Mulher negra existe! *

Observatório psicanalítico 46/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Mulher negra existe! *

Wania Cidade (SBPRJ)

 

Às vezes, eu só queria
poder sair e
minha avó não ter
medo de eu não
voltar

Eu só queria ter
um pouco de
esperança de que as
coisas vão mudar

Eu só queria não
lembrar que se eu
pegar uma pistola
ou um diploma
ainda assim vão
querer me matar

Eu só queria
acreditar que um
dia vão parar de
nos matar

Mas o relógio não
para e a cada 23
minutos um negro
morre em algum
lugar do Brasil

(Rafael Oliveira, 19 anos).

Em um seminário sobre a “História da Psicanálise”, daqueles que nos estimulam e levam longe, na investida de articular as ideias, juntá-las com os conhecimentos que já fazem parte da carne. O barulho incessante do telefone tremendo em minha bolsa. Quem poderia estar querendo falar comigo àquela hora? Eram 22:05; não hesito e deixo o aparelho sofrendo por sua própria conta. Chegavam-me, quase que simultaneamente, mensagens de dois grupos distintos, ambos de mulheres que lutam e militam por um lugar de fala, como diria Djamila Ribeiro, por um mundo onde não se hierarquize direitos, abusos, arbitrariedades e sofrimento. Às 22:35 não resisto mais e leio uma das mensagens: Mataram Marielle! Gente, que horror, não estou acreditando, que sinistro! Começo a tremer, como antes fizera o celular. No outro grupo, leio: Um tiro em nosso peito, oh pedaço de mim, mataram uma de nós, Marielle está morta…

Senti vontade de chorar, gritar, de pedir para pararem com tudo, UMA DE NÓS ESTÁ MORTA! Eu não compreendia. Assassinada? Mas ela era uma de nós, humana, humanista. No entanto, ver é diferente de olhar, de reconhecer a alteridade, de ter a capacidade de simbolizar e a representação do que seja um semelhante introjetada.

Terminado o seminário, quero contar para todo o mundo em busca de um sentido – não há. Deu-se um excesso daqueles que explodem nossa capacidade de localizar corpórea ou psiquicamente aquilo que nos atingiu.

Já em casa leio a poesia do meu sobrinho, Rafael, que certamente tentava esboçar um sentido para nossa dor, para o pranto que em uníssonos sentíamos em nossas almas, tentava transformar o indizível em palavras. Cruel, perverso, mas um sentido: a inexistência no campo representacional de grande parte da população brasileira do que seja o racismo, do seja ser mulher, negra, e ainda, favelada. Marielle era uma desta espécie, para muitos não existia e não era reconhecida como sujeito de direitos. Contudo, foi eleita vereadora por 46 mil eleitores que acreditam que vidas negras importam e por dar voz a uma parcela significativa de nossa sociedade doente, cindida, desigual. Como disse a estudante de Filosofia da UnB, Ana Luiza Guimarães: o sangue de Marielle Franco e Anderson Gomes está na mão deste Estado genocida que mata preto todo dia, que trata nossos corpos como se fossem descartáveis.

Meia lágrima

Não,
a água não me escorre
entre os dedos,
tenho as mãos em concha
e no côncavo de minhas palmas
meia gota me basta.
Das lágrimas em meus olhos secos,
basta o meio tom do soluço
para dizer o pranto inteiro,
Sei ainda ver com um só olho,
enquanto o outro,
o cisco cerceia
e da visão que me resta
vazo o invisível
e vejo as inesquecíveis sombras
dos que já se foram.
Da língua cortada,
digo tudo,
amasso o silencio
e no farfalhar do meio som
solto o grito do grito do grito
e encontro a fala anterior,
aquela que emudecida,
conservou a voz e os sentidos
nos labirintos da lembrança. (Conceição Evaristo).

Marielle e todas as Mulheres Guerreiras assassinadas em sua luta: PRESENTES, sempre! Elas existirão em mim e em todas e todos aqueles que as reconhecem como Outro, semelhante, e que acreditam que mais tarde o alvo poderá ser o seu corpo.

*Palavras de ordem gritadas no velório, sem os corpos presentes, de Marielle Franco e Anderson Gomes. Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores.)

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