30.09.17 Observatório Psicanalítico 25/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Semblante de verdade e preconceito

 Beth Cimenti

 

Testemunhamos na atualidade situações que nos deixam perplexos. Recentemente circulou em jornal paulista a seguinte notícia:

“Juiz absolve pai que espanca filha adolescente com um fio elétrico e raspa o cabelo da jovem, por ela ter perdido a virgindade com o namorado.

A sentença do juiz foi, por ele, justificada pelo fato de julgar pertinente o pai aplicar uma medida corretiva na adolescente.

Trata-se de uma situação pontual e que põe às claras a discriminação. Entretanto, este fato expressa a discriminação inserida no imaginário social e pode nos levar a pensar sobre o rechaço às diferenças em geral. Fatos que falam de intolerância se acumulam, a exemplo do fechamento pelo Banco Santander da exposição do Queermuseu em Porto Alegre e a autorização judicial da cura do homossexualismo com todas as implicações políticas que sabemos existir por trás disso. Então, observamos expressões de autoritarismo exercidas pelo poder paterno, econômico e judiciário, que se sente no direito de, em nome de sua suposta autoridade, tomarem-se de poder para cometer atos tirânicos. Inquestionável que estamos vivendo experiências maciças preconceituosas que atingem pessoas violentando seus direitos como cidadãos, a serviço de éticas particulares e lógicas totalitárias.

Mas o que sustenta estes preconceitos?

Parece que nossa cultura se alicerçou sobre semblantes de verdades. Semblantes construídos através de mitos explicativos de exercício de dominação apoiados em uma dualidade estática na base do Senhor e o do Escravo hegeliano. Tal dualidade se repete espectral e infinitamente, sem que se alcance uma consciência de si capaz de reconhecer nossos limites e desamparo. A consciência de nossa vulnerabilidade é difícil de se sustentar. É provável que um pai que ataque assim, como acima exemplificado, a uma filha, suponha que chegará a controlar a situação se for violento. Mas em que, o exercício desta violência, de fato, o tornará mais capaz de controlar a natureza ou as diferenças de convicções, credos e desejos do outro? Em nada! Esse é o semblante de verdade que aparenta dar sentido às atitudes preconceituosas que habitam o discurso social.

A subjetividade cultural permeia, através do discurso aí circulante, a construção dos nossos eus. Esta talvez seja a razão de resistirmos tanto a abrir mão de nossos preconceitos; sobre estes semblantes de verdade estruturamos nossa existência e buscamos a caro custo manter certa unidade do nosso eu. Questionar estes preconceitos significa questionar as crenças pessoais que nos sustentam. E toda vez que nossas imagens, aquilo que acreditamos ser, for questionado, apresentam-se nossos demônios. Foi o caso da fúria que mostrou em atos este respeitado pai, quando sua filha questiona sua autoridade, exercendo a própria sexualidade. Realmente não é fácil um sujeito se dispor a se repensar, por isso mesmo estas convicções retornam e retornam, num conflito interminável com o diverso e a ponto de alguém se constituir em um juiz-algoz. Professor Loureiro Chaves (2006) explica que o próprio conceito de justiça pode ser desfigurado, de modo a confundir justamente o que não poderia ser confundido. Assim, o acusador, o carrasco e o juiz se misturam em uma só entidade, exercendo estas funções indistintamente. Aí surge o semblante de verdade e a justiça perversa.

Que saída podemos esperar para esta circularidade? Como podemos esperar transformar as crenças semblantes de um pai, um juiz ou uma instituição, como um banco? Acredito que através da interlocução. O insuportável mal estar provocado pela forma de poder dominante acabará por conduzir à abertura de diálogos francos e mais livres, de modo a permitir que o pensar descortine novos valores, novas consciências, aportando as diferenças, inclusive econômica e social vigentes na América Latina em geral. O degrau q se impõe entre classes, dificilmente transponível de uma para outra, cria discursos particulares, que se colocam como excludentes dos demais que possam circular, dificultando este diálogo. Conforme coloca Freud, a baleia e o urso polar não podem travar luta, pois não podem encontrar-se, estando cada um confinado a seu próprio ambiente e modos vivendi. Talvez tenhamos que revisar todas as nossas convicções e realidades, antes de poder dialogar. A alteridade irá se impor somente quando não mais conseguirmos mascarar as diferenças radicais.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).