14.02.18 Observatório Psicanalítico 44/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo 

 

Entre o esconde-esconde e a nudez explícita

Hemerson Ari Mendes (SPPel)

 

 

Atualmente, os carnavais estão mais para a explícita nudez do que para as antigas – e precursoras – máscaras que propiciavam o anonimato; então, fundamentais para se viver secretas fantasias. Talvez sejam faces da mesma moeda. Mais explícito, em consonância com o seu tempo, meu caçula adentrava a sala e proclamava: meu tico está “enormizado”, obviamente, tentando mostrar seu infantil poder.

 

Eu, em sintonia com meu tempo, brincava de esconde-esconde. A brincadeira tem algumas variações – cabra cega era uma delas; porém, o núcleo central é alguns esconderem-se; aparentemente, para não serem encontrados, enquanto alguém procura até encontrá-los.

 

Na minha infância – sim, eles não terminam, mas vamos brincar que sim -, eu tinha um esconderijo “perfeito”, ninguém conhecia o labirinto do porão – gostaria que fosse sótão, mas era o que a realidade propiciava – da minha casa; além disso, eu podia, através de pequenos furos nos tijolos, avistar a movimentação dos demais que procuravam o último a ser descoberto.

 

Inicialmente, todos se esforçavam na tarefa, mas como o encontrar era “impossível”, os participantes desanimavam e o desinteresse aumentava. Concomitantemente, eu começava a ficar angustiado no meu esconderijo, percebia que alguns desistiam de procurar-me, outros começavam a sugerir novas brincadeiras. Só me restava sair do esconderijo e dar pistas para ser descoberto.

 

Todos têm seus esconderijos num atemporal esconde-esconde mental; às vezes, se esconde dos outros; em outras situações, de si mesmo. Frequentemente, existe um amálgama das duas posições. Na ampla zona cinza que contempla o consciente e o inconsciente.

 

São variados os esconderijos e os escondidos. A pré-potência pode esconder-se atrás da prepotência travestida por jalecos, togas, batinas, fardas, diplomas … A verdadeira sexualidade, eventualmente, acomoda-se em armários. A insegurança aninha-se no desejo do outro. O magro faminto faz seguro no corpo obeso. A carência pode desviar o foco através do fotoshop da nudez explícita – seria essa a versão atual do antigo esconde-esconde?

 

Quem já brincou de esconde-esconde com crianças (ou como) sabe perfeitamente o quanto elas vão dando pistas para serem encontradas. Se há demora, as pistas vão aumentando – sussurros, risos, o chacoalhar de cortinas … O encontro geralmente é o momento de maior excitação. Algumas até se frustram por serem encontradas rapidamente, mas ansiedade as invade se houver demora.

 

Na vida adulta, o sistemático uso dos esconderijos nada mais são que crianças que se perderam no brincar da vida e clamam por ser encontradas. Muitas vezes não sabem como fazer, outras não têm consciência do que escondem e de seus medos. Contudo, a descoberta segue sendo libertadora.

 

Há alguns anos, vi uma charge, era a caricatura de uma cena de esconde-esconde, comentava-se sobre a determinação/teimosia de um dos personagens. Na última tira, ele é caracterizado por um esqueleto no esconderijo de seu último esconde-esconde.

 

Esconde-se para ser descoberto. Manter o escondido/esconderijo é o adoecer (ou a morte) do esconde-esconde (ou do viver).

 

Um remédio para o adoecimento do esconde-esconde é variação do pega-pega, no qual quem foi pego (aprisionado – por uma carcereira que poderíamos chamar de Neurose), pode ser liberado pelo toque de alguém que está livre. Contudo, é necessário que este emita um grito, estique um braço, dis(ex)ponha-se a um olhar convidativo, permita-se arejar o porão (quem sabe o sótão?) da pseudo segurança dos esconderijos mentais.

 

Contudo, paradoxalmente, o desespero da nudez explícita parece condenar à mesma solidão.

 

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