Desafios para uma Articulação Nacional no Enfrentamento à Pandemia”, realizado no dia 31 de maio de 2021, promovido  pelos Direitos Já!

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Imagem: “Espantalho” de Cândido Portinari (1959)

 

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