Observatório Psicanalítico Editorial setembro/2025

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

Sódepois 65

Setembro 2025

“Vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar a evolução da liberdade”, cantaram juntos Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Ivan Lins, Lenine, Paulinho da Viola e outros no movimento contra o projeto da anistia e a PEC da blindagem em pauta no Congresso Nacional, em Copacabana, Rio de Janeiro. 

O ato, que aconteceu nas cinco regiões do Brasil, foi marcado por uma oposição a uma amnésia política que visa apagar ou proteger os responsáveis por crimes históricos em nosso país. Assim, ao acompanhar a manifestação, não só os paralelepípedos da velha cidade se arrepiaram, mas todos nós que somos a favor da democracia.

O protesto foi organizado por Paula Lavigne, que declarou que ele não foi partidário, mas foi do povo: “foi um grito de que basta, chega de cansaço (…) Nossa arma é a arte.”  

Foi uma mulher também que, na semana anterior, durante o julgamento que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro e outras sete pessoas por tentativa de golpe de Estado, ressaltou, ao ceder a palavra durante o seu voto ao ministro Flávio Dino: “que seja rápido…porque nós, mulheres, ficamos dois mil anos caladas, nós queremos ter o direito de falar, mas concedo, como sempre.”

A fala foi de Carmen Lucia, a única mulher da atual composição do Supremo Tribunal Federal. Ela votou um dia após o ministro Luiz Fux, que afirmou que não gostaria de ser interrompido ao justificar por 13 horas e meia o seu voto. Com o voto dela, o STF formou maioria para condenar Bolsonaro por golpe de Estado e outros quatro crimes.

Essas duas mulheres, através de suas vozes, representaram tantas outras em um país, o nosso Brasil, que é o quinto lugar no ranking mundial de feminicídio – um crime ainda tantas vezes silenciado. 

Foi diante do agravamento da violência contra as mulheres, durante a pandemia, que surgiu o Grupo de Atendimento Clínico do COWAP Brasil. No ensaio “Grupo de Atendimento Clínico (GAC) COWAP Brasil – prêmio IPA na Comunidade na categoria Violência, 2024/2025” (OP 610/2025), Rosa Sender Lang (SPRJ), Daniel Matias (Portugal), Denise Vasconcelos (SPMS), Ednéia Cerchiari (SPMS), Lenira Vasco (SPRPE), Lígia Somenzi (SPPA) e Mariangela Relvas (SPRJ/SBPCuritiba) afirmaram que “o trabalho do GAC surgiu da urgência de oferecer acolhimento onde há silêncio, escuta onde há gritos abafados.” Os autores ressaltaram que “a psicanálise tem muito a contribuir com o social pela via da transformação subjetiva possível nas situações em que tudo parece ruir, convocando-nos a criar presença, tal como os vagalumes nas noites escuras.”

Com trabalhos que se propõem a refletir sobre mulheres na contemporaneidade, tais como “aborto, assédio, papéis de gênero, maternidade, corpo, escrita, dentre outros”, Gabriela Seben e Rafaela Degani (SBPdePA) organizaram um livro cujo título é o mesmo do ensaio delas: “Vozes contemporâneas: o feminino em cena” (OP 613/2025). Partindo da complexa pergunta “o que é ser mulher?”, elas contaram que os capítulos do livro “se constroem na interface do feminino com a clínica e com a cultura, e nas reverberações desse constructo nas subjetividades atuais, apoiando-se no rigor metapsicológico de nossas origens e heranças freudianas.”  

Nós, da curadoria do OP, entendemos que a luta política, a arte e a tomada de voz das mulheres em acontecimentos tão significativos para a população brasileira constituem formas essenciais de resistência contra inúmeros crimes que marcaram e ainda marcam nossa história — genocídio indígena, escravidão, racismo, ditadura, feminicídio, entre tantos outros —, frequentemente apagados e silenciados. Nesse sentido, juntamo-nos a Chico Buarque no desejo de que as páginas infelizes de nossa história, constantemente desbotadas na memória das gerações, venham à tona, sejam reconhecidas, julgadas e reparadas.

Antes do julgamento iniciar, Julio Hirschhorn Gheller (SBPSP) partilhou, em seu ensaio “Duas semanas que podem ser históricas” (OP 612/2025), suas esperanças ao afirmar que o julgamento seria “a possibilidade de golpistas serem condenados pela primeira vez neste país”.  Concordando com os protestos que ainda não haviam acontecido, defendeu que “cabe uma atitude atenta por parte das instituições psicanalíticas no sentido de um posicionamento em prol da democracia”. Utilizando o conceito de Verleugnung de Freud, que traz a ideia de recusa da realidade, sustentou que psicanalistas, como cidadãos, não podem “fazer vista grossa para o que se passa no país”. 

Após o julgamento, Eliane de Andrade (SPRJ), em seu ensaio “E agora, Brasil?” (OP 614/2025), afirmou que, ao acompanhar o evento ao vivo, não encontrou em si um sentimento de alegria, mas um questionamento: “mas não deveria ser sempre assim?” Eliane, juntando-se aos movimentos que ainda aconteceriam, afirmou que “aterrorizante é a insistência na suposta possibilidade de anistia aos condenados, dado ser cláusula pétrea da Constituição Brasileira que crimes contra a Pátria não são anistiáveis.” Por fim, ela bradou: “oxalá vença a Lei!”. Nós, da curadoria do OP, também torcemos. 

Ainda em setembro, houve outro marco importante no Brasil: foi sancionado o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que estabelece regras para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital. Com isso, lembramos de nossas discussões sobre os impactos da ciberviolência nos caminhos da subjetivação de crianças e adolescentes, especialmente meninos, em nosso podcast Mirante “A tal masculinidade, hoje” (Episódio 40/2025) com a psicanalista Dora Tognolli (SBPSP) e o doutor em Psicologia do desenvolvimento infanto-juvenil Gary Barker.  

Trazendo o ambiente digital não como ameaça, mas como uma possibilidade de “experimentação e reinvenção no campo da psicanálise”, Alexandre Martins de Mello, Mauro Campos Balieiro, Adriana Salvitti, Alessandra Paula Teobaldo Stocche, Ana Valéria Guelli Ribeiro (SBPRP), publicaram o ensaio “Formação psicanalítica em tempos de caos: a teleanálise como ancoragem – Prêmio IPA sobre a Contribuição Excepcional à Pesquisa Psicanalítica” (OP 611/2025). A pesquisa teve como objetivo verificar as semelhanças e contrastes entre análise presencial e teleanálise, e encontrou: “de modo geral, a vivência da pandemia foi percebida como um catalisador da relação analítica da dupla para a experiência da teleanálise. Embora os participantes tenham relatado perdas em relação ao setting presencial, também ressaltaram um aumento na intimidade e a comodidade proporcionadas pela teleanálise. Os candidatos consideraram a análise presencial como ideal, no entanto apontaram que as escolhas da dupla analítica pela teleanálise são importantes.” Em 2027, o congresso da IPA, em Vancouver, terá como tema “A condição humana no mundo digital”. Certamente muito teremos a discutir. 

Além desses importantes acontecimentos, setembro é marcado por campanhas de prevenção ao suicídio. No Observatório Psicanalítico, Helena Daltro Pontual (SBPSP) partilhou o seu ensaio “Suicídio ainda é uma das principais causas de morte no Brasil e no mundo” (OP 615/2025). Trazendo dados importantes sobre suicídio no Brasil e no mundo, ela escreveu: “nota-se, na maioria dos suicidas, a coexistência ambivalente entre desejos e atitudes antagônicas, que levam o sujeito a um impasse, traduzindo sua indecisão frente à vida. Ele ‘deseja’ morrer e, simultaneamente, quer ser resgatado ou salvo.”

Em setembro, destacamos também o discurso do nosso presidente na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU nos EUA. Entre outros temas, Lula defendeu a democracia e a independência dos poderes, afirmando que “não há pacificação com impunidade” – uma clara mensagem aos acontecimentos destacados em nosso Sódepois, além de retificar que “nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”. Sim, desejamos que, dessa vez, a nossa pátria-mãe não seja tão distraída. 

Lula sustentou: “a democracia falha quando mulheres ganham menos que os homens ou morrem pelas mãos de parceiros. Perde quando fecha portas e culpa migrantes pelas mazelas do mundo. A pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo. (…) A única guerra de que todos podem sair vencedores é a que travamos contra a fome e a pobreza.” Assim, o presidente chamou atenção para fraturas que corroem a democracia mundial e exigem compromisso ético e político.

Essa mesma urgência de não se fechar em si mesma é pontuada por Leopold Nosek (SBPSP), que defende que a psicanálise só se mantém viva quando aceita ser afetada por contextos históricos e culturais. Em seu ensaio “O Método Marlow: estudos indisciplinares em psicanálise” (OP 616/2025), que leva o mesmo nome de seu mais recente livro, o autor contou que sua obra “pede cumplicidade de qualquer leitor disposto a se deixar afetar pela imaginação e pela cultura. A psicanálise que me interessa não é erudita nem sistemática: é uma prática de vida, uma forma de habitar o assombro.”

Por fim, convidamos vocês para a nossa mesa “Corpos afetados: o sexual na Polis” com Ana Paula Terra Machado (SBPdePA), Berta Hoffmann Azevedo (SBPSP), Lucia Palazzo (SBPRJ), sob a coordenação de nossa integrante da curadoria Gabriela Seben (SBPdePA), que acontecerá no dia 23 de outubro, quinta-feira, das 18h às 19h30, no Auditório Lupicínio Rodrigues do Hotel Wish Serrano, no 30° Congresso Brasileiro de Psicanálise, em Gramado. 

Com os desejos de uma “vida boa olerê”, até lá!

Um abraço,

Beth Mori (SPBsb), Ana Carolina Alcici (SPRJ), Ana Valeska Maia (SPFOR), Cris Takata (SBPSP), Gabriela Seben (SBPdePA), Giuliana Chiapin (SBPdePA) e Lina Schlachter (SPFOR).

Palavras-chave: Golpes de Estado, Democracia, Atos contra Anistia, Arte, Mulheres

Imagem: Foto: Bruno KAIUCA/AFP

Categoria: Editorial

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da Febrapsi.

Os ensaios são postados no site da Febrapsi. Psicanálise e Cultura: Observatório Psicanalítico.

E, também, no Facebook. Clique no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página: 

https://www.facebook.com/share/p/1FsSTBVeh2/?mibextid=wwXIfr

Nossa página no Instagram é @observatorio_psicanalitico

E para você que é membro da FEBRAPSI / FEPAL / IPA que se interessa pela articulação da psicanálise com a cultura, se inscreva no grupo de e-mails do OP para receber nossas publicações. Envie mensagem para [email protected]

Categoria: Editoriais
Tags: arte | Atos contra Anistia | democracia | Golpes de Estado | mulheres
Share This