18.05.18 Observatório Psicanalítico 50/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

O sonho das ciências e a ciência dos sonhos 

Liana Albernaz de Melo Bastos (SBPRJ)

 

Há alguns dias, a Academia Brasileira de Ciência apresentou aos presidenciáveis propostas para um desenvolvimento sustentável e socialmente justo do Brasil incorporando ciência, tecnologia e inovação como política de Estado. Considera que, no mundo contemporâneo, é impossível a criação de novos empregos, o combate à pobreza, a redução da desigualdade e o fortalecimento da governabilidade democrática sem melhoria da educação, do uso da ciência, da aplicação de tecnologias localmente eficientes e da introdução da cultura da inovação em toda a sociedade.( Documento disponível em https://goo.gl/i5WY87)
 
O que os psicanalistas podem dizer a este respeito?
 
Sabemos que as relações da Psicanálise com a Academia não são tranquilas. 
Desde que Freud abortou o “Projeto para uma psicologia científica” ( 1895), a Psicanálise ocupou um lugar marginal às ciências. O modelo cartesiano não permitia o alinhamento da psicanálise.
 
Curiosamente, é da autoanálise de três sonhos que Descartes teve em 1619, que a ciência nasceu. “Em 10 de novembro, como eu estava cheio de entusiasmo é que descobri os fundamentos de uma ciência admirável”.( cit Buff,L. Sonhos sobre Meditações de Descartes). O racionalismo nasce sobre o pano de fundo do sonho.
 
Na Interpretação dos Sonhos, momento inaugural da Psicanálise, Freud nos apresenta a realidade psíquica. Logo, a equivalência – mas não a identidade -da realidade psíquica à material. Outras oposições cartesianas são superadas pelo conceito de pulsão: corpo/alma, sujeito/objeto, natureza/cultura.
O princípio da incerteza da Física quântica ao apontar a onda eletromagnética comportando-se ora como partícula, ora como onda, a depender da pergunta, abole a oposição sujeito/objeto. A subjetividade é recolocada em cena após o desassombro de Descartes que, ao retirá-la, inaugurou a ciência moderna.
 
A verdade última não é objeto nem da ciência nem da Psicanálise. O real (das Ding) é inapreensível. Temos dele aproximações, pequenos desvelamentos. Seja pelas equações matemáticas (Lacan), pelos tropeços da fala, dos sonhos, dos sintomas, por aquilo que, do oculto, a nós se revela.
 
 
Assim, no mundo contemporâneo, a psicanálise sem se confundir com a ciência, tem, com seu instrumental teórico-técnico, um lugar a ocupar.
 
O OP, através de seus membros, vem caminhando nesta direção ao refletir sobre muitos dos temas que nos atravessam neste difícil momento no Brasil.
O ataque odioso à cultura e à livre expressão artística feita ao Queer Museu revelou que os horrores da perseguição nazista à “arte degenerada” se atualizavam pelo clima antidemocrático que legitimava e não mais reprimia a intolerância dos sujeitos.
 
Também a face xenófoba, racista e misógina do ódio incitaram-nos a nos manifestar quando dos brutais assassinatos de Marielle e Anderson e do genocídio continuado da nossa população jovem, pobre e predominantemente negra. O OP foi representado no emocionante depoimento de Wania Cidade.
 
A dessubjetivação de crianças institucionalizadas e a possibilidade de sua reversão por pequenos gestos foi relatada no belo trabalho de Alice Becker Lewkowicz, Eleonora Abbud Spinelli, Joyce Goldstein e Maria Elisabeth Cimenti.  
 
A invisibilidade social queperversamente, pela denegação, grande parte da população e do poder público insiste em oferecer aos negros e aos pobres do país foi trazida nopungente texto de Rodrigo Lage Leite sobre a tragédia do Largo do Paissandu.
 
Não estamos calados. Nós, psicanalistas, cujo trabalho se sustenta na ética, temos nos manifestado. A psicanálise pode e deve se juntar a outras vozes que, como as da ABC, lutam por um país inclusivo, justo e democrático. Nesta luta cabem todos os saberes.
 
Sejamos sementes prenhes de vida e sonhos.
 
 
 (Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores.)