Observatório operante – homenagem aos colegas e à Madeleine Baranger

Observatório Psicanalítico 13/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Observatório operante – homenagem aos colegas e à Madeleine Baranger

Denise Goldfajn

 

Venho acompanhando com interesse as postagens dos colegas nesse espaço. Mais precisamente, são as postagens dos colegas que vem me acompanhando ultimamente. Sonho com os ecos da infância, passeando pelo mesmo Jardim de Alá carioca, mais plural e tolerante, que foi citado por um colega. Pelas janelas do computador estou em POA e vejo uma criança ser arrancada de um prédio, suspiro em angústia. Me emociono com a emoção da colega de Minas que constrói refúgios para cuidar das cicatrizes dos deslocados. Outra colega nos mostra que empatia e vínculos mais amorosos são as armas disponíveis ao psicanalista para enfrentar a desigualdade social e o desamparo, que marcam presença em nossos consultórios. Dilmas e Miriams expõem trilhas semelhantes que antes foram compartilhadas e agora bifurcam e, diante de estados de mente totalitários, não encontram espaço para divergir, transformam-se em dicotomias. Outros colegas lembram “Porque a guerra?”, artigo de Freud onde ele sustenta a ideia de que Direito e violência caminham juntos e que a paz é uma utopia que depende mais de diálogo do que de justiça.

Dentro ou fora do consultório nossa atividade de psicanalista insiste em nos fazer pensar e reconhecer o transbordamento do traumático, que turva os limites entre nossos mundos internos e externos. Através das manifestações de colegas sobre o mundo e sobre a microscopia de nossos consultórios nesse espaço, entendo o “OP” como um observatório do que é operante em nosso campo emocional; letras, teclas e telas mesclam experiências psicanalíticas e pessoais compondo uma matriz intersticial onde compartilhamos resíduos relacionais vicariantes, tóxicos e profundamente entristecedores. Quantas gerações serão afetadas pelos descuidos que acontecem hoje? Aquecimento global, terrorismo, corrupção, exclusão social em processos que fertilizam a desconfiança e desautorizam qualquer forma de reconhecimento.

Somos atravessados por notícias que nos chegam com a força de balas perdidas. Uma notícia por e-mail, no entanto, chamou minha atenção recentemente: o falecimento de Madeleine Baranger. Licenciada em Letras Clássicas, psicanalista, imigrante, refugiada. Viveu guerras, radicalismos políticos e institucionais por parte de seus próprios pares, colegas psicanalistas. A notícia de sua morte me mostra a vitalidade da autora que conheço apenas através da leitura de artigos. Madeleine e seu marido Willy Baranger formularam a teoria do campo dinâmico em psicanálise, ampliando a compreensão dos processos transferenciais/contratransferênciais, que vistos a partir de suas ideias, tornam-se forças de um campo criativo. É no campo do encontro entre pessoas que as forças transferenciais se manifestam mutuamente entre psicanalista e paciente revelando as marcas ancestrais de histórias pessoais que revelam, em detritos, a experiência de muitos.

Os Baranger, como Ferenczi, Bion e Winnicott, falam do ambiente emergente, da urgência do meio, buscando entender a matriz ativa dos acontecimentos que nos cercam. Termos como “ponto de urgência, “ “fantasia nodal, “ “ambiguidade essencial, “ “baluartes” (arquitetura defensivas que impedem a expansão do campo) e “segundo olhar” foram conceitos técnicos, criados pelos Baranger, que nos ajudam a manejar o campo dinâmico. Qualquer associação entre os termos citados e os acontecimentos que nos rodeiam não é mera coincidência. Muito obrigado aos colegas que enriquecem meu campo de entendimento e atuação com seus escritos e à Madeleine Baranger pela riqueza do legado que nos deixou.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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