02.09.20 Editorial OP – agosto/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo 

 

Editorial OP – agosto/2020

A pandemia mundial causada pelo novo Corona vírus, o SARS-CoV-2, que nos abate desde o último dia do mês de dezembro de 2019, atinge este mês de agosto – considerado pelo senso comum um mês de ‘desgosto’ – a marca de mais de 25 milhões de pessoas infectadas, e já causou a morte de 850 mil. Neste contexto, o Brasil, com uma história de enorme desigualdade social, é hoje o segundo país em contaminação, e totaliza, até o momento, mais de 120 mil mortos.

 

Seguimos, em nossas cidades, fragmentados socialmente. Assistimos à predominância de valores conservadores e ataques de ódio ao diferente. Cresce o racismo, a homofobia, a misoginia, a violência contra as mulheres, crianças e jovens negros da periferia brasileira. Vivemos também a recusa do pensamento cientifico, a repressão à liberdade de expressão nas universidades, o “cala boca” à imprensa. Para muitos de nós, são ataques sentidos como algo da ordem da “catástrofe”, do traumático, algo excessivo que faz irromper o sofrimento subjetivo e coletivo. Episódios de violência ocorrem indefinidamente, e, mediados massivamente, muitas vezes de forma teatralizada, pela mídia e redes sociais, nos tiram o fôlego e a possibilidade de elaboração desses traumas, impedem-nos na construção de novos rumos. É neste cenário que surge a atual pandemia. É esta sociedade, já profundamente ferida, que irá sentir seus efeitos devastadores. 

 

Na nossa clínica psicanalítica, percebemos o aumento de queixas e sintomas relacionados a esses acontecimentos. Escutamos a angústia de pessoas tomadas por este desamparo social, pela literalidade deste excesso de ataques sofridos (em si e no outro). Os ensaios publicados no Observatório Psicanalítico FEBRAPSI deste mês apontam para essa dor, para uma certa “melancolia” vivida também por nós, psicanalistas. E nossa escrita como uma possibilidade  de elaboração de “objetos perdidos”, nesse nosso “espaço de testemunho”.

 

Assim, “quanto mais o tempo passa, mais distante ficamos de um mundo que se foi”, nos diz Ricardo Trapé Trinca (SBPSP) no seu ensaio “A PANDEMIA E A PERDA DOS ESPAÇOS: o público e o íntimo”.  Maria Fernanda Soares (SPMS), em “AS NOSSAS GUERRAS DE CADA DIA”, concorda: “O Corona vírus invadiu ruidosamente nossas vidas, com sua invisibilidade enigmática e dramática. É um desconhecido, contra o qual nos sentimos muito impotentes, ameaçados pelo terror e dor que vai causando por onde passa, inflexível, traiçoeiro em sua ação destrutiva, alastrando-se exponencialmente ao menor descuido. Nossos traumas coletivos estão sendo expostos e necessitam ser pensados. (…) Como cidadã, sinto-me impotente”. Claudio Eizirik (SPPA) comenta que a nossa colega “descreve muito bem as ansiedades pelas quais temos passado nesta situação traumática por território não mapeado e de futuro incerto, lidando com o vírus e a insensatez criminosa do governo”. 

 

Bernard Miodownik (SBPRJ) nos escreve “SEM CEM MIL BRASILEIROS” no dia em que atingimos a marca dos cem mil mortos, e nos pergunta: “O que dizer, mais do que já foi dito, da incompetência, da inépcia, da incúria, da ignorância, da ignomínia, da imoralidade, da indecência, da indignidade, da insensatez, da insensibilidade, da indiferença que construíram essa tragédia?” E, prontamente, Rossana Nicoliello (SBPMG) responde: “o que mais mata nesse País é a desigualdade social. Da fatalidade passou ao crime. Isso ficará para sempre em nossas memórias.” Julio Gheller (SBPSP) comenta sobre o desânimo que acomete muitos de nós, dizendo-nos que “… nossa classe política parece não se empenhar por uma mudança. O ‘jeitinho brasileiro’ permite que tudo vá se acomodando. … E a população tende a se anestesiar, acostumando-se a uma curva que se achata no alto. (…) Aos poucos, vai se naturalizando a ‘verdade’ proferida por nosso ‘çábio-mor’, que ensina que ‘é assim mesmo; o destino de todos é morrer’”.

 

Roosevelt Cassorla (SBPSP e SBPCampinas) pensa que “a naturalização das mortes por Covid (assim como do racismo, do preconceito, da desumanização etc.)” vem sendo analisada no OP. Para ele, “assim como ocorreu com Hitler, Mussolini, Stalin e tantos outros, a popularidade cresce em proporção direta com a desumanização.  Hipnotizam-se as massas através da projeção em supostos inimigos. As massas se deslumbram com a Verdade dos fanáticos. Sua vitória é tornar-nos impotentes, indignados, raivosos, gastando nossa energia com disputas em que seremos sempre, compulsivamente, derrotados… Para sairmos desse novo “normal” (e da dinastia totalitária que se vislumbra) temos que aceitar a derrota. Temos que chorar de tristeza (não só de raiva), compartilhar os lutos e, juntos, pensarmos sobre nossa responsabilidade para que retomemos nossa energia criativa”.

 

Katia Wagner Radke (SPPA) em “UM TEMPO DE DOR E DE TERROR” se pergunta “o porquê de tantas referências a este momento tão difícil e dramático como o ‘novo normal’”. Para Rossana Nicoliello (SBPMG), “não há nada de normal em estarmos com escolas e comércio fechados, sem festas, sem abraços. O isolamento social está na contramão de nosso instinto gregário”. Para ela, “o Novo Normal é um lugar que não existe, pois é uma criação de uma realidade estranha, essa que denuncia a negação e os ares hipomaníacos dessa expressão. Morrer em massa passou a fazer parte do Novo Normal. Saber que morrem hoje, em grande escala, aqueles atingidos pela desigualdade social, passou a ser apenas uma lamentável realidade. Sendo assim, o Novo Normal trouxe parâmetros que chocam com a realidade, mas principalmente com aquilo que deveria ser visto como abominável”. E Rossana conclui: “Estou como você, Katia. Estou como Clarice Lispector. Estou de luto.” 

 

Também de luto, Gley Costa (SBPdePA), em “UM AMIGO INESQUECÍVEL”, lembra-nos, com tristeza, que no primeiro dia deste mês de agosto, por conta da Covid-19, faleceu nosso querido colega José Luiz Petrucci, após três sofridas semanas numa UTI. Sergio Nick (SBPRJ), também lamentando a perda do amigo, comenta que “com a pandemia paralela a do novo Corona vírus já em marcha (a de saúde mental), temos um grande compromisso com a Psicanálise e com esta população. Se o OP é o nosso lugar de encontro, de reflexão, e de suporte mútuo, sabemos/aprendemos da importância de prover isso mais além de nossas fronteiras.”

 

No meio desse horror em que vivemos, mais um terrível acontecimento nos atravessa. Maria Elisabeth Cimenti (SPPA), em “A CRIANÇA CONVOCA A PSICANÁLISE”, pensa o caso da menina de dez anos que foi estuprada pelo tio desde os 6 anos de idade e, grávida, não encontrou apoio da Secretaria de Saúde do seu estado (ES) para realizar um aborto que é garantido por lei há mais de 80 anos: “Durante quatro anos essa criança foi vítima de abusos repetidos, obrigada a ser objeto de satisfação dos desejos de um adulto abusador”. Refere-se ao “machismo estrutural” que induz à repetição de acontecimentos trágicos, reforçando essa permissividade alienada que segue constrangendo nossa cultura e atinge tão brutalmente as mulheres e as meninas. Roberto Jabur (SPBsB) congratula a ensaísta pela importância de suas reflexões e nos lembra que “o fundamentalismo forma parte importante da ignorância das veias abertas do sofrido Brasil”, acrescentando fatos a esta tragédia: “O Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos em conjunto com Secretarias de Saúde mostra que em 2018, 21.172 bebês nasceram de mães entre 10 e 14 anos de idade. De 2009 a 2018 foram registrados em média por ano 26000 mães com idade entre 10 e 14 anos. Grande parte deste grupo se torna mães por serem vítimas de estupros.” 

 

Miguel Calmon (SBPRJ) fala de “mais um escândalo a ser digerido”, e lança-nos a pergunta: “Quanto mais suportaremos?” Percebe que à sua volta, muitos de seus conhecidos, assim como ele, desistiram de ler os jornais: “não porque nos falte a necessária curiosidade para saber do mundo e de nós mesmos. Mas, por cansaço. Mais um escândalo que não resultará (como na maior parte das vezes) em nem mesmo em um protesto. Sei que somos as vozes deste protesto, sei que temos o dever cívico de protestar”, mas, continua, “está cansado, ou melhor, cansando”, e relembra a importância desse espaço de testemunho que criamos no Observatório Psicanalítico: “uma ajuda que tem me sido necessária. As vozes de vocês me trazem de volta para dentro da roda, nela, na roda, consigo encontrar ressonância (e logo dialogar, ufa, como isso tem sido urgente, encontrar alguém  com quem dialogar!!!!!) para o imenso sofrimento que experimento quando leio notícias como desta criança”. E se pergunta: “que outro ofício se questiona e se pergunta sobre seu lugar com a frequência e intensidade com que nós, os psicanalistas, o fazemos? Serão “ossos do ofício”? Ou algo de nossa identidade que se perde com alguma facilidade e assim nos obriga a refazermos constantemente o caminho?” 

 

Daniela Paione Mota (SBPMG), em “A FOME TEM COR”, reafirma que a pandemia aprofundou o abismo de nossas desigualdades, e lança importante questão: “quem passa fome no Brasil hoje?”. Segundo ela, ainda, “pesquisas apontam que a mortalidade por Covid-19 é muito mais alta na parcela negra da população”. E nos traz o desabafo do motoboy Paulo Lima, o “Galo”, como é conhecido este líder do Movimento dos Entregadores, que luta por melhores condições de trabalho para a classe, em um vídeo que viralizou na internet, revelando o que os entregadores chegam a passar: ‘sabe o quanto é tortura, um motoboy com fome ter que carregar comida nas costas?’. 

 

Como Eliane Nogueira (SBPdePA), “nos sentimos mais vivas com o texto corajoso” de Gustavo Gil Alarcão (SBPSP). Em seu ensaio o “LUGAR DE FALA”, o autor traz o desconforto de nossa branquitude, pois cada vez mais precisamos ter mais “cuidado e responsabilidade” ao fazermos ou dizermos algo, pois “é fácil escorregar quando falamos de questões tão arraigadas e estruturais como o racismo.” E “é assim que nós brancos tropeçamos… ops … no racismo e não nos desculpamos.”, comenta Eloá Bittencourt (SBPRJ). Wania Cidade, referenciando-se em Muniz Sodré, afirma que “o lugar de fala não pode ser visto como um objeto de direitos, mas como uma articulação lógica da língua, um lugar móvel, que tem a mobilidade que define a autoria, por exemplo, de um escritor que se desloca para produzir a fala de personagens reais e imaginários. Cada um de nós é falante e, potencialmente, autor, nós mudamos de lugar no discurso, na língua. Nós vemos uma coisa como ela é, ou como elas são, quando nós partilhamos o lugar de onde vemos, e de onde falamos, com o lugar do outro. Assim, fala-se em lugar de fala dentro da luta política, buscando-se dar voz a grupos que foram secularmente calados, mas isso não é prerrogativa de um sujeito em particular”. 

 

No último ensaio deste mês, “Uma Ideia sobre a Dinâmica da Manutenção do poder da Elite Brasileira”, Sylvain Levy (SPBsB) discute os impacto das desigualdades “que sempre existiram, mas trazidas agora à discussão pela pandemia. (…) O pesadelo vivido pode levar, inclusive, a uma defesa esquizofrênica: uma morte ou cem mortes é/são uma tragédia, mas mais de 118 mil é apenas estatística. Vivemos essas realidades (e maldades) há séculos. Transformá-las é possível. Transformá-las rapidamente só por meio de uma revolução, algo não visível no horizonte. Mas como disse a poetisa A.P Arent, é possível vencer o pesadelo pelo sonho.” 

 

Finalizamos este editorial concordando com você, Cintia Albuquerque (SPBsB), a partir de sua leitura do ensaio de Maria Fernanda., ao nos dizer: “sinto que a Psicanálise é a minha melhor aliada, é com ela introjetada em mim que conto para viver cada dia com energia, entusiasmo, reconhecimento de limites e ameaças; é ela que me ajuda nas vivências de potência e impotência. Me pego dizendo a mim mesma, às minhas filhas e aos meus pacientes, com certa frequência, que agora, mais do que nunca, precisamos convocar nossos melhores recursos. Não há tempo a perder. É preciso ser mais forte”. 

 

E nos juntando a Maria Noel (SBPRJ): “somos humanos. E não estamos sós”.

 

Equipe de Curadoria

Beth Mori, Daniela Boianovsky, Ludmila Frateshi e Marina Bilenky

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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Os ensaios do OP são postados no site da Febrapsi. Clique no link abaixo:

https://www.febrapsi.org/observatorio-psicanalitico/

 

Curadoria OP

Beth Mori (SPBsB)

Daniela Boianovsky (SPBsB)

Ludmila Frateschi (SBPSP)

Marina Bilenky (SBPSP)