Observatório Psicanalítico-Editorial dezembro/2025 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

Sódepois 68 

Dezembro/2025

“O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias.”

Com essa afirmação contundente, João Ubaldo Ribeiro abre “Viva o Povo Brasileiro”, deslocando desde a primeira linha a ideia de verdade como algo dado, transparente, definitivo. Não se trata de negar o real, mas de lembrar que aquilo que chamamos de “fato” só ganha existência simbólica quando entra numa trama de linguagem, memória e transmissão. O real não se apresenta a nós em estado bruto: ele chega sempre como narrativa, como história contada, disputada, silenciada ou reiterada.

Essa perspectiva literária ressoa particularmente no conceito de acontecimento, tal como pensado por Deleuze e Derrida. Para Deleuze, o acontecimento não se reduz ao fato empírico, datável, localizável. Ele excede o que aconteceu e persiste como efeito, como devir, como algo que continua a acontecer nas suas múltiplas atualizações. Em Derrida, o acontecimento verdadeiro é aquele que rompe expectativas, que não se deixa capturar plenamente pelo sentido e que só se torna acessível por meio do traço, da repetição, da escrita — nunca como presença plena, mas como diferença. O acontecimento, assim, não se fixa: ele insiste.

Há anos que passam. E há anos que ficam. 2025 foi um desses anos que não se deixam fechar facilmente. Um ano que insiste em permanecer como pergunta, como ferida aberta, como trabalho ainda em curso. No OP, não o atravessamos como quem coleciona fatos, mas como quem se deixa afetar por acontecimentos, que convocam a palavra porque não podem ser simplesmente esquecidos.

Ao longo deste ano, o OP se constituiu, mais uma vez, como um espaço de escuta e de escrita diante do que abalou o laço social: ameaças à democracia, guerras, violências de Estado, feminicídios, racismo estrutural, ataques à infância, destruição ambiental, lutos coletivos, mas também resistências, gestos de cuidado, produções culturais, encontros e reinvenções possíveis de Eros em meio à devastação.

Escrever o Sódepois não significou somente escrever uma recomendação de leitura dos ensaios publicados no mês e de escuta de nosso podcast Mirante. Significou escrever quando já não era possível calar. Quando a neutralidade se mostrava cúmplice. Quando a psicanálise, se quisesse permanecer viva, precisava assumir sua implicação com o tempo histórico e com os corpos afetados pela cultura.

É com esse enquadramento que o Observatório Psicanalítico entra no mês de dezembro, tomando como eixo um acontecimento que, tragicamente, insiste: o feminicídio. Mais do que um dado estatístico — ainda que os números sejam alarmantes —, trata-se de um acontecimento que se reatualiza na cultura, nas relações amorosas, nas fantasias de posse, nos pactos silenciosos que ainda organizam o laço social.

Na noite de Natal, após 25 dias de internação e tendo se submetido a várias cirurgias e procedimentos médicos, partiu Tainara de Souza Santos. Assassinada brutalmente por um homem com quem tivera um breve relacionamento e que se achava “dono dela”, Tainara foi atropelada e arrastada por um quilômetro no último dia de novembro, tendo as pernas amputadas em decorrência da violência sofrida. Amplamente divulgado pela mídia, o fato — se quisermos chamá-lo assim — corre o risco de se esgotar na repetição da notícia. O acontecimento não se esgota. Ele retorna, fere, convoca escuta e elaboração – e é justamente a partir dessa convocação que surgem os ensaios publicados no OP deste mês.

Entramos, assim, o mês de dezembro atravessados por essa e por tantas outras histórias que compõem o alto índice de feminicídios em nosso país. Histórias de mulheres que tiveram um fim trágico praticado por homens e que não são exceção, mas expressão de um mal-estar persistente na cultura. Marion Minerbo (SBPSP) nos lembrou, no campo de comentários de nosso grupo de e-mails do OP, que a mulher “saiu do armário” e que o “pênis”, na contemporaneidade, já não tem o valor cultural que teve no passado. Essa perda de centralidade fálica, longe de produzir apenas rearranjos simbólicos, expõe também zonas de desamparo, reações violentas e tentativas desesperadas de reinscrever a posse e o domínio sobre o corpo feminino.

O feminicídio, nesse sentido, não tem sido apenas um crime: é um acontecimento que revela impasses profundos na articulação entre sexualidade, poder, diferença e violência. Cabe à psicanálise — e às instituições psicanalíticas — não reduzir essas histórias a fatos isolados, mas sustentar um espaço de escuta e pensamento que permita compreender o que, nelas, continua acontecendo. Foi isso que fizemos, enquanto curadoras do OP, ao convocar, principalmente os homens psicanalistas, para a escrita de ensaios sobre o tema. 

O primeiro ensaio publicado no mês – “Poderes Podres” (OP 637/2025) de Eduardo de São Thiago Martins (SBPSP) – opera como uma pequena dramaturgia do colapso: o “juiz/pai/bispo/rei” aparece reduzido ao corpo em pane, em “pandarecos intestinais”, revelando a alegoria do poder patriarcal como grotesca e frágil. A masculinidade hegemônica surge como performance sustentada por insígnias (coroa, mitra, peruca) e o pânico quando esses adereços deixam de garantir autoridade — inclusive diante da hipótese simples e explosiva: “quem sentaria na cadeira? Uma mulher?”. 

José Antônio Sanches de Castro (SBPSP) em “A Fissura no Espelho” (OP 638/2025), aborda o feminicídio pelo meio-termo inquietante: não o “monstro do noticiário”, mas o amigo, o padrinho de casamento, o homem “funcional” cuja violência se manifesta como vigilância e controle. O conto nomeia com precisão um mecanismo de sustentação do patriarcado: o pacto fraterno (de proteção e validação) que cobra lealdade quando a masculinidade se sente ameaçada e faz do outro homem um espelho que não pode “rachar”. Para o autor, “trair o pacto” não é heroísmo, é suportar a angústia de perder pertencimento para impedir que a violência siga seu curso. Assim, para muitos homens, o primeiro enfrentamento não é “contra o agressor”, mas contra o medo de desagradar a horda — e esse medo, quando não atravessado, vira cumplicidade.

“Feminicídios: cadáveres ocultos em minha mente” (OP 639/2025) é o título do ensaio de Hemerson Ari Mendes (SPPel) que costura trauma, memória e cultura: uma cena infantil de assassinato “sem nome” retorna décadas depois, acionada pela repetição midiática contemporânea, um “cadáver oculto” psíquico e social. Ao aproximar Diana Russell e a “defesa da honra”, ele mostra como a nomeação (feminicídio) não é detalhe acadêmico, mas operação civilizatória: dar nome é tirar do naturalizado. O texto localiza a violência também na alfabetização afetiva masculina — especialmente na literalidade religiosa patriarcal — sem cair num ataque simplista à fé: ele aponta a circularidade entre narrativas culturais e justificativas morais para controle e punição das mulheres. Desloca o feminicídio para além do ato: o horror maior é a desumanização final que impede luto, memória e elaboração. E, por contraste, evidencia por que a cultura precisa insistir em ver, dizer e sepultar simbolicamente o que o poder tenta apagar.

Em “O desaparecimento do sexo masculino” (OP 640/2025), Mariano Horenstein (APC) escreve um ensaio onde a masculinidade aparece como uma construção histórica que perde garantias na ultramodernidade “gasosa”, e cujo “centro” (o falo como significante) já não organiza o mundo como antes. Como Butler, Queer Theory e Preciado, Mariano pensa masculinidade não como essência, mas como constelação de identificações/semblantes, atravessada por tecnologia, política e lutas corporais. O texto é especialmente fecundo quando não se refugia nem na correção política automática nem no reacionarismo defensivo: propõe sustentar a perplexidade como método — confiar no inconsciente e no dispositivo analítico para atravessar a desconstrução sem desmoronar no moralismo nem no cinismo. E, ao lembrar feminicídios e a lógica do estupro, o autor recoloca o debate: falar de masculinidades não é moda teórica, é enfrentamento de imagens cruéis que não podem ser esquecidas quando se pensa “o que é um homem” hoje.

“Entre mulheres, entre homens” (OP 641/2025), Fauzi Palis Júnior (SBPSP) organiza uma arqueologia íntima da masculinidade como enigma e ferida transmitida: o menino entre mulheres aprende a “paciência” ambivalente (que sustenta e que mata por dentro), enquanto do lado masculino recebe a marca do silêncio e da não-autorização: um pai que não sustenta o desejo diante de outro homem. A violência masculina começa muito antes do ato violento, começa na exigência de violência contra si (máscara, amputação afetiva, expulsão da vulnerabilidade). O ensaio articula isso com o cotidiano do consultório: a violência “menor” (economia do casal, domínio silencioso, ciúme travestido de proteção) como corredor que prepara o feminicídio. E, ao trazer Lima Barreto (1915) e dados recentes, o autor faz o salto do íntimo ao histórico: a herança não é só individual, é cultural — e a escrita aparece como gesto de implicação contra o silêncio dos homens.

A escrita de Celso Gutfreind (SBPdePA), em “Masculinidade em prosa sem verso” (OP 642/2025) é deliberadamente “quebrada”, como se performasse o próprio impasse: uma masculinidade que perdeu lugar simbólico e reage com sintoma e violência. O texto desloca a ideia de força para fragilidade: “a macheza era casca”, e o masculino aparece como “verdadeiro sexo frágil”, incapaz de suportar o “não” e, por isso, propenso a ferir e matar. Ao insistir na tríade “sentir–pensar–falar”, o autor aproxima a clínica do político: romper o silêncio não é só “falar sobre”, mas resgatar a capacidade de ligação contra a deriva mortífera. A inclusão do poema (Peri Rossi) fecha com uma imagem contundente: aquilo que o homem enfrenta com ódio e violência, a mulher “domestica com doçura” — provocação que ilumina tanto a fantasia viril quanto o custo feminino de pacificar o dragão.

O ensaio “Machilismo, um horizonte ético masculino” (OP 643/2025), de Avelino Neto (SPBsb), propõe um neologismo como dispositivo clínico-político: “machilismo” não como reação ao feminismo, mas como ética masculina de autoquestionamento. A força do texto está em não vender redenção: ele nomeia o risco de captura (virar “machismo simpático”, escudo narcisista, performance) e insiste que só faz sentido se for atravessado pela escuta feminista e pela renúncia aos privilégios. Ao organizar “machismo/femismo/feminismo/machilismo” como disciplinas tensionadas, o autor tenta criar uma gramática para um problema contemporâneo: como inventar laços entre homens baseados em testemunho e cuidado, sem reencenar competição e pactos de virilidade. O texto pergunta: é possível um projeto de masculinidade que não precise do inimigo (mulher/feminismo) para existir? E aposta numa utopia ética mínima — não “ser melhor”, mas “ser outro”.

Em “Close (2022): entre o esplendor e as perdas” (OP 644/2025), nossa colega da Luciana Saddi (SBPSP), introduz um ponto que conversa diretamente com a série de ensaios sobre feminicídio: a violência patriarcal também passa por interditar ternura — especialmente entre meninos. Ao ler Close com Freud e Ferenczi, a autora mostra como o social sexualiza e moraliza a ternura, produzindo vergonha e superego, e como a homofobia/machismo funciona como traumatização: o que era “brincar” vira ameaça. A passagem de Léo para a “masculinidade convencional” (esporte bruto, grosseria, travesseiro-barreira) aparece como preço psíquico de pertencimento — e o desfecho trágico radicaliza a tese: certas formações de masculinidade matam vínculos, e às vezes matam corpos. O texto oferece, portanto, um elo precioso: discutir feminicídio também é discutir a pedagogia afetiva do masculino que transforma amor em vergonha e cuidado em humilhação.

O texto “Do que somos feitos: do que é feita a Psicanálise?” (OP 645/2025) de Morgana Mengue Saft Tarragó (SPBdePA) é uma meditação sobre a própria psicanálise como tradição viva: da escuta do recalcado à necessidade contemporânea de acolher o não-recalcado, o não simbolizado, o aquém da palavra — e, com isso, repensar técnica, abstinência, neutralidade e contratransferência. A autora insiste num ponto essencial para a formação: teoria não é para “replicar”, é para pensar — e a ética do analista se joga na capacidade de sustentar o enquadre sem virar protagonista, mas também sem se esconder numa neutralidade cinza e morta. Ao articular Green, Quinodoz, Anzieu, ela propõe uma visão de psicanálise como trabalho artesanal de heranças e retalhos: tornamo-nos analistas apropriando-nos de muitos e encontrando uma voz própria. Por último, lembra que a psicanálise, para continuar existindo, precisa se refazer diante dos sofrimentos do tempo, sem sacrificar a verdade à simplificação.

Julio Cesar Nascimento (SBPSP), em “Sobre o horror à feminilidade” (OP 646/2025), propõe uma leitura metapsicológica rigorosa e implicada do feminicídio, articulando clínica, teoria psicanalítica e experiência autobiográfica. Partindo da repetição dos roteiros de violência — marcados por ciúme, delírio de posse e passagem ao ato diante da autonomia feminina —, o autor interroga por quais jogos de forças alguns homens não recuam para soluções melancólicas, mas avançam para a tentativa de aniquilação da mulher. Mobilizando Freud, Klein, Ferenczi, Stoller e Balint, o ensaio explora o horror à feminilidade como efeito de camadas arcaicas da constituição psíquica masculina: a bissexualidade inconsciente, a inveja do útero, o terror da fusão e da regressão à dependência, e a necessidade defensiva de sustentar uma falicidade imaginária. O feminicídio aparece, então, como uma solução perversa — e profundamente política — diante da perda narcísica, da emergência do desejo homoerótico recalcado e do colapso das fantasias de domínio, revelando como cultura, violência infantil e identificações com ideais fálicos autoritários se suplementam na atuação destrutiva contra o feminino.

Ruggero Levy (SPPA), em “A ‘manosphere’ ou a ‘machosfera’: um reduto do machismo ferido” (OP 647/2025), analisa a emergência e a expansão de comunidades virtuais misóginas que vêm operando como espaços de doutrinamento de jovens homens fragilizados narcísica e identitariamente. Articulando fenômenos culturais, tecnológicos e psíquicos, o autor descreve como algoritmos capturam adolescentes atravessados por frustrações amorosas e inseguranças quanto à masculinidade, conduzindo-os a universos simbólicos marcados pelo ódio ao feminino, pela fantasia de humilhação masculina e pela incitação à violência, inclusive ao feminicídio. Para além da dimensão sociopolítica — compreendida como reação organizada à emancipação feminina —, o ensaio convoca a psicanálise a considerar a fragilidade da identificação masculina secundária e o pavor despertado pela identificação feminina primária, frequentemente recalcada. A manosphere aparece, assim, como uma resposta defensiva e violenta à emergência do feminino, revelando a convergência entre regressões culturais, falhas da mediação adulta e impasses estruturais da subjetivação masculina na contemporaneidade.

Ao nos aproximarmos do Natal, dois textos deslocam o olhar. Sem negar o horror, interrogam aquilo que, muitas vezes, antecede a passagem ao ato: a ausência de palavra, de reconhecimento, de presença simbólica. 

Em “A sessão de véspera – um conto de Natal” (OP 648/2025), José Antonio Sanches de Castro (SBPSP / GEP Marília) desloca o olhar do ato violento para aquilo que, muitas vezes, falta antes dele: a experiência de ser visto, escutado e reconhecido. Por meio de uma narrativa delicada e densa, o autor encena uma “supervisão improvável” na véspera de Natal, em que um analista se confronta com o sentido de sua própria permanência diante da ausência, da poltrona vazia e das expectativas projetadas no outro. O conto articula, com sutileza winnicottiana, temas como presença sem demanda, função reparadora da escuta e responsabilidade ética do analista — não como aquele que oferece respostas ou objetos, mas como quem sustenta um espaço onde algo pode advir. Em um mês atravessado pelo acontecimento feminicídio, o texto opera como contraponto necessário: lembra que, diante da violência e do desamparo, a aposta na palavra, na permanência e no laço é também um gesto político, capaz de interromper, ainda que parcialmente, circuitos de abandono, ressentimento e destrutividade.

Daniel Delouya (SBPSP), em “Haja Luz – Bereshit, Hanucá e Natal” (OP 649/2025), propõe uma reflexão densa e sensível sobre a palavra como resposta à catástrofe, articulando mito bíblico, experiência pessoal de luto e os horrores contemporâneos da violência coletiva. Retomando o caos inaugural de Bereshit — o abismo, as trevas e a terra submersa —, o autor destaca a emergência da fala como ato fundador: “Haja luz”, não como eliminação das trevas, mas como possibilidade de distinção, tempo e responsabilidade ética. Ao aproximar Hanucá e Natal como festas das luzes e da presença dos ausentes, o ensaio atravessa o terror das guerras, do terrorismo e do antissemitismo reatualizado, interrogando os processos de racialização, fanatismo e apagamento das singularidades. Frente às destrutividades praticadas em nome de identidades totalizadas — quase sempre masculinas, armadas e onipotentes —, Delouya convoca a psicanálise a sustentar a palavra como resistência à barbárie, recusando tanto a lei do talião quanto a banalização do mal, para que alguma luz possa ainda advir do abismo.

Foi com essa intensidade de afetos e demanda por elaborações sobre a relação entre homens e mulheres que, em dezembro, atravessamos questões abertas em nosso podcast Mirante sobre desigualdade, intimidade e violência nas relações afetivas. No episódio “Casais: felizes para sempre?”, tratado no mês anterior com duas colegas mulheres, Tania Rivera (UFF) e Helena Cunha Di Ciero (SBPSP), algo permaneceu nos convocando: e os homens? Como eles pensam o casal? Como se percebem no cenário atual? O que conseguem — ou não conseguem — dizer sobre amor, fragilidade, poder e cuidado? Para nos ajudar a pensar esse tema, convidamos dois homens e psicanalistas: Vinicius Lima, autor de “Homens em análise: travessias da virilidade” (Blucher), e Leonardo Siqueira, da SPRJ.

Essas perguntas tornaram-se ainda mais urgentes diante do aumento dos feminicídios no Brasil e de uma cultura digital marcada pela misoginia, pelo universo red pill e pelo medo da autonomia feminina. A recém-lançada série “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, da HBO Max, reacendeu esse debate ao mostrar como a liberdade das mulheres segue sendo narrada, recorrentemente, como ameaça — e como justificativa simbólica para a violência masculina.

No dia 7 de dezembro, presenciamos uma grande mobilização nacional, quando mulheres foram às ruas para dar um basta à violência — quase sempre praticada após o fim de uma relação amorosa. Não se trata de casos isolados, mas de uma cultura que ainda autoriza homens a reagirem com violência quando perdem o controle, quando não suportam a separação ou a autonomia feminina. O que, então, do masculino se repete? O que precisa ser desmontado? E o que pode, finalmente, se transformar?

E, hoje, 31 de dezembro, último dia do ano de 2025, o jornal Folha de SP anunciou mais uma triste notícia: “São Paulo tem o maior número de feminicídios e agressão a mulheres de sua história”. Dados da Secretaria de São Paulo estadual indicam: de janeiro a novembro aconteceram 233 assassinatos e  61,4 mil casos de lesão corporal dolosa; os registros totais de estupros chegaram a 2.697 neste ano. “Especialistas apontam que o feminicídio costuma ser o desfecho de um ciclo prolongado de violência.”

O feminicídio, enquanto acontecimento, interpela diretamente a psicanálise. Interpela nossa clínica, ao nos confrontar com os destinos da pulsão, com as soluções violentas diante da perda de referências simbólicas e com as formas contemporâneas de recusa da alteridade. Interpela também nossas instituições, chamadas a não se calarem diante da violência que atravessa o laço social, sobretudo quando essa violência incide de modo reiterado sobre os corpos das mulheres. 

Ao trazer, neste mês, ensaios e comentários que abordam a chamada “machosfera”, as reações ao deslocamento das posições de gênero e a crise das referências fálicas tradicionais, o OP não busca oferecer respostas prontas nem diagnósticos fechados. Busca, antes, sustentar um campo de pensamento no qual o acontecimento possa ser historicizado, interrogado e reinscrito de outra forma. Um campo onde a psicanálise possa exercer sua função crítica, recusando tanto a naturalização da violência quanto sua redução a explicações simplistas.

André Botelho Campbell (SPBsb) escreveu o ensaio “Sobre fragmentos, tempos e o que mais se quiser pensar” (OP 650/2025) que escolhemos para fechar nossas publicações de 2025. André faz uma crítica da aceleração contemporânea a partir de uma experiência coletiva de transmissão (a “escuta da escuta” em fragmentos) e transforma isso numa reflexão sobre tempo erógeno, pausa e elaboração. Ao comparar congresso/vida digital/consumo de ideias, ele descreve uma subjetividade de “fragmentos demais” e metabolização de menos — e insere Freud (a posteriori) como resistência à lógica do descarte: o vivido só vira experiência quando pode ser reinvestido depois. O texto conversa muito bem com o OP como agenciamento: o grupo como máquina de lentidão, produção de corpo simbólico e cuidado do pensamento. E termina como gesto coerente: escrever é desacelerar — uma política da atenção contra a “doença da velocidade” que captura também a clínica e as instituições.

Diante de tudo isso, nós da Curadoria do Observatório Psicanalítico (OP) reafirmamos o compromisso com a sustentação de um espaço onde os acontecimentos de nossa época possam ser pensados para além da lógica da mera constatação ou da repetição anestesiante da notícia. Se não existem fatos sem histórias, como nos lembra João Ubaldo, então também não há acontecimentos que possam ser elaborados sem escuta, sem linguagem, sem a disposição de sustentar o desconforto que eles produzem.

Escutar o acontecimento é aceitar que ele não se encerra no que aconteceu, mas continua a acontecer nas narrativas, nos silêncios, nos sintomas e nas repetições culturais. É nesse sentido que o Observatório Psicanalítico se propõe como um lugar de elaboração coletiva, onde clínica, cultura e política se articulam, e onde as histórias — dolorosas, inquietantes, urgentes — possam encontrar palavras que não apaguem a violência, mas que impeçam sua banalização.

Encerramos este editorial com a imagem e as palavras da pintora Artemisia Gentileschi (1593–1654) — primeira mulher aceita na Academia de Belas Artes de Florença, a mesma instituição pela qual passou Michelangelo. Em 1611, aos 17 anos, já demonstrando um talento excepcional para a pintura, foi estuprada pelo também pintor Agostinho Tassi, em um contexto histórico que exigia da mulher a prova pública de sua própria violação. Deixou registrado o relato de sua experiência:

“Trancou o quarto à chave e depois me jogou sobre a cama, imobilizando-me com uma mão sobre meu peito e colocando um dos joelhos entre minhas coxas para que não pudesse fechá-las. E levantou minhas roupas, algo que lhe deu muito trabalho. Pôs um pano em minha boca para que não gritasse. Eu arranhei seu rosto e arranquei seus cabelos.”

O pai de Artimisia decidiu processar o estuprador, requerendo deste uma indenização. No entanto, o processo que poderia ser também uma restituição de dignidade à jovem estuprada, seguiu uma cadeia de reiteração da violência patriarcal: Artemisia foi descredibilizada durante o julgamento, torturada em interrogatórios, obrigada pelo pai a se casar, tornou-se provedora da família e foi espoliada pelo marido. Tassi, o estuprador, nunca cumpriu a modesta pena a qual foi condenado.

Sua pintura Judith decapitando Holofernes atravessa os séculos como uma inscrição visual do acontecimento traumático: não como vingança literal, mas como gesto simbólico de restituição de voz, autoria e dignidade diante da violência masculina. 

Sua obra e seu testemunho nos lembram que a violência contra as mulheres é uma ferida histórica que atravessa culturas e tempos, exigindo de nós a recusa do silêncio e da banalização. Sustentar essa escuta é, também, um gesto político.

Que este mês de dezembro, marcado por luto e indignação, seja também ser um tempo de reflexão e responsabilidade – não para encerrar o sentido do acontecimento, mas para mantê-lo aberto à escuta, condição necessária para que algo diferente possa, enfim, advir.

Com o carinho da equipe de curadoria, nos despedimos de 2025. 

Que venha 2026!

Beth Mori (SPBsb), coordenadora

Ana Carolina Alcici (SPRJ)

Ana Valeska Maia (SPFOR)

Cris Takata (SBPSP)

Gabriela Seben (SBPdePA)

Giuliana Chiapin (SBPdePA)

Lina Schlachter (SPFOR)

Palavras-chave: Acontecimentos, Escrita, Diálogo, Pensamento, Elaboração 

Imagem: Artemisia Gentileschi, Judith decapitando Holofernes (1612–1613). Óleo sobre tela.

Categoria: Editorial

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da Febrapsi.

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Categoria: Editoriais
Tags: Acontecimentos | diálogo | elaboração | Escrita | Pensamento
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