26.03.21 Observatório Psicanalítico – OP 233/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

 

A sobrecarga das mulheres na pandemia – quem irá nos recarregar?

 

Juliana Lang Lima (SBPdePA)

 

Segunda-feira, 8 de março de 2021. São 18h e meu celular gentilmente me avisa: restam 15% de bateria, você deve efetuar recarga. Depois de um seminário, 9 sessões como analista e uma como analisanda, ele até que resistiu bem: é apenas a segunda recarga necessária no dia. Talvez não deva colocá-lo na tomada, penso eu. 

 

Melhor evitar a tentação masoquista de informar-me sobre a situação da pandemia em minha cidade e no meu país. Quem sabe se eu nunca mais entrar nos sites de notícias e cancelar minhas contas no facebook e no Instagram eu consiga formar a tão invejável bolha que alguns comentam ter. Mas, sem bateria, com qual despertador vou acordar amanhã às 6h em ponto?

 

Esquece, você precisa desse celular com alguma carga pra fazer aquela videochamada que está adiando há tempos e que tinha combinado para hoje com os avós. E tem ainda a aula on-line do pequeno. Que chatice! Ele não para quieto um minuto na frente da tela, será mesmo necessário Mas… e os vínculos todos que ele deixou de fazer durante esse ano de pandemia? Melhor não criar mais culpa na consciência nada tranquila dessa mãe aqui. Pronto, vai ter aulinha on-line, sim. Tá decidido.

 

E por falar em decisão, esqueci de pensar no jantar. Caramba, só tem água e vinho nessa geladeira, não consigo providenciar nem um arroz com ovo! Como foi que deixei ela ficar tão vazia? Melhor apelar para o ifood, vá lá, esse celular carregado deve ter alguma serventia afinal de contas. É até bom pensar que esse pequeno aparelho não é portador de más notícias apenas. Aliás, foi por meio dele que recebi a fotinho da minha avó tomando a segunda dose da vacina. Tudo bem que ela já tem 90 anos, mas parece que a vacina está chegando… nos cascos de uma tartaruga.

 

Vacina lembra pandemia que me lembra de ligar para a tia do meu marido que está se recuperando em casa. Aliás, ele bem que podia fazer isso, não é? Mas ele diz que eu tenho mais jeito com essas coisas, que sou boa em ouvir as pessoas. Acho que não sou muito boa é em dizer não. Resignada, pego o telefone, a tia atende: “Oi querida, tá tudo indo. Covid leve, nem deve ser dessa nova cepa”. O pai da minha amiga que mora em Pelotas não teve a mesma sorte: está há 36 horas aguardando um leito, em situação mais difícil. Vou mandar uma mensagem perguntando como ele está e vou encher de coraçõezinhos porque não tenho energia pra nada mais que isso. E se mandar um áudio é bem possível que ela perceba em minha voz cansaço e desânimo. Não, isso não. Não tenho o direito de contaminá-la com minha sobrecarga.

 

Talvez deva dar uma desacelerada e cuidar mais de mim. Dias desses reparei que ando com uma expressiva queda de cabelos, a cada manhã recolho uma peruca do meu travesseiro. Uma opção seria marcar uma teleconsulta com a dermatologista, mas me sinto até meio constrangida em pensar em perda de cabelos enquanto tantos perdem suas vidas, e enquanto minha funcionária segue vindo trabalhar, mesmo em bandeira preta no estado. Ah, mas ela vem e volta de Uber, só dois dias por semana e eu sigo pagando o salário integral. Vejam, sou boazinha, me preocupo com sua proteção, até comprei máscaras PFF2, ou N95, sei lá como chama isso. O problema é que ainda não inventaram uma máscara para os olhos, que filtrasse toda essa desgraça que está a nosso redor.

 

Aliás, ando tão exausta que dei pra ter pesadelos. Dia desses, sonhei que, em meio ao pior momento da pandemia no Brasil, com mais de 260 mil mortos e menos de 5% da população vacinada, ouvia um cara discursar que precisamos ser corajosos, não ficar em casa e nem nos acovardar. Se não me engano, dizia algo como “chega de frescura e mimimi”. Conforme o sonho avançava, dava a impressão de que esse cara era o presidente do país. Eis que acordo, tomada de susto e alívio. É cada absurdo que a gente consegue produzir enquanto está com medo…

 

P.S: Essa pequena crônica com tonalidades autobiográficas é também inspirada nas narrativas de muitas mulheres: amigas, familiares, colegas e analisandas que comigo compartilharam as repercussões do machismo estrutural potencializado pelo advento da pandemia. Quaisquer semelhanças dessas palavras com a vida real não têm um fio de coincidência, mas ele ainda tem um recorte muito delimitado, o de uma mulher branca, de classe média e altamente privilegiada, mesmo que nesse contexto desolador. Esse texto parecerá mera obra de ficção se comparado ao cotidiano de uma mulher negra em nosso país.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

 

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