Observatório Psicanalítico Editorial-Março/2026

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

Sódepois 71

Março/2026

“Cheguei à praia. A brisa do mar sempre é marcante. Penetra mais fundo nos pulmões, nos expõe aos elementos, nos faz sentir pequenos, mas vivos. Senti na pele o quanto precisava do resto do mundo. Já não queria estar só. Tantos desconhecidos haviam me ajudado e me acolhido quando eu já não tinha mais nada. Havia perdido o medo dos olhares. Já não temia que as pessoas soubessem. A vergonha precisava mudar de lado. Essas palavras que vinham se erguendo havia mais de uma década em apoio às mulheres vítimas de estupro e violência. Eu as ouvi e elas se instalaram como um refrão dentro da minha cabeça. Eram pequenas lâminas afiadas que de repente aguçavam meu pensamento. Todos precisavam ver os 51 estupradores. Eles é que deviam se curvar. Não eu.” (Gisèle Pelicot, 2026, p. 186)

Gisèle Pelicot, autora do livro “Um hino à vida: A vergonha precisa mudar de lado”, ficou mundialmente conhecida e tornou-se símbolo de coragem ao renunciar o anonimato e enfrentar publicamente o ex-marido Dominique Pelicot e mais de 50 homens. Casados há mais de 40 anos, foram encontrados mais de 20 mil vídeos de Gisèle drogada pelo marido até ficar inconsciente, sendo estuprada na sua casa por dezenas de homens, sem seu consentimento, por quase uma década. Gisèle, como retrata o trecho acima, resolveu não se calar e, ao publicar o livro, ratifica a ideia de que a vergonha, tão paralisante para as vítimas de violência, deve ficar com o agressor. Por isso a importância de poder falar sobre, apesar da dor.

Neste sentido, março foi um mês intenso no Brasil, em especial para as mulheres. Mês que celebra o “Dia Internacional da Mulher” (8 de março), mais do que nunca foi período de inúmeras manifestações antiviolência. Os números são assustadores! O Brasil registrou um recorde histórico de feminicídios em 2025, com 1568 vítimas, o que representa uma média de mais de 4 mulheres assassinadas por dia. Neste mesmo ano, 83000 casos de estupro e estupro de vulnerável foram registrados no país. Em média são 227 vítimas por dia, um crime a cada 6 minutos.

O crescimento alarmante da violência contra mulheres, em suas diversas formas: física, psicológica, simbólica, institucional e digital, é um fenômeno que se impõe de maneira cada vez mais inquietante em nosso tempo. Acreditamos que é tarefa de todos nós, enquanto psicanalistas e cidadãs/cidadãos, olhar cuidadosamente para esse tema e enfrentá-lo no combate a todas as formas de violência. Sempre atentas aos acontecimentos e refletindo sobre o que a psicanálise tem a contribuir, fizemos um convite para que colegas pudessem escrever sobre.

Juliana Lang Lima da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA) prontamente respondeu ao nosso chamado e enviou o ensaio “Eu não vim fazer um discurso*” (OP 672/2026). A partir do título a autora explica que “ninguém mais aguenta discursos. Os homens não os suportam porque acham que falamos demais; as mulheres os desprezam porque querem e precisam de ações.” Entretanto, Juliana traz alguns apontamentos como: “Nos últimos dias, diversas denúncias de assédio, comportamentos violentos e misóginos vieram a público. As acusações partiam de psicanalistas mulheres, em direção a homens que as teriam importunado na condição de orientandas, supervisionandas, pacientes e companheiras.” A autora questiona “colegas homens se eles estudam com colegas mulheres, se as leem, se as procuram para supervisionar, se indicam pacientes para ela” e também reflete sobre o fato de apesar da maioria de membros da IPA ser de psicanalistas mulheres. “essa proporcionalidade raramente é respeitada nos eventos científicos, com momentos de fala distribuídos dessa mesma forma. Em lugar disso, o que vemos, comumente, é uma presença maior de homens em posições de destaque, o que destoa em relação à plateia. Será que, tantos anos depois, as mulheres ainda seguem mais como ouvintes do que como enunciadoras de teoria?”

Fauzi Palis Jr. da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) no ensaio “Ela existe. Isso basta.” (OP 673/2026) explica que “o que testemunho na clínica e na vida confirma isso de outro ângulo, mais lento e mais profundo. A culpa que muitas mulheres carregam como se fosse própria não é própria, assim como a arrogância que muitos homens exibem como se fosse mérito não é mérito: ambas são formações do mesmo depósito, faces opostas de uma vergonha coletiva que nunca encontrou seu endereço verdadeiro, porque o endereço verdadeiro não é um gênero, é a fantasia que atravessa gerações e que ninguém, sozinho, fabricou, mas que todos, juntos, sustentam. Esse depósito não poupa ninguém: atravessa a tudo e a todos, institui culpas onde deveria haver perguntas, e devolve como vergonha pessoal e íntima o que pertence a uma fantasia coletiva. O trabalho de devolver o que não é seu, de distinguir o que se sentiu do que foi imposto sentir, de descobrir que existir sem culpa não é arrogância, é talvez o trabalho mais fundamental que a clínica conhece. E é também, fora dela, o trabalho mais urgente de uma sociedade que ainda não aprendeu a nomear o que fabrica em silêncio.”

Sabemos que este tema é inesgotável e precisamos seguir dialogando. Assim como inesgotável é a arte. Podemos pensar que se de um lado temos a ação violenta, de outro temos a saída criativa, e nossos colegas também trouxeram arte como respiro em meio às notícias de março, que por vezes faziam faltar o ar.

Sodely Páez da Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC) no ensaio “Valor Sentimental ou o romance familiar do neurótico” (OP 671/2026) compartilha suas reflexões sobre o filme que “se constrói como uma profunda meditação sobre o valor psíquico dos vínculos — não como capital afetivo acumulável, mas como resto, como aquilo que insiste para além da vontade consciente e da lógica da troca”. Conforme a autora, “o filme dialoga com uma sensibilidade psicanalítica contemporânea que não acredita na cura como normalização, mas na elaboração como processo sempre incompleto. Não há fechamento, não há síntese final. Há, ao contrário, a aceitação da ambivalência: amar e odiar o mesmo objeto, desejar o reconhecimento e rejeitar sua forma, querer voltar e precisar partir. Sentimental Value sustenta essa ambivalência sem resolvê-la — e é justamente aí que reside grande parte de sua potência.”

María del Carmen Míguez da Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC) nos leva a refletir sobre outro filme através do ensaio “Hamnet. Quando a criatividade se monta sobre o que está quebrado. Comentários sobre o filme homônimo” (OP 675/2026). “Há um giro subjetivo na narrativa de Hamnet que a distingue do Hamlet de Shakespeare em um aspecto fundamental: Hamnet é uma história contada a partir da perspectiva do feminino. Trata-se de uma ficção narrada por mulheres…Enquanto Hamlet é uma peça teatral em que o masculino e seus desafios ocupam lugar principal, Hamnet é um filme e romance que se detém em qualidades tradicionalmente associadas ao feminino: a intuição, a entrega, a conexão com a natureza e o mundo do inconsciente.”

Celso Gutfreind da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA) nos lembra da poesia dos encontros no ensaio “A poesia faz o sujeito” (OP 674/2026). “Humildemente, falei da poesia e, passado o livro, defendo a ideia de que todo analista, terapeuta, amante, professor, ou quem quer que esteja disposto a encontrar o outro, precisará dominar a arte do ritmo como a que os poetas dominam para fazer os seus versos, essas linhas erráticas que não ocupam o tamanho inteiro da página, por precisarem estender ou diminuir para dar conta de expressarem um encontro afetivo com a palavra e a pessoa. Pois é bem assim, com o poético da fala, do olhar e do toque de um sujeito que outro sujeito se faz”

Por fim, Beth Mori da Sociedade de Psicanálise de Brasília (SPBsb), no ensaio “Psicanálise e futuro: quando o político insiste na clínica” (OP 676/2026) se coloca “a pensar sobre a presença da política entre nós, psicanalistas.” A autora comenta que “quando colegas afirmam que política não é assunto da psicanálise, talvez estejam tentando defender a clínica de algo que a ameaça: o reconhecimento de que o sofrimento psíquico não nasce apenas do drama intrapsíquico, mas também da violência estruturante – simbólica, material e imaginária – do mundo comum.” Beth convida ainda à leitura do livro de Moysés Pinto Neto, intitulado “Política especulativa: ensaio sobre as imagens de futuro em disputa no século XXI” (editora Cultura e Barbárie) enfatizando que ele “nos convoca a imaginar futuros porque o presente tornou-se insustentável”. Aponta que “talvez seja esse o ponto de encontro mais potente entre psicanálise e política: a recusa do cinismo, a aposta no laço e a responsabilidade ética diante do mundo que estamos ajudando a transmitir”.

Nesta lógica da complexidade do dentro e fora, da clínica e da cultura, neste mês foi ao ar o podcast Mirante, com o episódio “Relações de Poder na Psicanálise”, da temporada “O sexual na polis”. Para esta conversa, recebemos a filósofa e psicanalista Natália León (Fórun Lacaniano de São Paulo) e a psicanalista Juliana Lang Lima (SBPdePA). O tema do episódio aborda um ponto especialmente delicado e incontornável: a ética e a psicanálise atualmente. A psicanálise nasceu como um discurso incômodo, um saber que deslocou certezas, abalou convenções e transformou profundamente os modos de pensar o desejo, a sexualidade, o sofrimento e a vida em comum. Hoje, quando falamos de sexualidade, temas como abuso, assédio, violência e poder se impõem com força. Neste episódio, buscamos abrir um espaço de conversa sobre aquilo que o campo analítico, muitas vezes, hesita em nomear: abuso de poder, hierarquias de gênero, autoridade institucional, silêncio e responsabilidade.

Sabemos o poder da palavra e da escuta. Debates abertos são importantes porque transformam a sociedade, que é constituída por sujeitos psíquicos. Neste mês, celebramos ainda algumas conquistas no campo legislativo. Foi sancionada a lei que assegura a presunção absoluta de vulnerabilidade das crianças menores de 14 anos vítimas de estupro. Outra alteração na Lei Maria da Penha, no Código Penal e na Lei dos Crimes passou a incluir a violência vicária, quando o agressor atinge outra pessoa como filho, parente ou alguém próximo para causar sofrimento psicológico à mulher como forma de violência doméstica. O Ministério da Educação, em conjunto com o Ministério das Mulheres, assinou a portaria que regulamenta a inclusão, no currículo da educação básica, de conteúdos voltados à prevenção de todas as formas de violência contra mulheres, crianças e adolescentes. Também entrou em vigor o ECA Digital, que atualiza a proteção integral de crianças e adolescentes para o ambiente online, responsabiliza plataformas e serviços digitais, exige medidas de segurança, como verificação etária e oferta de ferramentas de supervisão parental, além de prever resposta rápida a conteúdos e condutas ilícitas. Outro avanço, ainda tímido, mas avanço, foi a ampliação gradual da licença-paternidade de cinco dias para 10, em 2027, 15, em 2028 e 20 dias, em 2029.

Que sigamos juntos pensando, dialogando e transformando! Temos muito cuidado com este espaço aberto de trocas e de ampliação da psicanálise brasileira e latino-americana. Agradecemos os ensaios, as escutas do podcast Mirante e as interlocuções que se desdobram tanto em nossos grupos de e-mails – especialmente no GG da Febrapsi, nosso espaço institucional de circulação interna – quanto nas conversas que seguem, de modo mais informal, entre colegas em diferentes grupos de estudos e de WhatsApp. Que cada vez mais o OP possa ser sentido como espaço de todos, diverso e potente.

Que venha abril!

Boa leitura,

Abraço afetuoso da equipe de Curadoria

Beth Mori (SPBsb), coordenadora

Ana Carolina Alcici (SPRJ)

Ana Valeska Maia (SPFOR)

Cris Takata (SBPSP)

Gabriela Seben (SBPdePA)

Giuliana Chiapin (SBPdePA)

Lina Schlachter Castro (SPFOR)

Palavras-chave: Mulheres, violência, relações de poder, Tanatus e Eros

Imagem: “What Gisèle Pelicot Survived”(NYT)

Categoria: Editorial

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da Febrapsi.

Os ensaios são postados no site da Febrapsi. Psicanálise e Cultura: Observatório Psicanalítico.

E para ler no Facebook clique no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página:

https://www.facebook.com/share/p/188w4vnQsD/?mibextid=wwXIfr

Nossa página no Instagram é @observatorio_psicanalitico

E somente para você que é membro da FEBRAPSI / FEPAL / IPA que se interessa pela articulação da psicanálise com a cultura, se inscreva no grupo de e-mails do OP para receber nossas publicações. Envie) mensagem para [email protected]

Categoria: Editoriais
Tags: mulheres | relações de poder | Tanatus e Eros | violência
Share This