10.07.20 Observatório Psicanalítico – 179/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do Mundo.

Saúde em tempos de pandemia

Talita Rodrigues de Oliveira (SBPSP)

Quando os primeiros casos de COVID-19 vieram ao nosso país, o hospital em que trabalho (Hospital das Clínicas – FMUSP), o maior do país, iniciou várias mudanças para se adaptar à nova realidade e oferecer cuidado adequado aos pacientes que viriam. Em um clima de muita tensão, novas medidas eram tomadas a cada dia: desde a orientação de uso de máscaras e distanciamento social, até o isolamento de todo um prédio, onde passariam a ser atendidos os pacientes infectados. Sentia que todos nós estávamos muito angustiados e, de fato, houve um aumento considerável de afastamentos dos profissionais do hospital por causas psiquiátricas.

Lembro das palavras de Bion: “Na guerra, o objetivo do inimigo é aterrorizar você para impedi-lo de pensar claramente, enquanto o seu objetivo é continuar a pensar com clareza, apesar de a situação ser adversa ou amedrontadora, porque isto é uma vantagem para você” (Bion, 1979). Foi preciso arrecadar dinheiro extra para as adaptações e criou-se um crowdfunding com o slogan “#vempraguerra”. Se estamos em uma guerra contra um inimigo invisível, que possui o potencial de nos invadir e aniquilar, como então podemos ajudar as pessoas a refletirem sobre seus medos sem entrar em pânico? Como garantir um espaço de cuidado e de escuta da subjetividade dentro de uma instituição?

Trabalho no núcleo técnico e científico de humanização, coordenado pela Dra. Izabel Rios, que tinha a responsabilidade de implementar políticas de humanização da assistência também no contexto da pandemia. As equipes traziam uma demanda de cuidado psicológico, que até então vinha sendo oferecido por meios virtuais. Em parceria com a divisão de enfermagem, implementamos um projeto de grupos terapêuticos presenciais, ofertados às equipes da chamada “linha de frente do COVID-19”. 

Inicialmente, pensamos em um formato de grupos fechados, isto é, com os mesmos participantes durante quatro encontros. No entanto, a pandemia trouxe diversas perturbações, como novas rotinas e dinâmicas de trabalho, contratações em massa, além de uma grande sobrecarga às equipes, o que não foi favorável à formação dos grupos (eles ocorrem durante a jornada de trabalho). Nessa primeira fase do projeto, percebia os participantes sentindo-se impotentes, temendo a ameaça representada pelo pico da curva de infectados que, naquela época, parecia nunca chegar. Alternadamente, surgia a potência também, um sentimento de relevância, a percepção do próprio valor por estarem trabalhando na linha de frente, principalmente quando sentiam fazer a diferença. Em alguns encontros, essa potência surgia de modo a tamponar a angústia, em forma de defesa maníaca: tornavam-se heróis capazes de tudo suportar e tudo vencer.

A rotina do hospital mudou muito para a maioria das equipes. Muitos foram realocados de outros setores, necessitando se adaptar à nova função, às características específicas do cuidado com pacientes com COVID-19: uso de material de proteção, isolamento de pacientes, visitas com familiares por meio virtual, longas internações, mortes. Apesar da morte ser algo comum no cotidiano desses profissionais, ela era narrada nos grupos com um traço diferente: uma desestabilização súbita e incompreensível levava à morte. O componente de imprevisibilidade aparecia como muito angustiante, e o número de mortes se mostrava anormal: “vi dois corpos na maca… assim, de uma vez. Parece que faço tudo no automático, que não sinto. Mas quando vi os dois corpos… não sei… fiquei triste”, disse uma enfermeira.

Há a preocupação constante de contaminar os familiares, não sendo incomum casos de profissionais mandarem os filhos pequenos para morar com os avós, dormirem separado do cônjuge, se isolarem em algum cômodo do lar ou, em alguns casos extremos, irem morar em outro lugar. Outros relatam o preconceito sentido pela comunidade em que vivem, de vizinhos passarem ao largo deles, de serem reconhecidos como “COVID”. Por vezes, o preconceito vem dos próprios familiares: são vistos como fonte de contaminação, alguém que representa um risco. É um momento de muita solidão.

Para viabilizar o trabalho, tornamos os grupos abertos. O profissional vem a um encontro e, se houver desejo e possibilidade, volta no seguinte ou no outro. Além das questões que já apareciam, uma outra tem sido recorrente: até quando irá durar a pandemia? Depois de dois meses de trabalho intenso, da mudança radical desencadeada pela pandemia, da espera pelo pico da curva que agora é um platô:  “Será que vamos aguentar por muito tempo? Se houvesse um prazo, seria mais fácil aguentar”. Aguentamos juntos a angústia do não saber, da ausência de respostas, da espera.

O clima neste momento é de uma resignada aceitação, coexistindo com muita angústia. Mesmo sendo grupos de, a princípio, um único encontro, o retorno que temos tido das equipes é bastante positivo: nos dizem frequentemente que é bom terem um momento para si, para refletirem, conversarem, que se sentem mais leves para retomarem ao trabalho depois. O dispositivo grupal e a escuta psicanalítica são um recurso bastante fértil em um contexto institucional, principalmente em um momento de crise, como esse que estamos vivendo.

Reflito sobre o que Bion falou sobre pensar com clareza em momentos de guerra. 

Significa sobreviver? Ou significa não fugir? Talvez as duas coisas. Sinto uma certa tristeza ao terminar esse texto: a tristeza de perceber que não é um relato acabado, passado, fruto de uma elaboração minha: a pandemia ainda não acabou.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

Foto: André François/ImageMagica

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