Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo
Sódepois 69
Janeiro/2026
Com finalidades administrativas e políticas, organizar a notação da passagem do tempo em um sistema unificado socialmente. Esta poderia ser uma descrição fria da função dos calendários ao longo da história.
No chamado “Ocidente”, de Júlio César a Gregório XIII, a instituição de seus calendários marcou bem mais que isto. Foram atos-limite do apagamento de memórias para a instituição de novas eras.
Mas, como apontado por Freud, em O Inconsciente (1915), a temporalidade é uma experiência singular das mais complexas, insubmissa a um ordenamento pela mera passagem do tempo cronológico.
Assim, para abrigar nossa subjetividade no mundo compartilhado – a beleza e o assombro do paradoxo: lá, fora de si, o único lugar onde se pode ser – infiltramos na marcação “técnica” do tempo os símbolos de pertencimento, as pausas, as celebrações, os ritos e ritmos comunais.
E, de tanto aprender e repetir, chega o dia em que muitos de nós nos flagramos singelamente entusiasmados e crentes na renovação do desejo: “Feliz Ano Novo!”.
Surge a poesia que nos lembra:
O último dia do ano
Não é o último dia do tempo
Outros virão
(…)
O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens
Um homem e seu contrário
Uma mulher e seu pé
Um corpo e sua memória
Um olho e seu brilho
Uma voz e seu eco
Com Freud e Drummond, retomamos a linha convencionada da passagem do tempo já subvertendo-a: voltamos ao início de janeiro, mas não só. Voltamos a tempos e geografias tão outros e tão mesmos…
“Três em um” (OP 651/2026), de Adriana Rotelli Resende Rapeli (SBPSP), nos convida, afetuosamente, ao escurinho do cinema. Passeando pela grande tela mediadora, vamos ao Irã, aos Estados Unidos, a Recife… Mais que belas produções cinematográficas, Adriana nos apresenta à beleza e ao poder da criação artística: por suas sinuosas tramas fantásticas, ela nos liga à realidade. “Acerta a verdade e nos envolve em nossas próprias vivências”.
Então, já não estamos em terras, memórias e histórias alheias, mas no cerne de nossa frágil condição de filiação. Nessas potentes “pequenas arenas democráticas” em que podemos nos reconhecer, ainda que, primeiramente, como vítimas, se pudermos postergar o impulso ao ato da violência vingativa, se pudermos acolher nossas dúvidas (e dívidas), restauramos nossa humanidade e, “para o grupo recomposto em sua dúvida, o tempo pode, então, fluir”.
Fluir como os passos de Lina Rosa Gomes Vieira da Silva, SPRPE, lado a lado com o Capibaribe… E, acompanhando Lina, o rio e nossas próprias lembranças, deslizamos por entre as “licencinhas poéticas” recifenses – do twist de pobre, da Livro 7, do Bacalhau do Batata, da dolorosa memória da mãe de Miguel – até nos enroscarmos nos pelos da “A Perna Cabeluda” (OP 652/2026). Roçar os pelos dessa lenda urbana, simbolicamente, é sermos tocados na pele e na memória pelo bizarro, o objeto parcial, o supereu social cruel. Um extravasamento de delírio e fetiche típico dos regimes autoritários. Nessa caminhada, o adulto e a criança em cada um de nós se encontram e, diante da tela-vida vivem a expectativa do início de uma nova sessão: “Vai começar!”.
Mas, opa! Esperem! Nós já vimos esse filme!
Como disse o poeta, o último dia, o último tempo, ainda estão aqui. A marcação no novo calendário não sinalizou nem memória apagada, nem nova era instituída.
Tocados pelas franjas que sempre ficam, estamos de novo no Irã, nos Estados Unidos, na Groenlândia, no Líbano, na Somália, em Gaza, na Venezuela…
De novo, nos esforçamos para desvelar essa “Gramática Imperial” (OP 653/2026). Mais do que puxar essa conversa, Javier Garcia Castiñeiras – APU (Associação Psicanalítica Uruguaia), nos convoca à reflexão sobre o rapto de Nicolás Maduro e Cilia Flores, “porque este ato diz respeito a todos nós”. Javier descreve, diligentemente, o que nós, latino-americanos, sabemos e sentimos, às vezes sem sequer nos darmos mais conta: estamos imersos nessa dinâmica de limites transpostos, de violações de nossas fronteiras materiais e simbólicas.
O “verniz de legalidade” faz com que o ato violento não precise mais ser ocultado, apenas convertido em norma e, assim, torna-se “repertório em longa duração”. É a “pornografia do poder”, o “triunfo de uma estética do excesso”, como base de uma “pedagogia da precariedade”: o Outro Imperial e Colonial nos penetra, por vezes insidiosamente, por meio de uma impotência aprendida, Do desejo sob tutela, restando “o corpo e a subjetividade capturados por um olhar que define, rebaixa, ordena uma colonização íntima”. Por isso, “sustentar o limite, hoje, é sustentar a dignidade da palavra e a liberdade do desejo diante da obscenidade do poder quando o poder se disfarça de justiça”.
E se “Outro” implica, dialeticamente, um “Eu-Nós” – este convocado por Javier – devemos perguntar: quem somos? Para responder a essa questão, precisamos romper “Um Silêncio Ensurdecedor” (OP 654/2026). Reconhecer a voz e seu eco.
Assim o faz Margareta Hargitay Wieser (Asovep – Associação Venezuelana de Psicanálise). Ela nos aponta que no interjogo das soberanias estatal e psíquica, pode emergir um medo crônico, subsumido por um silêncio nem neutro, nem inocente. Interrogando esse silêncio, revela-se um “olhar externo que simplifica a nossa tragédia, que acredita ter soluções mágicas ou que nos reduz a vítimas sem história”.
Em contraponto a esta tutela “de fora”, Margareta apresenta, desde dentro, seu registro das “três décadas nas quais a liberdade da palavra foi progressivamente confiscada. O medo sedimentou-se no caráter, naturalizando o silêncio como se fosse a única forma possível de habitar o laço social”. Lembramos a ferida narcísica por falharmos em produzir mudanças por nós mesmos. A tutela infantiliza o sujeito e “debilita a responsabilidade subjetiva”. O silêncio, por vezes, resta como última “barreira de dignidade”.
Uma outra expressão desta “barreira de dignidade” delineada por Margareta, nos é apresentada por Serapio Marcano, da Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC) e a Associação Panamenha de Psicanálise (APAP), que, em “Violência, trauma e migração” (OP 655/2026) , partindo de sua atual condição de emigrante venezuelano, pondera sobre a complexa dinâmica eu-outro, presente desde o princípio da constituição da subjetividade, marcada pela violência: seja a da interdição, da frustração sem dano, seja a da dominação, produzindo um modelo identificatório à semelhança e veneração ao amo.
Neste contexto “de guerra”, a migração surge como uma tentativa de algum distanciamento, mas, com ela, um novo lugar terceiro, doloroso de ser (des)habitado. Nem aqui, nem lá, o lar como representação de um desejo violentamente negado, mas que ainda se insinua “em meus sonhos, pessoas e lugares da Venezuela”…
Entre sonhos, pessoas e lugares, vão se revelando as realidades vividas nesta Venezuela que reflete os efeitos do nosso tempo e nossa história: “a cronificação do conflito interno gerou um cansaço em todos nós e — por que não dizer — também entre nossos interlocutores”, como aponta María del Carmen Míguez – Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC), em “Repensando a Venezuela” (OP 656/2026).
Chamando a atenção para “um panorama semelhante ao de uma guerra civil”, em que os poderes públicos se veem “confiscados por um único grupo”, a mais recente intervenção estrangeira nos defronta com um dilema semelhante ao de Caríbdis e Cila, no qual qualquer caminho não consegue se desviar de perdas dolorosas. Embora reconheçamos a necessidade do limite, surge, mais uma vez, a questão da violência com a qual ele se impõe. Sem a lente esquizoparanoide da luta ideológica reducionista entre “direita e esquerda”, María resgata a pulsão de vida como forma de resistência ao apagamento de nossa identidade coletiva e deixa a instigante dúvida: será a potência do feminino criativo, espelhados por Delcy Rodríguez e María Corina Machado, uma possibilidade de reinvenção?
Em “Venezuela: Um mapa desfigurado” (OP 657/2026), todos nós, “estrangeiros em potencial”, caminhamos com Sodely Páez – Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC), reunidos aos mais de 130 milhões de apátridas contabilizados pela ACNUR (ONU) até meados de 2025. Mais do que um número absurdo, porém frio, enxergamos as marcas dos passos deixados na travessia de “um limiar simbólico que desorganiza os mapas do eu”, empurrados à força pelo “abuso e a exploração por parte de poderosos que lucram com seu comércio e tráfico”.
Com isso, as perguntas urgentes: “poderíamos chamar de civilizada essa sede de domínio, controle ou apropriação?”. Que ato civilizatório é este que se dá pelo progressivo desaparecimento do outro? “Onde ficou a hospitalidade?”.
Aqui, em nossa “pequena arena democrática” do OP, não bradamos resposta. Seguimos investindo nosso desejo de agenciamento e sustentação para que toda pergunta, contundente ou singela, sirva à emergência das múltiplas perspectivas existentes diante do que se apresenta como controverso “mesmo” real.
Infelizmente, janeiro começa com as franjas desse modo de vida autoritário nos assombrando, seja com o som dos relâmpagos estourando sobre Brasília, sejam com estampidos secos e frios despejados sobre tantos latino-americanos, como acaba de acontecer no coração da suposta maior democracia do Ocidente, com os cidadãos estadunidenses Renée Good e Alex Pretti.
Tudo tão outro… Tão mesmo…
A vertigem provocada pelo trânsito entre extremos também surgiu no nosso fustigado planeta: das nevascas históricas no hemisfério norte à elevação da média da temperatura global sentida como ondas de calor recorde no hemisfério sul. Ainda assim, a política global segue disputando combustíveis fósseis, inflando a bolha das tecnologias que consomem nossos recursos hídricos e asfixiando as ações de mitigação do cenário de desastre ambiental, começando pela oficialização, há poucos dias, da saída dos EUA do Acordo de Paris.
2026 marca uma década desde a primeira eleição de Donald Trump. Dez anos em que vivemos o assanhamento escancarado da violência-gozo, da “fruição estética” do horror que não reconhece limites, enquanto a morte assolava a humanidade com pandemia, desastres ambientais, guerras de extermínio e divisão.
Se a dureza desses cortes à vida tenta esgarçar nossa trama de pertencimento, sejamos aqueles que juntam os fios. Por isso, celebramos a chegada, com forte impacto criador, de mais um grupo de colegas da América Latina ampliando nossa oficina de laços.
Os ensaios trazidos por nossos colegas, certamente fizeram ressoar os registros dessa condição migrante e estrangeira que nos constitui, cada qual a seu modo, mas todos marcados pela originária matriz da violência colonial.
Seguir nomeando e vinculando esses múltiplos registros singulares para realizar nossa gramática da transformação: eis nossa tarefa político-psicanalítica!
Beth Mori (SPBsb), coordenadora
Ana Carolina Alcici (SPRJ)
Ana Valeska Maia (SPFOR)
Cris Takata (SBPSP)
Gabriela Seben (SBPdePA)
Giuliana Chiapin (SBPdePA)
Lina Schlachter (SPFOR)
Palavras-chave: Venezuela, Migração, Limite, Memória, Laço
Imagem: Jésus Rafael Soto, Spirale, Série Sotomagie (Espiral, Serie Sotomagie), 1955 / Edición 1967 Serigrafía en color sobre metacrilato 34 x 34 x 18 cm.
Categoria: Editorial
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