29.11.17 Observatório Psicanalítico 35/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo 

 

Abismos sociais: intersubjetividade na interdisciplinaridade como uma alternativa

Fátima Freitas, Alida Fuhrmeister, Carmem Keidann, David Bergmann, Maristela Wenzel, Mery Wolff, Rosângela Costa e Alice Lewkowikz (SPPA)

 

“Catar um por um os espinhos da água

restaurar nos homens uma telha de

menos

respeitar e amar o puro traste da flor”

Manuel de Barros

 

Ogden (1994), referindo-se à intersubjetividade entre analista e analisando, destaca a tensão dinâmica que se estabelece entre ambos os constituintes do par, no que diz respeito a seus próprios pensamentos, sentimentos, sensações, realidade corporal e identidade psicológica. A subjetividade individual e a intersubjetividade criam, negam e preservam uma à outra. A tarefa não é desembaraçar os elementos constitutivos da relação, num esforço para determinar quais qualidades pertencem a cada indivíduo que participa dela. Ao contrário, do ponto de vista da interdependência entre sujeito e objeto, a tarefa analítica envolve uma tentativa de descrever, o mais completo possível, a natureza específica da experiência de inter-relação da subjetividade individual e da intersubjetividade.

 

Há dez anos a SPPA e a Secretaria Municipal de Educação (SMED) criaram uma parceria de trabalho com os educadores de escolas de educação infantil da cidade de Porto Alegre. Através de Rodas de Conversa entre educadores e psicanalistas aborda-se os vínculos entre as crianças, os educadores e suas famílias no cotidiano dessas escolas.

 

Tendo em vista que estas escolas estão situadas em zonas de alta vulnerabilidade socioeconômica, cria-se de imediato um abismo entre as expectativas de resoluções de “problemas” e as reais possibilidades de recursos disponíveis.

 

Nestes diálogos, os grupos formados por indivíduos de duas disciplinas – Educação e Psicanálise – tentam criar espaços simbólicos com a perspectiva de tentar lidar com situações muito graves de desamparo e violência.

 

Uma das nossas hipóteses de trabalho é a de que o impacto criado pelo confronto intersubjetivo entre mundos aparentemente tão separados/diferentes possa promover deslocamentos de perspectivas habituais pré-estabelecidas tanto para os educadores quanto para os psicanalistas.

 

Assim, a interdisciplinaridade estaria abrindo novos vértices na visão de mundo de todos os integrantes do grupo: por um lado, os educadores podendo encontrar alternativas menos estereotipadas para a compreensão dos fenômenos abordados e, por outro, os psicanalistas descobrindo novas maneiras de enfrentar situações limite de sobrevivência muitas vezes desconhecidas nas suas experiências de vida.

 

Confirmadas estas hipóteses, estaremos promovendo, através das Rodas de Conversa, que analistas e educadores ampliem suas vivencias subjetivas além dos consultórios e das salas de aula.

 

A ação do psicanalista nesta dimensão de trabalho interdisciplinar abre um espaço de possibilidades simbólicas que aumenta nossa capacidade de tolerar abismos individuais e coletivos. E tudo isso só tem sido possível por estarmos cada vez mais implicados no esforço de viabilizar a persistência de Rodas de Conversa entre educadores e psicanalistas, entre os psicanalistas que fazem parte desta parceria, entre as instituições que compõem esta parceria e entre psicanalistas de diferentes instituições.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).