Uma perspectiva para além da psicanálise

Observatório Psicanalítico 66/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Uma perspectiva para além da psicanálise

Mery  Pomerancblum  Wolff (SPPA)

 

No último fim de semana um grupo de psicanalistas da SPPA participou do X Congreso Internacional y Multidisciplinario na APU, intitulado Desamparo –  Perspectivas psicoanaliticas y socioculturales.

 

Representamos os grupos da SPPA envolvidos em ações na comunidade, apresentando o trabalho intitulado “Laços sociais de amparo: parentalidades em foco.” Um dos objetivos, como sempre tem sido, é buscar a interlocução com colegas de nossa área de estudo e também de outros saberes.

 

Foi uma experiência muito enriquecedora porquanto consolidou algumas de nossas concepções, mas também nos trouxe novos olhares e perspectivas. A psicanálise extramuros é realmente um campo, não somente de estudos, mas também de possibilidade de ações onde a troca de vivências acrescenta à psicanálise outras possibilidades para além do que nosso arcabouço teórico alcança. Outros olhares e perspectivas ampliam nossas ferramentas e nossa própria capacidade analítica.

 

Compartilhamos a mesa intitulada “Extensión delpsicoanálisis y desigualdades” com o trabalho acima nomeado, resultado de um trabalho desenvolvido , há mais de dez anos, em “Rodas de Conversa” com educadores, adolescentes e seus pais, oriundos de áreas de alta vulnerabilidade social da periferia de Porto Alegre. Esta população sofre pressões de diversas naturezas, como o desmantelamento das famílias, negligência e abuso de suas crianças, violência e tráfico de drogas.

Descrevemos nosso sentimento de desamparo frente a incapacidade de abranger a complexidade das parentalidades desta população com o arsenal teórico corrente. Consideramos, mas  também  desconstruímos as definições clássicas em psicanálise de pai e mãe biológicos e de sua centralidade na constituição psíquica, utilizando o conceito mais abrangente de “função”. Parece-nos necessário identificar e aceitar a existência de outras estruturas familiares e comunitárias, em sua riqueza e diversidade, e alertarmos para a tendência de comparar com o já vivido e conhecido, perturbando e dificultando a visibilidade da potência de uma nova realidade que se apresenta. Relatamos duas situações vivenciadas nas Rodas de Conversa, para reflexão sobre as ideias expostas no texto.

Entendemos que seja importante pensar a família (além das filiações biológicas)  expandida, para englobar pessoas, instituições e grupos em condições de exercer esta função.

Contamos com a escuta atenta e respeitosa de duas comentaristas: a psicanalista uruguaia Cristina Lopes de Caiafa, cujos aportes ampliaram nossa escuta psicanalítica, e com a PhD Simona Taliani , antropóloga da Universidade de Turim (Itália), que nos proporcionou a oportunidade de um olhar e uma escuta diferentes  com o reconhecimento de, para nós, novas linguagens que abrem distintas  perspectivas de compreensão do outro.

Sempre houve famílias com diferentes configurações em culturas variadas. Este não é um problema da contemporaneidade e é importante que a psicanálise tenha esse registro. A antropóloga Simona assinalou que o tempo é fundamental para pensarmos a questão da sobrevivência pois, em sua perspectiva, para as famílias em alta vulnerabilidade social, a desigualdade congela o tempo e para eles o futuro nunca chega. Desta forma, com o Estado longe e as perspectivas de futuro escassas, o domínio do tráfico se torna uma realidade. Nesse sentido, achamos muito interessante a metáfora que coloca de que os laços de amparo podem se tornar uma forca.

 

Da plateia também tivemos importantes contribuições, como as do antropólogo e etnopsiquiatra Roberto Beneducce, que nos acrescenta sobre a importância de termos em mente que mais de uma variável concorrempara entender as manifestações do humano. Aí reside a importância de usarmos outros saberes tanto para compreender as educadoras, adolescentes e seus pais nas Rodas de Conversa, como os pacientes em nossos consultórios.

 

Saímos deste encontro com o sentimento de termos alcançado nossos objetivos  e enriquecidas  pelas contribuições dos colegas, sentimento esse compartilhado por muitos presentes e  assim descrito pela presidente da APU, o que nos deixou muito satisfeitos.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade dos seus autores)

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