Centenário de Clarice Lispector

Observatório Psicanalítico – OP 213/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

 

Centenário de Clarice Lispector 

Fernanda Speggiorin P. Alarcão (SBPSP)

 

Ela nasceu Chaya Lispector, foi renomeada Clarice, e faria 100 anos no dia 10 de dezembro. Mas Clarice jamais começaria um escrito assim, agarrada no raso dos fatos. Clarice era das funduras.

 

“Fatos e pormenores me aborrecem”, disse a escritora em uma entrevista. Nessa conversa, a jornalista lançou a seguinte isca: – “Dizem que a senhora é evasiva, difícil, que não gosta de conversar. Não é o que me parece”. Clarice, com mais tendências para sereia do que para peixe, respondeu: “Obviamente eles estão certos”.

 

O certo é que ela não foi iniciada no mundo do bate papo.  No livro Clarice, Benjamin Moser lembra que a visão mais presente da menina era a mãe paralisada numa cadeira de balanço, incapaz de falar, dependente do marido e dos três irmãos mais velhos.  A fantasia de Clarice era que seu nascimento havia provocado a paralisia da mãe, pois jamais a conhecera de outra forma. A mãe definhava, imóvel, de forma lenta e dolorosa, em função de uma sífilis. Já estava muito doente quando a caçula nasceu, e desde então o que fez foi adoecer. Era um Davi em sua sala de estar, uma presença, com boca e braços que não a alcançavam.  Um abajur que não apagava, não inspirava um sono tranquilo.

Intranquila era a vida da família no seu começo. O irmão mais velho trazia dinheiro para casa com o trabalho, as duas irmãs se revezavam, com higiene, alimentação, e todos os cuidados. Clarice era pequena demais para dar uma ajuda concreta, quando passou a oferecer à mãe histórias com desfechos mágicos.  Tentava fazer rir e reviver aquela estátua condenada.  Desejava encantar a mãe e acordá-la do seu silêncio de mármore, num tempo em que o relógio na parede não dava corda. Assim nasceu a escritora, rearranjando as coisas do seu mundo, brincando com a realidade.

 

Em outro episódio do livro, Moser conta do mal-estar da autora com os para sempre, ao ser apresentada ao chiclete. Tania, sua irmã mais velha, anuncia a novidade no Recife: “Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira”. Em seguida, saem andando juntas a caminho da escola e Clarice deixa cair de propósito o chiclete na areia. Simulou decepção à irmã e seguiu sua caminhada “aliviada, sem o peso da eternidade”.

 

A bala eterna caiu na areia, mas colou em sua mente para sempre.  Quem sabe esta imagem foi a matéria prima de Ana, personagem do Livro Laços de Família. A mulher que não parava, que se angustiava em estados relaxados e quietos, e se despedaçou ao vislumbrar a vida automática, ao avistar o cego que mascava chiclete no ponto de ônibus. “Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mastigava goma na escuridão”.

 

Os escuros, as ausências e a eternidade em Clarice foram um trampolim para seus submersos, fazendo caminho para as palavras. E até hoje suas palavras conversam diretamente com os nossos submersos.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

 

Foto: montagem de O Globo sobre fotos de divulgação

 

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