15.06.18 Observatório Psicanalítico 55/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo. 

 

11ª Bienal do Mercosul: alerta a uma realidade incômoda

Paulo Henrique Favalli (SPPA)

 
Entre 6 de abril e 3 de junho do corrente ano realizou-se em Porto Alegre a 11ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul . Mesmo se tratando de um evento já encerrado, julgo pertinente a proposta do OP de comentá-lo visto as características específicas do tema que orientou a exposição.
A incipiente industrialização, surgida no Brasil durante o século XIX, e a expansão urbana permitiram o desenvolvimento de uma classe social que se diferenciava dos escravos das zonas rurais. Trabalhadores assalariados, burocratas, funcionários públicos, profissionais liberais começaram a compor uma parcela importante da população, ainda que alijada do poder decisório, reservado aos donos do capital econômico. 
A apropriação do capital cultural deu a essa classe média uma via de ascensão social e recurso a privilégios só permitidos à aristocracia em épocas passada, ou aos donos dos meios de produção no período industrial. Dessa maneira, a promoção do conhecimento e da arte voltou-se quase sempre aos interesses desta classe. Sabe-se também que tal promoção moldou-se pela influência europeia, o que gerava um sentimento de superioridade e dessemelhança diante dos negros escravos e seus descendentes. A tentativa de absorção dos valores europeus fez com que se considerassem toscas e primitivas as expressões culturais dos nativos indígenas e dos africanos importados. Mantiveram-se, assim, apagadas as manifestações das culturas oriundas das populações tratadas como inferiores. Com o tempo a condição de inferiores estendeu-se, além dos negros, em sua maioria, também aos mestiços e brancos excluídos do processo produtivo e de aquisição de bens.  
A Bienal pretendeu, pois, um resgate da diversidade cultural dos africanos, indígenas e europeus, que, por força da colonização, se interligaram por mais de 500 anos.
A exposição, realizada em locais jamais frequentados pela mencionada “ralé,” revelou o que até então era assumido como “não existente”. Retratados por vários meios (pinturas, fotos, vídeos, artesanato, instalações), ocuparam a cena artística aqueles que, por anos, foram mantidos na condição de invisíveis. O que não deixa de ser um tanto irônico, pois se reveste de certo “charme” artístico o inferno da escravidão e da exclusão social (“charme”  também evidenciado na cínica inclusão de negros na cerimônia nupcial do príncipe Harry com a plebeia Meghan, a aristocracia retrógada fazendo um gesto de concessão aos súditos inferiores). 
Contudo, não deixa de ser positivo o fato de, em um evento essencialmente pequeno-burguês como a Bienal, constar o que por tanto tempo foi relegado ao silêncio. O tema da escravidão, por exemplo, ressalvados alguns estudos históricos e antropológicos, foi ignorado pelos anos que se seguiram a 1888, tendo discreta referência nas escolas com a exaltação da princesa que assinou a Lei Áurea quando o trabalho escravo já não convinha mais. A escravidão foi escancarada em várias obras expostas na Bienal. 
Talvez a distância de cento e trinta anos nos proporcione alguma objetividade para encararmos o absurdo e reagirmos com indignação ao que foi feito. Esta objetividade esteve ausente em boa parte dos que viveram aquela realidade, assim como, talvez, nos falte um olhar mais objetivo e crítico às novas formas de escravidão que se impõem nos tempos atuais. Refiro-me à tragédia diária sofrida por imensa parte da população que vive em condições de extrema pobreza. Nesse sentido a importância e mérito da Bienal residem em nos alertar para uma realidade persistente na qual o racismo ultrapassa a circunstância da cor da pele e abrange a ideia, ainda facilmente assimilada, da existência de seres humanos de primeira classe e seres humanos de segunda classe. Que tal reflexão não se limite a um evento a cada dois anos!
 
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