12.06.18 Observatório Psicanalítico 54/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Falando de amor

Rossana Nicoliello Pinho (SBPMG) 

 

Guimarães Rosa foi quem soube falar do Amor com maestria, desfilando pelas veredas da dor e da poesia…

E no desafio encomendado, cito uma escrita do passado, sem as aspas da formatação, pois do antigo da gente e da amorosa atualidade é que se vê, renovada, a criação…

Mergulhada nas vicissitudes de um “Sertão”, tomado aqui como a oficina original da mente, cito o Rosa, inspiração da minha escrita, na ousadia do verso e da prosa: 

“No Sertão, homem é um eu que ainda não encontrou o tu; por isso ali os anjos e o Diabo manuseiam a própria língua…”

No princípio era um corpo, sem Ser. Um arrisco de viver sem se saber, sutil presença, entre ilusão e crença.

Mas eis que o corpo, que no Amor põe procura, dá voltas no si mesmo e entre achados e perdidos, na “comunicância” intensa do querer, adentra o tu, sem saber…

E desse encontro do acaso, desse “eu” aconchegado na pele do outro, sem a ciência do espaço, surge um sublime momento, olhares de um início, daqueles que ainda é de se ver “pra dentro”…. 

Na ânsia da cavalgada na garupa do desejo, o “tu”, agora alcançado, ainda é confusão de um ser misturado, um melhor de si… no outro, encarnado. E não importa se ficção ou sensação, é assim que o “eu fica”, em certos tempos do Sertão… É que o “ eu” é cabra sabido no querer, que quando se sabe se mente desolado, que é para conseguir calado, o ombro do ser amado…

Mas o que se vê no de repente, é que o Amor pousa na palma da mão do “tu”, andanças do corpo ao umbigo da mente, lugar das vivências profundas, onde se forma o início da gente…

Então o Rosa põe alerta no vermelho da paixão, mostra o risco “descalculado”, essa sutil e perigosa con – fusão…

“Um outro pode ser a gente, mas a gente não pode ser o outro, nem convém…”

E segue assim, no incômodo inevitável de uma ampla percepção, o re – começo da existência, na tal queda da ilusão…

E no desassossego, no refazer de um contrato nas minúcias revisado, o Eu, deveras alertado, entende que o AMOR é facho de Luz que ilumina, mas que por vezes, cega e desatina… E no caminho da descoberta, pode ser faca de dois gumes, que na beira do corte, sustenta a vida, mas também a morte…

Mas eis que surge a voz de um oráculo imaginado, que por vezes nos acolhe e até nos dá saída, afirmando que o AMOR é riqueza que se recebe na devolução da investida! Mas alerta, contundente, que só se pode ter sucesso nessa contrapartida, se essa for, sem negociata, gratuidade correspondida… 

E assim, menos apavorado, em festa discreta entre doação e estima, junto da gente mesmo e do outro tão amado, cuidamos do aconchego e da devida distância, sabendo que o Amor é indigesto, se amigo da ganância.

Então aqui pego atalho, pois assunto complexo, dá é muito trabalho…

Ensaio a despedida e ofereço os versos de um certo compositor, que inspirado na melodia, definiu o tal do AMOR, entre o vendaval e a calmaria…

            “AMOR, é chama ardendo sem se ver, 
             Punhal cravado sem doer,
            É o Demo abraçado a Deus…
           É a soberana majestade 
          ajoelhada com humildade 
         Beijando os pés de súditos plebeus…”
 
 
(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).