04.12.20 Observatório Psicanalítico – OP 211/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

 

Adeus ao mestre

Ney Marinho (SBPRJ)

 

10/10/2020. Recebi com muita emoção o comunicado dos colegas da SPRJ informando o falecimento do Prof. Portella Nunes. Todos aqueles que tiveram o privilégio de frequentar o IPUB – Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil, atual Faculdade de Medicina da UFRJ -, sob a cátedra do Prof. Leme Lopes, nos anos 60, devem ter sentido a tristeza, aconchegada pela saudade, que a lembrança daqueles tempos traz e com ela a figura singular de Portella. Entrei para o IPUB em 1965, no terceiro ano da FNM – Faculdade Nacional de Medicina – com 22 anos, e lá fiquei até o início de 1969. Durante todo esse período fui aluno de Portella. Suas aulas nos cativavam, não por qualquer competência ou artifício retórico, mas pela força das ideias que transmitia. 

 

Certamente, na época, não sabia o que isto significava, mas sentia. Algo como o Riobaldo de Guimarães Rosa que diz: “… naquela época eu não sabia que não entendia”. Hoje, sinto como fazendo parte de meu patrimônio imaterial – formidável expressão criada pela UNESCO – indestrutível ante às frustrações, violências e queimadas da vida. Jaspers, Sartre, Merleau Ponty, Marx, Marcuse e, tantos outros, frequentavam nossa sala de aula ao lado de Bleuler, Freud, Melanie Klein e … o inevitável Shakespeare, numa convivência fraterna de pessoas – não importa se vivas ou mortas – que pensavam a aventura humana. Todos esses personagens nos eram apresentados pelo Prof. Portella, com familiaridade e carinho, tornando-os quase nossos companheiros.

 

Uma oportuna recordação: no ano de 1968 fazíamos – com Roberto Quilelli, Celmy, e outros colegas – a experiência de uma Comunidade Terapêutica, no Hospital Pinel, ou seja, em um hospital público, em convênio com a Universidade. Numa das salas do Pinel, Portella dava seu curso. Era nada mais que a leitura e discussão de Eros e a Civilização – de Herbert Marcuse – recém editado no Brasil; então a bíblia da juventude revoltada européia. A fleugma de Portella contrastava com a urgência daqueles jovens, ao mesmo tempo que nos indicava que havia um longo caminho a percorrer! Recordo-me da tradicional reunião científica de sexta feira, do dia 26 de junho, no IPUB, suspensa quando mal iniciada, pela palavra de seu coordenador – Prof. Cincinato Magalhães –, que concordava  com a convocação de Claudio Macieira para que fossemos juntar-nos aos colegas para a passeata dos 100.000 na Cinelândia. Fernanda estava no final de gestação de nossa primeira filha – Mariana – que nasceu em 15 de julho. Havia medo, sem dúvida, mas a esperança era tão grande que o continha, com alegria.  

 

Nosso sonho terminou no 13 de dezembro de 68 com o infame AI-5 que escancarou a ditadura que ainda duraria mais 17 anos. Outros encontros tivemos – Fernanda e eu – com Portella, mas em circunstâncias diferentes, já então no âmbito dos congressos e atividades psicanalíticas. Nunca deixamos de ouvi-lo e aproveitar sua generosa cultura e sabedoria. Sentíamo-nos então os mesmos jovens, apreciando o eterno mestre. 

 

Nossa saudade é mais intensa ao ver, no presente, psicanálise e psiquiatria tão afastadas, sem qualquer diálogo, num lamentável desperdício de ricas experiências, sob ângulos diversos, da milenar loucura.

 

Portella e Clara Helena são lembranças que nos ajudam a acalentar velhos sonhos que guardamos e embalamos sob o ritmo da prosa poética de nosso mestre comum: William Shakespeare.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

 

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