23.01.18 Observatório Psicanalítico 41/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo 

 

Agenda Brasil

 

Joyce Goldstein (SPPA) e Maria Teresa Silva Lopes (SBPRJ)

 

Nos primeiros momentos de 2018, logo depois de 2017 ter deixado seu posto, o fotógrafo Lucas Landau nos brindou com uma foto que instantaneamente se tornou “a melhor foto do ano” – este que mal acabara de iniciar –, viralizando nas redes sociais com inúmeras visualizações, mais de 50 mil reações, 6 mil compartilhamentos…

 

A foto retrata um menino negro, de nove anos, olhando maravilhado para o show pirotécnico da virada do ano. Ele está na beira do mar, sem camisa, de bermuda escura molhada, com os braços entrelaçados na altura do umbigo. Seus olhos admirados estão fixados no céu. Ao fundo e afastada do menino, uma multidão de pessoas, todas vestidas de branco, se abraçando, fazendo selfies, comemorando e, alguns, posicionados de costas para o menino. Ninguém sabia nada dele, além da idade, como o próprio fotógrafo afirmara.

 

Bem-vindo, 2018!!! A repercussão da foto nos diz que necessitamos pensar, dialogar, reagir, compartilhar… na velocidade própria das redes sociais, abriu-se uma complexidade de manifestações, interpretações e “usos” da imagem. Diante desta, ocupamo-nos com a seguinte questão: por que seria esta a “melhor foto do ano”, um “retrato do Brasil”?

 

A foto, indiscutivelmente, nos apresenta uma imagem que emociona, ao mesmo tempo em que impacta pela beleza, vista por um ângulo diferente daquele comum, já que se trata de uma foto tirada do “mar para a areia”. Um cenário lindo, um menino lindo, com um olhar de deslumbre, com seu corpo miúdo e frágil, passa a ser o “retrato do Brasil”. Nas diversas interpretações atribuídas à foto nas redes sociais, que geraram debates acirrados, predominava a ideia de que o menino, negro, era morador de rua, pobre, sozinho no meio do mar, desamparado, sem pai, nem mãe, passando frio – em suma, mais uma criança preta e pobre, socialmente vulnerável, retrato da desigualdade existente em nosso país. Mas será?

 

Sabemos da pobreza, do desamparo das crianças em nosso país, dos meninos de rua, da violência, de que apesar de a maioria da população no Brasil ser negra, o preconceito racial é sistêmico. Contudo, o que mais nos chamou atenção nos debates em torno da foto foi o fato de que mil e tantas pessoas “formataram” o menino – negro, pobre e sozinho – em uma condição inferiorizada, diferente dos outros que ali estavam, sem que igualmente não soubéssemos nada deles. O menino nos mostra uma fragilidade. Esta pode dizer respeito à fragilidade de uma criança perante a sociedade, a qual, muitas vezes, expõe suas crianças, não oferecendo um olhar e uma visibilidade que legitimem uma cidadania digna e humana.

 

A compreensão da desigualdade que marca profundamente a sociedade brasileira é um exercício difícil, e é nesta tentativa, de nos exercitarmos, que dialogamos muito entre nós sobre esta foto e resolvemos convidar os colegas a ampliar a busca de mais e diferentes compreensões e olhares. Qual o sentimento ou impressão que a imagem provocou em vocês? A lente do fotógrafo capturou um cenário que nos levou, pelos comentários feitos e pela viralização nas redes sociais, a pensar em um paradoxo, qual seja: o que pouco se quer ver, foi muito visto, através de milhares de postagens.

 

A imagem do menino provocou em algumas pessoas um sentimento de menos-valia, de desamparo. Este sentimento provavelmente pôde surgir porque fomos condicionados a criar em nós mesmos um (pré) conceito em relação ao negro – que só pode ser pobre e favelado. O que muito nos impacta é que a figura do menino, nesta foto, traz à tona o grau de racismo encruado que mora no interior de cada um de nós. Meninos negros, pobres e favelados sofrem pela invisibilidade, sofrem por carregarem um estereótipo, de serem sujeitos no limite da dignidade humana. As pessoas não costumam ter nenhum sentimento de benevolência em relação ao lugar que estas crianças “marginais” ocupam. Então, a hipocrisia fica por conta do impacto com o “retrato do Brasil”- a foto do ano. Por quê? Quem é o Brasil?

 

Somos nós, como cidadãos, que fazemos as leis, que criamos as regras. Urge pensar neste social que nos rodeia. “As crianças são nossas!!!” Temos que nos ocupar do que é nosso, de suas necessidades básicas, de seu desenvolvimento emocional, de sua escolaridade – de tudo aquilo que representa e implica a dignidade humana.

 

No cotidiano, entretanto, nada disso é problema nosso. E, não o sendo, de quem seria?

 

A foto nos desconfortou, nos “tirou do lugar”, não só pelo impacto da diferença, mas pelo grau da indiferença em que ela nos coloca. E isso nos leva a pensar, conforme Hannah Arendt anuncia em “O direito a ter direitos”, na pouca chance que terão os meninos, perdidos nas imensidões das águas dos mares, de poder apreciar o que têm por direito no espaço público, sem precisar se tornar o “retrato do Brasil”.

 

 

A angústia do fotógrafo é quanto à identidade do menino. Ao perguntar a ele seu nome, devido ao barulho, não escutou. De que “barulho” estamos falando? Que “barulho” é esse que transforma a imagem deste menino no fenômeno da exclusão social? Que barulho é esse que nos faz cegos e surdos aos direitos mínimos dos indivíduos? A exclusão social é a negação dos direitos mínimos, a negação da cidadania. Qual mesmo é o nome deste menino? Não escutamos ou não queremos saber?

 

Sabemos que, pela cidade, muitos meninos transitam sem se sentir pertencendo. Os transeuntes que por eles passam têm medo, olham atravessados. Mas são poucos os que conseguem parar para olhá-los de forma diferente, como seres humanos, deslocados pela precariedade do social que não os acolhe. Julgá-los é muito mais confortável do que pensar na nossa real responsabilidade para com este social que produz a fome, a miséria, o descaso e a morte pela violência.

 

O respeito e a solidariedade para com o outro são nossos maiores compromissos. Nossas experiências através da psicanálise estendida, trabalhando com crianças e educadores que vivem em zonas profundamente vulneráveis, proporcionam que nos aproximemos desta realidade, ainda pouco conhecida e reconhecida. Trabalhamos e acreditamos que nossas ações podem ser “pequenas” em quantidade, mas “grandes” quanto ao que podemos oferecer de dignidade humana para as crianças e adultos do nosso Brasil.

 

Aproveitando o início do ano e as agendas novas para anotar nossos compromissos, que tal criarmos uma “Agenda-Brasil”, e a cada dia registrarmos uma escrita ou um olhar para estas questões que nos dizem respeito enquanto cidadãos e psicanalistas?

 

Primeira anotação: Lidar com a cidadania para que existam cidadãos!

 

(Hoje publicamos o texto escrito a quatro mãos, por colegas de duas cidades: Joyce Goldstein, da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, e Maria Teresa Silva Lopes, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)