02.06.20 Editorial OP – maio/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Editorial OP – maio/2020

A percepção sobre a passagem do tempo nesta pandemia vem sendo problematizada em diversos espaços e imaginamos que possa ser útil organizar, a partir de nossa conversa neste OP, uma mini-retrospectiva, que funcione como marco temporal do último mês. É uma forma também de releitura sobre o debate ocorrido, que pode ajudar na proposição de novas questões.

Maio foi um mês intenso, tanto do ponto de vista do avanço do Corona Vírus e dos lutos que ele trouxe como também do ponto de vista da política nacional. O Observatório Psicanalitico FEBRAPSI publicou nove textos, um recorde mensal.

Contou com dois belos textos de despedida, ambos de Daniel Senos (SBPRJ), um autor sensível do Rio de Janeiro, que fala com amor e propriedade de habitantes ilustres de sua cidade. Rubem Fonseca, vítima de um ataque cardíaco, foi homenageado em “As Vísceras de Rubem Fonseca” em 01/05. Daniel nos conta como ele é “um dos autores contemporâneos que se aproximaram em descrever fantasias tão fundamentais do ser humano” e o aproxima da teoria psicanalítica nesse esforço de “narrar experiências primitivas que permeiam a existência humana e que insistem em se manifestar”. O texto foi bastante comentado, e a conexão dos personagens de Fonseca com o que vemos hoje na política foi pontuada, como quando Ney Marinho (SBPRJ) afirmou: “Contudo, é bom lembrar a famosa frase do grande psiquiatra Ernst Kretschmer, com a experiência de quem viveu o nazismo, sobre os psicopatas: ‘ … em tempos normais nós os examinamos; em tempos extraordinários … eles nos governam'”.

Aldir Blanc, vítima de covid-19, foi lembrado em “O inconsciente e o Rio Maracanã”, publicado em 06/05. Não havíamos presenciado ainda o patético papel desempenhado pela então Secretária de Cultura Regina Duarte na escolha de não homenagea-lo, apesar de sua importância para a cultura nacional. Diz um trechinho do texto: “Acredito que o poeta e o psicanalista estão em confluência, pois ambos lidam com essas emoções brutas que extrapolam os diques da vida emocional. Enquanto o poeta canta as incertezas da vida, o psicanalista empresta a sua capacidade de pensar. Às vezes a tarde pode cair feito um viaduto. Cabe ao psicanalista acolher os escombros, enquanto o poeta canta as dores do mundo e nos enche de esperança. O show tem que continuar.”

O início de maio anunciava a precariedade das medidas governamentais para o controle da pandemia no Brasil. O Ministro recém empossado já apresentava dificuldades técnicas e políticas. Em “A luta contra a pandemia tem rosto de mulher”, publicado em 09/05, Gabriela Seben, Juliana Lang Lima e Rafaela Degani (as 3 da SBPdePA) trouxeram um dado, que chama a atenção: os países liderados por mulheres tiveram maior sucesso que outros na contenção do vírus. E arriscam interpretações. Ao mesmo tempo, pontuam o quanto as mulheres também são mais vulneráveis à pandemia e ao machismo na política, em especial no Brasil. Manola Vidal (SPRJ), em comentário, faz a ponte com a misoginia presente no atual governo brasileiro.

Três textos trataram diretamente da indignação que sentimos frente à crise institucional vivida no Brasil nesse momento, opondo-se mais abertamente ao governo e ao modo como ele vem se posicionando nos últimos meses. São eles: “Tempos difíceis”, de Julio Gheller (SBPSP), publicado em 03/05, que brinca com o que chama de “combo psicopatológico” do Presidente e recupera o modo como Bolsonaro construiu apoio na elite brasileira, afirmando que de algum modo é assim que ele também constrói um lugar autoritário; “Cala a boca não morreu, mas #eu não me calo”, de Claudia Carneiro (SPBsB), publicado em 12/05, no qual a autora discute o cerceamento à imprensa frente à disseminação de fake news, ainda sem saber como seria a repercussão da operação da Polícia Federal frente aos produtores de notícias falsas do ‘gabinete do ódio’; e “Outra vez, ‘o ovo da serpente’, de Claudio Eizerick (SPPA), publicado no último dia maio, que comenta, justamente, a apropriação da “noite dos cristais” e seu uso pelo Ministro da Educação, Abraham Weintraub, entre outros usos deturpados feitos pelo governo do que foi o nazi-fascismo, com o qual ele flerta. Diz Eizerick: “Estamos vivendo uma dupla e terrível ameaça. Por um lado, o horror do Covid-19, e a desmobilização pelo governo do ministério que o enfrentava com bravura, e os ataques aos governadores e prefeitos que lutam com os recursos de que dispõem. Por outro, o vírus do fascismo, que despudoradamente mostra mais, a cada dia, sua face sinistra e ameaçadora à democracia”. Não por caso, e com a ajuda destes textos, o espaço desse Observatório acabou sendo de articulação para lançamento de manifestos da FEBRAPSI e de várias de suas sociedades, bem como da ABC, de várias entidades de filiados e, também, da FEPAL em solidariedade “com todos os países da América Latina no tocante à preservação dos Direitos Humanos, dos valores éticos, da defesa da democracia no nosso continente e do avanço do processo civilizatório”.

Por fim, se a alusão à novilíngua de Orwell vem parecendo cada vez mais óbvia, cabe lembrar que os personagens de 1984 tinham seus momentos furtivos para encontros amorosos ou para tomar café de verdade. E, assim, dois textos do OP de maio, sem deixar de discutir a realidade, nos lembram de como manter vivas a capacidade de pensar, conversar e sonhar em tempos de pandemia: “Em nome dos pais, das filhas e dos espíritos sãos (Velhice, abandono e esperança)”, publicado em 28/05, traz a conversa entre Camila Bustamante Pires Leal e seu pai, Carlos Pires Leal, (ambos da SBPRJ), mostrando como pais e filhos juntos podem seguir construindo formas de ler e compreender o que estamos vivendo. E “Lavando Pratos”, de Ney Marinho (SBPRJ), nos conduz de volta a essa experiência de liberdade quase inalienável que é o pensar sem direção, a livre associação. 

Que venha junho, que nossa conversa siga e que possamos continuar trabalhando.

Curadoria OP 

Beth Mori (SPBsb)

Daniela Boianovsky (SPBsb)

Ludmila Frateschi (SBPSP)

Marina Bilenky (SBPSP)