Neoconservadorismo, um sintoma do mal-estar na civilização

Observatório Psicanalítico 33/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo 

 

Neoconservadorismo, um sintoma do mal-estar na civilização

Marion Minerbo e Luciana Botter

 

Acontecimentos recentes no Brasil e no mundo nos levam a pensar numa onda de conservadorismo. Liberdades e valores conquistados nas últimas décadas estão ameaçados. Museus e exposições de arte censuradas pelo público, sob alegação de incitar pedofilia ou simplesmente por exibirem nus artísticos que, de repente, se tornaram “obscenos”; a “cura gay” como retorno de uma postura homofóbica; políticos de direita e/ou conservadores em ascensão, em resposta à demanda popular; manifestações racistas no futebol, e por aí vai.

 

Desde Freud, o mal-estar na civilização produz fenômenos que podem ser interpretados como sintomas do sofrimento psíquico consubstancial àquela cultura. Em cada época e lugar, para que uma determinada cultura se estabeleça e se torne hegemônica, ela impõe renúncias específicas. São verdadeiras amputações psíquicas. A primeira, denunciada por Freud nesse texto, tinha a ver com a sexualidade. Mas o raciocínio vale para qualquer parte amputada, pois ela sempre faz falta e produz sofrimento psíquico – ou mal-estar, se preferirem. Em todas as épocas e lugares, a cultura oferece soluções sintomáticas que tentam minimizar o sofrimento que ela própria produz. São os fenômenos que podemos chamar de loucuras cotidianas [https://loucurascotidianas.wordpress.com/].

 

Que sofrimento psíquico poderia estar determinando essa onda conservadora? O que teria sido amputado?

 

Na modernidade havia um conjunto rígido de valores tidos como universais. Quem não se encaixasse no modelo prescrito e dominante, via-se, e era visto, como desviante. A família patriarcal, como único modelo legítimo e possível, é um exemplo da hegemonia de certos valores. Há 40 anos, quem imaginaria uma família homoparental? Em oposição a essa rigidez, vivemos num contexto sociocultural em que tais valores foram relativizados. Já não acreditamos em um modelo único, e por isso as pessoas têm mais liberdade para inventar novas formas de vida. Isso tem a vantagem de contemplar as várias formas de subjetividade. Por outro, é uma evidência da crise das instituições. É daí que surgem as desvantagens, relacionadas a uma das principais características dos nossos tempos: a “miséria simbólica”.

 

Mas, o que é a miséria simbólica?

 

Quando o conceito de “verdade universal” é relativizado, os ganhos são incontestáveis. Mas quando a própria noção de verdade passa a ser, ela mesma, entendida como ultrapassada, nociva, autoritária – aí sim, emerge o lado patogênico da crise das instituições. Jogou-se fora o bebê junto com a água do banho. É aí que começamos a “passar fome”. A passagem de um saudável relativismo, para um relativismo absoluto, deixa os sujeitos sem referências com as quais construir suas identidades. Sem chão, o Eu se fragiliza e passa a sofrer de uma “anemia psíquica”. Submerge na angústia porque não há mais verdades minimamente estabelecidas nas quais pautar o Ideal do Eu.

 

O relativismo absoluto produz o que chamamos de miséria simbólica: uma impossibilidade de afirmar qualquer valor como válido. O conceito bizarro de pós-verdade decorre disso. As instituições protegem nossa vida psíquica; quando estão em crise profunda, ficamos órfãos das narrativas que elas criam e sustentam. É fundamental acreditar em alguma coisa que possa dar sentido às nossas vidas, para não cair no vazio existencial.

 

É aí que entra a onda conservadora. Podemos interpretá-la como solução sintomática frente à angústia produzida pela miséria simbólica. Após a desconstrução radical operada pelo relativismo absoluto, o conservadorismo emerge como uma tentativa de reconstruir algo mais sólido. Mas como está ligado à miséria simbólica, acaba defendendo valores rasos, concretos, colados na materialidade e na sensorialidade. Na ausência do símbolo, a diferença entre o homem nu no museu, e o homem nu na rua, se perde. O nu já não pode ser compreendido como símbolo – como aconteceu ao longo de séculos. Ele será interpretado em sua concretude e materialidade: é uma pessoa pelada, algo moralmente condenável.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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