“Não desejo suscitar convicções – desejo estimular o pensamento e derrubar preconceitos”

Observatório Psicanalítico 40/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo 

 

“Não desejo suscitar convicções – desejo estimular o pensamento e derrubar preconceitos”

Ignácio Paim Filho (SBPdePA)

 

Foi com essa frase que Freud reiniciou seu ciclo de Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise, na faculdade de medicina da Universidade de Viena, em 1917. Nessa ocasião seu público era composto essencialmente por médicos e estudantes de medicina, descrentes das proposições da jovem ciência. Seu objetivo era sensibilizar sua audiência com o pensar psicanalítico – derrubar preconceitos – e fazer refletir sobre a subjetividade que constitui o humano, território do inconsciente, com seu pulsional em sua errância, decorrente do polimorfismo perverso da sexualidade infantil: estimular pensamentos. Tudo isso permeado pelo princípio ético de não suscitar convicções calcadas em imperativos categóricos, mas sim em um pensar que contemple que não é pecado mancar (Freud, 1895).

 

Estamos a 100 anos desse acontecimento, o mundo sofreu uma série de transformações, vivemos em um tempo onde podemos advogar que houve um incremento do pensamento científico. Esse só é compatível, de uma forma extensa, em um contexto no qual vigora a presença da alteridade. Pensar que implica, em sua essência, uma capacidade de interrogar-se e inquietar-se com o desconhecido: estímulo para curiosidade investigativa, terreno fértil para produzir interações entre o universal da ordem social e o singular do sujeito. Mola propulsora para a busca do conhecer. Conhecer que remete ampliar o universo, por demais circunscritos, do pensar animista e religioso – presença do idêntico. Esses que trazem consigo a força obliterante de verdades estabelecidas por demandas narcísicas niilistas: para quem não sabe amar, fica esperando alguém que caiba no seu sonho (Cazuza).

 

Entretanto nos deparamos em nosso cotidiano com um fenômeno Estranho (Freud, 1919), em que o dito pensar científico vem perdendo seu status de gerar indagações e respostas transitórias, para produzir perguntas que incitam a respostas absolutas. Eis aí um desconhecido que evoca um velho conhecido. Tempo de ressuscitar o pensamento animista e religioso? Tempo de suscitar convicções fundamentalistas? Creio que sim. Os preconceitos, transvestidos de princípios morais protetores – com sua destrutividade – que habitam as profundezas do ser, retornam e proliferam de forma assustadora, em uma ordem cultural que se pretende altamente civilizada: Descobrimos, para nosso espanto, que o progresso aliou-se à barbárie (Freud, Viena, 1938). Descoberta realmente espantosa e por demais inquietante. Contudo, este século, do qual somos herdeiros, tem como uma de suas características centrais o franco acesso às mais variadas formas de comunicação.

 

O falar, escrever, publicar … estão na ordem do dia, dos mais diferentes segmentos sociais. Provavelmente este cenário é fonte de problemas e soluções. Problemas enquanto espaço de possíveis catarses coletivas, que tragam consigo a meta de fomentar ataques a todo aquele que é portador de uma dessemelhança, que remete à dor de uma semelhança não reconhecida, o estrangeiro em mim: a letalidade do narcisismo das pequenas diferenças (Freud, 1930). Quanto à solução, ela advém, por exemplo, na medida em que se pode ter acesso à palavra do outro – convergindo e/ou divergindo – gerando indagações diante de tantas certezas de cunho dogmático. Processo, que quero crer, possa ser uma nascente, que permita brotar a reinvenção do tempo primeiro de uma comunicação ética: o pensamento construído em consonância com a escuta das diferenças e sem indiferença.

 

O pensar reflexivo – aquele que suporta mancar – marca fundante do pensar científico, está em franco declínio. Nesse sentido, a convocação freudiana se reatualiza, é necessário seguirmos trabalhando, mais do que nunca, para estimular o pensamento, derrubar preconceitos e não suscitar convicções fundamentalistas com seu totalitarismo: posso exalar um suspiro de alívio agora que o peso foi tirado de mim e mais uma vez posso falar e escrever – quase disse ‘e pensar’ – como quero ou como devo (Freud, Londres, 1938).

 

Finalizando, recomendo as palavras de Chauí (2005): somos eticamente livres e responsáveis não porque possamos fazer tudo quanto queiramos […] mas porque aprendemos a discriminar as fronteiras entre o permitido e o proibido.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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