13.08.18 Observatório Psicanalítico 64/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

  

A inconfidência dos generais, a dignidade do filósofo

e a responsabilidade do psicanalista

Ney Marinho (SBPRJ)

 

Os colegas do Observatório Psicanalítico gentilmente me convidaram para escrever sobre o impacto produzido pelas revelações da troca de correspondência entre um alto funcionário da CIA e o secretário de estado norte-americano – Henry Kissinger – sobre a ditadura brasileira (1964-85). Como é do conhecimento de todos, segundo essa correspondência, o Presidente Ernesto Geisel, recém-eleito (março de 1974), teria concordado com a continuação das execuções de presos políticos. Tais procedimentos já ocorriam nos governos militares anteriores e atingiram seu clímax no de Médici. Portanto, a presidência reconhecia que além das prisões, torturas, estupros e outras infâmias, o assassinato de adversários do governo recebia o beneplácito do novo governo. Para os que militaram na resistência democrática naquela época, esta informação já era conhecida como boato: o governo prevendo uma inevitável abertura planejaria desarticular os partidos e lideranças operárias e populares, inclusive pela eliminação física. A história já havia confirmado o que fora um boato: um terço da direção do PCB – que era declaradamente contra a luta armada – e que trabalhava no MDB na luta pacífica pela redemocratização foi assassinada; assim como, posteriormente, por uma bizarra manobra, o Gal. Golbery impediu que a sigla PTB fosse resgatada por Leonel Brizola. Em suma, a abertura que os militares planejavam seria lenta, gradual e segura, isto é, … sem a possibilidade que lideranças operárias e populares pudessem estar representadas no poder, mantendo a excludente composição de classe em nosso legislativo. Como devem estar lembrados, o candidato civil indicado pelos militares foi: Paulo Maluf, um representante da plutocracia!

Minha primeira reação, silenciosa, foi a de recusar o convite dada a delicadeza do tema, além de já serem conhecidos os fatos, e de delegar a historiadores – profissionais mais qualificados – a tarefa de registrá-los. Contudo, três acontecimentos me fizeram mudar de ideia: em primeiro lugar, o espantoso crescimento de um pensamento conservador que adquire características fortemente autoritárias que procura negar este triste passado e mesmo infundir, em especial, nos mais jovens, que não viveram o horror da ditadura, a promessa de um auspicioso futuro sem a ruidosa turbulência, do caminho democrático e a participação dos trabalhadores.

Em segundo lugar, um precioso achado: a tradução para o português, diretamente do alemão e a edição este ano, do livro de Karl Jaspers: A questão da culpa – a Alemanha e o nazismo (Heidelberg, 1946!). Um curioso silêncio ocorreu a respeito de tão importante feito editorial!

Finalmente, a cada dia a consagração da impunidade dos assassinos de Marielle e Anderson; na mesma linha que a, reconhecida internacionalmente, dos algozes de Vladimir Herzog e, acrescentaríamos, de Manoel Fiel (operário), David Capistrano (herói da guerra civil espanhola e da resistência francesa), João Massena (líder sindical) e tantos outros e, recentemente, dos assassinos dos trabalhadores chacinados no Pará; o que torna presente o que antes seria história. 

Assim, julgo que não estou falando de um passado – próximo para uns e longínquo para outros – mas de um presente, de uma constante, uma invariante, de nossa sociedade. Sociedade que resiste sutil ou cruelmente, dependendo das circunstâncias, a qualquer mudança que ameace suas raízes senhoriais, excludentes, preconceituosas a serviço de discriminações que mantenham anacrônicos privilégios que remontam a nosso longo passado escravagista. Neste sentido, sinto-me responsável, como psicanalista, de chamar a atenção para os crimes que carregamos – como um perverso patrimônio – e que pedem uma reflexão. Não no mero sentido de descobrir culpados – o que é importante, talvez, imprescindível – mas para uma pesquisa mais profunda: qual a responsabilidade de todos nós para que tal tragédia tivesse ocorrido? Qual a atualresponsabilidade que devemos assumir para evitar que se repitam os horrores, sob os mais diversos disfarces, da ditadura que por 21 anos impediu qualquer mudança na estrutura social brasileira que a tornasse menos desigual e cruel? 

Penso que mais uma vez a dignidade do velho mestre da Psicopatologia Geral, Karl Jaspers, nos indica o caminho: reconhecermos nossa responsabilidade em não defender o processo democrático como poderíamos, tanto em 1964 como em 2016, e unidos retomá-lo com a participação de todas as camadas sociais, sem qualquer discriminação, única forma de superarmos o estado de exceção, ou, detradicional exclusão, em que vivemos.

A leviandade com que a questão democrática é muitas vezes tratada pela sociedade brasileira pode conduzir-nos a não somente uma banalização do mal mas a uma legitimação do mal. Entretanto, por mais limitada que seja nossa capacidade de interferir neste processo, é uma responsabilidade que não podemos recusar.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).