IPA na comunidade

Observatório Psicanalítico 43/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo 

 

IPA na comunidade

Sérgio Lewkowicz (SPPA)

 

 

Em primeiro lugar eu gostaria de agradecer a Virginia Ungar e Sergio Nick pelo convite para introduzir o complexo tema da IPA na Comunidade nessa discussão aberta do Board da IPA aqui em nossa reunião na Costa Rica. Como sabemos, as últimas administrações da IPA têm incluído programas e comitês que se relacionam com outreach, com a divulgação da psicanálise, como também se nota em muitas Sociedades das três regiões. No entanto, agrupar esses programas e comitês e acrescentar novos em um setor específico da gestão revela um desenvolvimento original da atual administração. Penso que essa nova área vai ser decisiva para a revitalização de nossa instituição.

 

De fato, não é surpresa para mim que essa iniciativa parta de uma Diretoria Latino-americana na IPA. No livro que Silvia Flechner e eu editamos sobre “Contribuições Latino-americanas para a psicanálise” em 2005 encontramos que muitos analistas de nossa região estão preocupados com nossa realidade social, possivelmente devido a nossas histórias de ditaduras, violência e desigualdade social. Essas questões levaram a inúmeros estudos sobre esses temas, como por exemplo, o de “luto sem corpo”, no caso dos “desaparecidos”.

 

Em seu discurso para as Nações Unidas em 2006, na comemoração dos 150 anos de nascimento de Freud, Cláudio Eizirik, então presidente da IPA, descreveu como a psicanálise poderia contribuir de duas maneiras para buscar uma prevenção da transmissão intergeracional da guerra, do ódio e da violência. Uma delas seria através do tratamento psicanalítico de pacientes, levando a transformações psíquicas que beneficiariam os indivíduos, suas famílias e suas comunidades. Por outro lado, através de atividades conjuntas com outras organizações, como a própria UN, por exemplo, se poderia contribuir com uma perspectiva psicanalítica na construção de uma maior tolerância com as diferenças, sejam sociais, raciais ou sexuais. Penso que essa é a ideia que Virginia e Nick estão desenvolvendo criando essa quarta área na estrutura da IPA. Como salientaram eles em sua plataforma: “We need to get out of our consulting rooms and our institutions and devote time to working in the community, especially in those spaces where young professionals are facing complex realities such as substance abuse, domestic violence, sexual abuse, migration, and eating disorders. I am referring to hospital departments (such as psychopathology, psychiatry, and pediatrics), community health centers, schools, universities, and more.”

 

Para isso é necessário que nossos institutos de psicanálise ofereçam, além de uma formação de alta qualidade, uma preparação para essas atividades comunitárias, como dizem Virginia e Sergio: “We need to offer a first-rate analytic training that will allow future analysts to internalize the analytic attitude so that they “will be able to do ‘as much psychoanalysis as possible’ both in [their] consulting room and in very different settings.”

 

Outro exemplo que gostaria de trazer é o Observatório Psicanalítico criado pela FEBRAPSI em 2017: um espaço virtual criado pela Diretoria de Comunidade e Cultura para discussão de temas sociais e políticos da sociedade brasileira, além de tópicos internacionais relevantes e que foi ganhando cada vez mais participantes ao longo do ano. Creio que esse tipo de espaço tem oportunizado uma discussão franca onde diferentes pontos de vista podem ser abordados. Além disso, as discussões têm dado consistência para que as instituições psicanalíticas se pronunciem com uma perspectiva psicanalítica sobre temas fundamentais da comunidade como a “cura gay”, a censura de exposições de arte, o retrocesso da política de saúde mental e outros temas significativos.

 

Finalmente queria também enfatizar as transformações que ocorrem com os próprios analistas que se envolvem com essas atividades. Há um enorme aprendizado e enriquecimento profissional e pessoal. Um analista que começa uma atividade desse tipo não vai ser o mesmo ao concluí-la.

 

Parece-me que é através da IPA na Comunidade que pode se construir uma passagem entre as instituições psicanalíticas e a comunidade, entre os analistas e os demais, abrindo um espaço pelo qual pode passar a troca de experiências e de conhecimento que, em minha opinião, vai ser decisiva para a sobrevivência da IPA e da própria psicanálise.

 

Sérgio Lewkowicz é um dos representantes da América Latina no Board da IPA – International Psychoanalytical Association.

 

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

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