16.04 Campo Grande faz evento preparatório para o Congresso Brasileiro de Psicanálise: Estranhamente – “Achadouros” Psicanalíticos.

XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise – 2019
O Estranho – Inconfidências

Entrar na academia já entrei
Mas ninguém me explica por que que essa torneira
Aberta
Neste silencio de noite
Parece poesia jorrando… (Barros, 1937)

Infelizmente o poder criativo do autor nem sempre obedece a sua vontade, trabalha como pode, e frequentemente se apresenta a ele como algo independente e até mesmo estranho (Freud, 1934/1939).

 

Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 26 e 27 de abril de 2019. Nesta ocasião a FEBRAPSI e a SPMS promoverão uma atividade conjunta – XI Simpósio – visando trabalhar a temática do próximo congresso brasileiro, que ocorrerá em Belo Horizonte, de 19 a 22 de junho de 2019.

Nesse Simpósio, iremos abordar a temática do Estranho e das Inconfidências a partir de um inusitado título: Estranhamente – “Achadouros” Psicanalíticos. A estética, enquanto irreverente qualidade do sentir, está posta. Com esse título já anunciamos a nossa pretensão: dialogar com a metapsicologia, a clínica e a cultura, pelo viés das sensibilidades. Sabemos que essa tríade está intimamente relacionada com os fundamentos e o desenvolvimento do pensar psicanalítico.

Tomados pelo vértice estético, a prosa fértil e imaginativa de Manoel de Barros será, nesse sentido, o nosso guia, com a qual pretendemos tecer costuras entre esses estranhos elementos, nossos “achadouros” psicanalíticos, fazendo trabalhar de forma intrigante a pretensão freudiana de alçar Das Unheimliche a um conceito específico. Cenário compatível para o brotar perguntas e possíveis respostas para o inconfidente enigma freudiano, enunciado em 1919: o que é esse “algo”, que tem que ser acrescido ao familiar para torná-lo sinistro, ominoso, inquietante, infamiliar?

A mente enquanto um locus metapsicológico alberga a matéria-prima do estranho – o território do inconsciente. Esse que traz consigo, em seus múltiplos retornos, a possibilidade de viabilizar sensações de estranhamentos: o entrelaçamento entre o conhecido e o desconhecido – do objeto do anseio ao objeto do desejo – se fazendo agente de inquietações: torneira aberta … poesia jorrando.

O poeta e o psicanalista, com seu poder criativo não submetido à lógica do processo secundário, vão forjando encontros, trabalhando como podem, em meio a muitos desencontros, pois ambos carregam o desejo de dar a esse inconfidente – o “algo”, aquilo que não tem palavras – um sentido, uma tonalidade, uma melodia.

O analista/escritor/poeta Freud vai valer-se do pulsional, embalado por sua prosa científica, duelo da pulsão de vida versus a pulsão de morte, para rabiscar suas hipóteses sobre o inespecífico que o “algo” invoca. E na escrita do poeta/escritor/analista Barros os neologismos, com seu afeto imanente, vão ampliando e fazendo aberturas no fechamento das representações-palavras: a representação-coisa sendo pescada pela palavra, na sua interminável capacidade de condensar e se deslocar. Fazendo jus à sinistra afirmação de outro poeta: Desde de Guimarães Rosa, a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica (Geraldo Carneiro).

Por essas estranhas trilhas o poeta e o analista, em suas instabilidades semânticas, nos convocam para deixar-nos tocar pelas sensibilidades e, nesse processo, darmos voz ao estrangeiro que habita nossa alma. Nosso Simpósio, em conexão com suas origens, é um convite para refletirmos sobre nosso ofício como analista e como sujeitos pertencentes a uma ordem social, que por vezes se apresenta extremamente ominosa.

Encerrando com mais uma pitada de poesia e seu encanto insensato:

Só não quero cair na sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras. (Barros, 1998)

Abraços. Aguardamos vocês.

Ignácio Paim
Diretor científico da FEBRAPSI