O que o retorno da “cura gay”e o fechamento de exposição dizem sobre nós?

Observatório Psicanalítico 22/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

O que o retorno da “cura gay”e o fechamento de exposição dizem sobre nós?

Juliana Lang Lima

 

Essa semana o Brasil recebeu mais um golpe em sua já tão diminuta autoestima. A notícia, com cara de fake news, até onde se sabe, é real: juiz autoriza psicólogos a tratar a homossexualidade como sendo uma doença. Na esteira dos acontecimentos da semana passada, com o fechamento da exposição Queermuseu, no Santander Cultural, em Porto Alegre, e encharcada de assombro, achei por bem chamar a psicanálise para dar algumas palavrinhas.

Eliane Brum, sempre perspicaz e muitíssimo mais capaz de se comunicar do que eu, escreveu essa semana sobre o ilusionismo que esse burburinho provoca: ao nos voltarmos para tópicos tão retrógrados como a suposta apologia à pedofilia e zoofilia promovida pela exposição, desviamos o olhar de questões tenebrosas que envolvem intolerância e desigualdade de toda ordem, além de violência contra mulheres, negros, homossexuais e transexuais. Ao referir a crise da palavra, que tem como expoente a literalidade da linguagem denotando todo seu empobrecimento, sai em defesa da metáfora e da ampliação da capacidade imaginativa.

Pois bem, me apoiando em Eliane, sugiro que falemos de fantasia. Já há muito tempo sabemos, através da arte, o valor da capacidade simbólica do humano. Disseram, inclusive, que a arte existe para que a realidade torne-se, ao menos, suportável – nem todos contam com a sorte de uma existência abundante de afeto e criatividade. A arte e a imaginação, portanto, são refúgios dos mais sofisticados que o homem foi capaz de criar diante das frustrações que a realidade inevitavelmente impõe.

Em 1905 Sigmund Freud escandalizou o mundo ao demonstrar que em nossa constituição psíquica possuímos todos algo chamado “disposição perverso-polimorfa”. Isso significa que, além de as crianças possuírem sexualidade, esta é fundamentalmente bissexual, anárquica, aberrante, dissociada. Somente após a passagem pelo Complexo de Édipo, a integração da libido e o período de latência, essa sexualidade ganhará contornos mais definidos – isto é, a partir da puberdade. Aqui talvez seja conveniente esclarecer aos não psicanalistas que é necessário diferenciar sexualidade, no sentido amplo da palavra, de genitalidade, que refere-se ao uso sexual dos genitais para obtenção de prazer ou procriação.

Retomando Freud, lembramos que ele nos fala sob o viés da pulsão, uma energia que não cansa de buscar satisfação, seja em forma de sintoma, de fantasia ou no corpo. Dessa forma, até mesmo os cuidados maternos para com o bebê são fonte de libido. Contudo, a cultura tem a função de inibir a descarga, o acesso à consciência e a total satisfação pulsional, pois seria impossível conviver com possibilidades como o incesto, por exemplo (só para citar algo que existe no mundo animal e que no bicho homem, em teoria, é interditado).
Esse impedimento deixa rastros no psiquismo e se constituirá como o mosaico da sexualidade futura. O processo, que nem de longe é simples como o descrevi, é conhecido como recalque, e os resquícios que deixa são os efeitos da disposição perverso polimorfa vivenciados por cada um de nós. Por isso a sexualidade ser algo tão único e singular: ela é efeito da história de cada sujeito.

Bem, mas e o que tudo isso tem a ver com exposição queer e “cura gay”? Inevitável pensar que manifestações tão truculentas e intolerantes como as que vivenciamos na atualidade têm sua base em um processo de recalque fragilmente estruturado. Dito de forma mais simples, a necessidade de normatizar a sexualidade está diretamente relacionada a uma demanda de contenção dos próprios desejos, aqui entendidos como desejos dos quais o indivíduo sequer tomou consciência. A velha fórmula popular de que o homofóbico, em verdade, sente-se atraído pelo homossexual não pareceria de todo errado, mas quiçá incompleta. Quando se trata a homossexualidade como doença (ou se brada pela volta da ditadura militar; ou se afirma que “no meu tempo que era bom”; ou se milita pelo cerceamento da liberdade do outro de ser quem ele é) arrisco dizer que estamos diante de alguém que, para além de fugir do desejo, teme o humano em qualquer de suas expressões.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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