13.10.20 Observatório Psicanalítico – 201/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

Zuza e o amor explícito 

Cláudia A. M. Suannes (SBPSP)

O último programa de televisão a que assisti com meu pai foi um Café Filosófico com curadoria e apresentação de Zuza Homem de Mello.  O programa fazia parte de um projeto, “Paixão e ódio na canção”, onde ele, jornalista e pesquisador musical da melhor qualidade,  convidava letristas para conversar sobre algum tema, intercalando a conversa com trechos de músicas. 

O nome de Zuza está tão visceralmente associado à história da música popular brasileira que é difícil pensar nos movimentos musicais mais relevantes do país sem lembrar de sua alegre figura.  Apaixonado por jazz, Zuza foi contrabaixista nos anos 50, antes de partir para os Estados Unidos para estudar música.  De volta ao Brasil, não seguiu a carreira anunciada, mas, mantendo a paixão pela música, foi pesquisador, jornalista, crítico, produtor, escritor e diretor musical. Trabalhou na Record na época dos festivais universitários que lançariam uma geração de cantores e de compositores como Gilberto Gil,  Caetano Veloso, Chico Buarque e tantos outros, destacou-se em programas importantes  do rádio e da televisão, como “O Fino da Bossa” mas, longe de se manter nostalgicamente  agarrado ao passado, era dono de uma antena apurada, que captava novos talentos nas gerações que se sucederam aos artistas que se revelaram naquela época.  Como se isso fosse pouco, publicou livros que de certo modo registram a história do Brasil por meio de sua música.  

Esse homem que sabia tanto e era de uma simplicidade enorme, fazia do seu trabalho um meio de educar os ouvidos para  música de qualidade e, como o fazia com a maestria de quem ama seu ofício, era capaz de produzir encantamento em que assistia a seus programas.  Não sei quando  comecei a gostar de Zuza, nem de música brasileira, mas reconheço claramente que foi por influência de meu pai, e foi com ele que assisti ao “Amor não explícito”, um Café Filosófico que foi ao ar num domingo do ano de 2013.

Neste programa, Zuza convidou o compositor Hermínio Bello de Carvalho para conversar sobre músicas que cantassem o amor não explícito. Com alegria contagiante e uma simplicidade que deixa entrever sua vasta cultura musical, Zuza faz uma pergunta aqui, lança um comentário ali, solta uma gargalhada acolá e, anfitrião generoso que é, recolhe-se para dar voz ao seu convidado, oferecendo ao público uma deliciosa conversa de mais de uma hora. Num dado momento, Hermínio canta “A estrada do sertão”, música que fez em parceria com João Pernambuco.     

Zuza  ouve atento, marca suavemente a pulsação da música com as mãos, tira o lenço para enxugar as lágrimas que ameaçam correr pelo seu rosto, sorri com os olhos e por fim bate palmas efusivamente.  “Repare como o veterano Zuza não contém a emoção”,  disse meu pai na época, sem conter, ele também, a emoção de assistir a um encontro recheado de tanta delicadeza.   

Zuza, meu pai e eu nos emocionamos com a interpretação da canção, meu pai e eu nos emocionamos com a emoção incontida de Zuza e eu me emocionei com a emoção do meu pai. 

Ficamos um tempo em silêncio e depois caminhamos pelo corredor do hospital em que meu pai estava internado. Na volta para o quarto, encomendamos um dos livros de Zuza com a esperança de prolongar um pouco mais aquele encantamento, sabendo, no íntimo, que a doença que abatia meu pai não daria trégua e a encomenda provavelmente chegaria depois de sua partida.  Poucos dias depois meu pai se foi e esta semana foi-se o Zuza.  

Morreu em plena atividade, com projetos para o futuro e depois de terminar um livro sobre João Gilberto. “Com enorme dor no coração comunico que perdemos nosso querido Zuza. Ele morreu dormindo, de infarto, após termos brindado na noite de ontem todos os projetos bem sucedidos. Em 35 anos de uma vida compartilhada, pude testemunhar o amor desse homem pela vida, pelo seu trabalho e pela música. Zuza nos deixou em paz após viver uma vida plena!“, escreveu sua companheira Ercília.  

E assim ficamos um pouco mais órfãos, um pouco mais tristes, mas com a herança de um amor pela arte e pela cultura do Brasil que, quem sabe,  seja capaz de nos devolver a esperança de um país mais generoso e solidário. 

Quanto a  mim, que deixei na estante o livro encomendado com meu pai, resta-me aguardar a publicação do inédito de Zuza e esperar que suas histórias prolonguem a beleza daquele encontro.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

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