18.03.21 Observatório Psicanalítico – OP 232/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

 

Desgraça pouca é bobagem

Júlio Gheller (SBPSP)

 

Sentei-me para escrever ao ser tocado pela emoção com o delicado depoimento de Cintia Buschinelli no OP, contando sua experiência como vítima da covid-19. Logo em seguida, ouvi um ruído insistente de buzinas. Deduzi que seriam indivíduos a expressar sua revolta contra as medidas mais restritivas de isolamento social, que passariam a vigorar a partir de 15/03 em São Paulo. Devem estar se dirigindo para alguma carreata, imaginei. A partir desta interrupção no fluxo dos pensamentos, deixei o registro da delicadeza e passei para outro tom.

 Não há como negar o sentimento de indignação com o que acontece no Brasil.

 

Digo isto ao saber de notícias de que, ainda hoje em dia, existem psicanalistas adeptos do atual governo. Que espécie de miopia acomete tais colegas? Não enxergam que estamos indo para o precipício? 

 

Já faltou oxigênio em Manaus e agora faltam leitos de UTI por todo o país, com doentes morrendo à espera de vagas inexistentes, sendo que a imunização prossegue extremamente lenta por conta da escassez de vacinas. Estamos às portas do colapso hospitalar e colapso funerário. Pelo andar da carruagem, teremos cadáveres empilhados em câmaras frigoríficas de hospitais lotados ou, até mesmo, expostos nas ruas. Em alguns casos, como já ocorreu no ano passado em Guayaquil (Equador), os corpos vão esperar dias para serem coletados em suas casas.

 

O Estado de São Paulo, o mais rico da nação e com o maior contingente de recursos médicos, caminhou para uma fase mais rígida, denominada de emergencial. Ressalte-se que nem mesmo o governador que lutou por vacinas – com receio de protestos dos adversários da ideia – se atreveu a decretar um verdadeiro lockdown.

 

O fato é que – independentemente da inesperada e terrível pandemia – parte da desgraça já estava anunciada desde antes de 2018. A onda antipetista e os “nobres” excessos higienistas da Operação Lava Jato criaram as condições para a eleição do que havia de pior em termos de política, com a pretensa justificativa ética de que era preciso acabar com o quadro de corrupção.

 

Não pretendo me aprofundar na discussão das críticas ao PT – com algumas das quais me é impossível discordar –, mas uma pergunta não quer calar. O que explica tal escolha por parte de alguém – como os referidos psicanalistas – que pôde estudar, ler, se informar, observar e se interessar por questões do sofrimento mental? Algo como a atração inconsciente por um pai da horda, figura dominante e autoritária, suposto salvador da pátria?  Ou o apego ao próprio status de classe dominante, merecedora de todos os privilégios que, desde sempre, lhe foram concedidos?

 

Acordamos tarde para a constatação do racismo estrutural, da supremacia branca de nosso patriarcado retrógrado, da misoginia, do machismo – lembremos de que a Assembleia Legislativa de São Paulo abrandou vergonhosamente a punição do deputado que importunou uma colega com conduta sexual inapropriada, em fato claramente registrado por vídeo – e LGBTfobia. E há um ano assistimos ao lastimável espetáculo diário dos descalabros na administração federal da crise sanitária, com gestores e apoiadores microcéfalos a ostentar incompetência e grosseria com aquele orgulho que só a estupidez pode conferir. A turba de seguidores incondicionais aplaude, rezando pela mesma cartilha da ignorância. Vi pela internet trechos das manifestações em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Eram falas em defesa da liberdade de trabalhar, viver(?!) e se deslocar, desafiando a óbvia orientação reforçada para isolamento social.

 

Por alguma associação na trilha da barbárie, assisti ao “exército” de veículos enfileirados nas carreatas de protesto e me recordei da série de TV Game of Thrones. Ambientada na época medieval, seu enredo é repleto de cenas de violência brutal, com guerras sangrentas entre famílias poderosas, disputando o controle dos Sete Reinos, em busca do ambicionado Trono de Ferro. Ao longo dos episódios, desfilam traição, rivalidade, inveja, ciúme, sempre em intensas doses. Também vão surgindo indícios do retorno da terrível ameaça representada pelos Caminhantes Brancos, criaturas do gelo humanoides, desaparecidas há séculos. Finalmente, eles realmente reaparecem e marcham sobre as cidades, destruindo tudo o que encontram pela frente. O seu líder, o Rei da Noite, tem o poder de ressuscitar os combatentes que morrem ao enfrentá-los, constituindo assim um crescente exército de mortos-vivos, que se juntam a ele para atacar os humanos. A comparação pode ser exagerada, dirão alguns, mas o que se pode pensar dos “cordiais” brasileiros indiferentes ao recrudescimento de uma pandemia que já atingiu 279.000 vítimas fatais? Pelo jeito, querem mais. Afinal, o destino de todos é morrer, diriam os mais sábios dentre eles.

 

A arrogância, a estupidez, a onipotência e a negação da realidade configuram um conjunto de características das partes psicóticas da personalidade, não me canso de repetir. Não custa acrescentar a boçalidade como um quinto elemento desta configuração.

 

Existem apoiadores de 2018 que caíram em si e se arrependeram do que fizeram. O próprio ex-presidente Fernando Henrique chegou a insinuar recentemente que lamenta ter votado nulo, imperdoável engano de quem sabia de todo o currículo do então candidato da extrema-direita. Um capitão reformado, que saiu do Exército após um processo por indisciplina, enveredando por uma obscura carreira de deputado do baixo-clero, marcada por um discurso explícito em prol da tortura e ditadura.

 

Bem, voltemos ao presente. O resultado visível e dramático é que o Brasil se instalou de vez na situação de pária mundial. Os despautérios também se sucedem na questão ambiental, no tema dos direitos humanos em geral, nos direitos específicos das meninas e mulheres, no ataque à cultura, à ciência e à imprensa. Os gênios do mercado e do empresariado, que relutam em expressar qualquer divergência com a infindável série de desmandos, esquecem, por exemplo, que os produtos brasileiros deixarão de ser vendidos para o exterior no caso de nossos lençóis freáticos serem contaminados em consequência de um colapso funerário.

 

Só me resta uma pergunta aos nossos colegas desavisados: quem, entre os membros da atual equipe governante, vocês prefeririam para o cargo de síndico nos condomínios em que residem?

 

Em tempo, acabo de tomar conhecimento da demissão do general intendente da Saúde, reputado especialista em logística. Talvez possa se candidatar ao posto. Ou será que ele aspira posição mais relevante? Alguma empresa de grande porte precisa de um CEO? Quem se habilitaria a lhe oferecer a oportunidade?

 

Por fim, já que a esperança é a última que morre, espero ainda poder vislumbrar esforços civilizatórios consistentes a triunfar sobre a barbárie.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

 

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