27.10.17 Observatório Psicanalítico 30/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Morte e vida: novas configuraçōes

Daniel Delouya (presidente da Febrapsi)

 

Morte, luto e separação foram motivos, assim nos confessa Freud em sua obra inaugural, de sua autoanálise e, em consequência disto, da invenção da psicanálise. A morte e/ou a perda, ou a separação do outro, é sempre, em certo grau, senão definitiva, ao menos em certo e significativo sentido, incontornável. A morte instaura, portanto, o tempo; coloca a vida em relevo, revelando-a pelos sentidos. É uma maneira de constatar, intuitivamente, a precedência lógica, do ponto de vivência psíquica, da morte em relação à vida. A perda, no entanto, só se constitui como tal em relação a uma vida que se construiu.

Freud remonta essa perda à constituição do sujeito pelas experiências primordiais junto ao objeto de origem, sob os auspícios de coordenadas culturais integradas ao mesmo. A morte surge, portanto, em relação a uma longa jornada de construção da vida. Os antropólogos assinalam que a percepção e o culto aos mortos são tardios na história da humanidade: coincidem com o aparecimento da sexualidade não periódica, não hormonal, e o uso de símbolos pelo homem. Freud lembra que o homem primitivo obteve clarão sobre a morte através do sonho: a morte seria o corpo abandonado pelo sonho, este sendo o motor de vida do corpo.

Outra concepção relaciona a morte com o pânico, a agonia, o pavor ou o medo sem nome, os sentimentos extremos de vazio, de aniquilamento, de catástrofe, de limites da existência e, no regime social, todas as formas de alienação do outro, na abolição de seu reconhecimento. Vários psicanalistas, de Freud, Ferenczi, Klein, Lacan a Winnicott e Bion, relacionaram esses estados aos momentos extremos de desamparo do começo da vida, ou de reações extremadas diante da carência ou de graves falhas do próprio ambiente humano que deixou de comparecer, e adequadamente, nos começos da vida.

Não se trata aqui de perda, ou de embate, na fantasia ou não, com outros (relação de objeto), mas de ameaças de inexistência, ou dissolução da existência (cujos extremos casos são inferidos de estados autistas), onde o tempo inexiste, não tem fim: é infinito.

Teriam esses estados, onde a vida mal se vislumbre senão em suas bordas de desespero, algo a ver com a morte?

 

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