14.10.17 Observatório Psicanalítico 27/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Arte e Psicanálise

Silvana Rea

 

A proximidade da arte e da psicanálise merece ser lembrada nestes tempos sombrios.

Sabemos que Freud mantinha um posicionamento de reservas quanto às vanguardas artísticas, dedicando seu interesse à cultura clássica, como mostra a sua coleção de antiguidades. Mas é inevitável considerarmos o parentesco de seu pensamento com o modernismo. Porque é na modernidade que se configura a questão de ser único, de ser criativo e original; uma questão plenamente encarnada tanto pela Psicanálise quanto pelas vanguardas artísticas.

Apesar das reservas, Freud foi de suma importância para o movimento modernista. Suas ideias ajudaram a moldar o Expressionismo alemão tanto nas artes plásticas quanto no cinema, assim como teve seus simpatizantes entre os dadaístas e surrealistas.

Mas o parentesco de Freud com a arte também segue por outros caminhos. Ao construir a Psicanálise a partir daquilo que o surpreendeu por escapar ao estabelecido, como os lapsos de memória, a troca de palavras, os sonhos, ele quebrou certas barreiras, como a convicção na supremacia da racionalidade. O que provocou forte reação na comunidade científica do início do século XX. Para surpresa nossa, a abertura que as noções de desejo, de sexualidade infantil e do próprio inconsciente, que ali provocaram perplexidade e rejeição, ainda hoje desconcerta certos setores da sociedade.

Os grandes escândalos na recepção da arte tornam-se mais intensos a partir da experimentação estética proposta pelo modernismo. Porque o século XVIII, as gravuras eróticas de Hokusai eram aceitas e muito apreciadas no Japão. E na Índia dos anos 950, o conjunto dos Templos do Kama Sutra, patrimônio mundial pela Unesco, era reverenciado.

Mas muitos foram os artistas injustiçados pela postura de intolerância ao novo.

Em 1865, Olympia de Manet provocou forte impacto. Considerada indecente por apresentar com crueza a nudez de uma mulher do povo, a obra só não foi destruída pelo público graças à intervenção da administração do Salão de Paris. Hoje ela recebe intensa visitação no Museu d’Orsay. O trabalho de Egon Schiele, um dos grandes do Expressionismo, foi considerado pornográfico e o levou à prisão em 1912.

No Brasil de 1931 o painel de Cicero Dias Eu vi o mundo… ele começava no Recife, referência na história da arte brasileira, teve cortados fora os três metros que representavam nus. Em carta à amiga Tarsila do Amaral, Mario de Andrade diz-se boquiaberto com a dimensão da obra e sua mutilação. O mesmo Mario de Andrade que já se chocara em 1917 com Homem Amarelo de Anita Malfatti, choque que alega ter sido fundamental para o início de sua formação como crítico de arte e que o fez adquirir a obra antes que a maior parte dos quadros fosse atacada a bengaladas.

Aliás, Anita teve sua carreira artística seriamente prejudicada após a publicação do artigo de Monteiro Lobato “Paranoia ou Mistificação”, que a acusa de degeneração.

Estas atitudes de reação à arte lembram que muitas obras também foram rejeitadas pelo regime nazista e expostas na célebre mostra “Arte Degenerada”. A busca da perfeição estética pela beleza ideal era um projeto político de grande amplitude, já idealizado por Hitler em “Mein Kampf” (“Minha Luta”), de 1924, onde associa identidade nacional à raça e à produção de diferentes tendências estéticas. É o argumento que sustenta a prática da eutanásia de recém-nascidos mal formados e a veiculação no rádio, sob a batuta de Goebbels, de campanhas desacreditando a arte moderna.

Bem, voltando aos riscos de nossos tempos, talvez nos ajude a lembrança de que a noção de inconsciente e do desejo como motor do psiquismo concebem um homem em direção a algo que o transcende e a algo que sempre ultrapassa o instituído. E que quando segue seu caminho em direção do simbólico, afasta-se dos riscos de ser realizado em ato. É esta a nossa força e esta é uma das funções do trabalho artístico: romper com o estabelecido, transgredir para construir um universo representacional que passa a ser repertório cultural da humanidade. Porque como na Psicanálise, é vocação da Arte manter-se em permanente postura de interrogação daquilo que é dado. Impossível reduzi-las à normatização e regular as suas possibilidades de experimentação.

 

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