01.09.17 Observatório Psicanalítico 21/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

“Cada qual no seu lugar”

Alice Lewkowicz, Denise Lahude, Josênia Munhoz, Joyce Goldstein, Luciana Secco e Maria Elisabeth Cimenti

 

Nos meses de junho e julho de 2017 nós, psicanalistas da SPPA, testemunhamos fatos que entrelaçaram espaços costumeiramente separados através das expressões “extramuros” e “intramuros” da psicanálise.

Os fatos:

– Há dois anos a sede da SPPA passou a ter, como vizinhas, 70 famílias do grupo “Lanceiros Negros”, que ocuparam um prédio do Governo do Estado abandonado há dez anos. Conviviam pacificamente com a vizinhança, num sistema comunitário organizado. Em uma noite fria de junho presenciamos uma ação de desocupação truculenta destas famílias, promovida pelo Governo do Estado. A Brigada Militar protagonizou esta ação de “reintegração de posse”, destinando crianças e seus pais à condição de desabrigados.

– Intramuros, no dia 6 de julho, em uma reunião científica, organizada pelas parcerias SMED/SPPA/Projeto Pescar, foi apresentado pelas colegas da SPRJ, Wania Cidade, Cristiane Rangel, Eloá da Nóbrega e Maria Elisa Alvarenga, o trabalho “Corpo Negro: Indiferença na morte, Indiferença na vida”. Seguiu-se importante debate sobre racismo na sociedade brasileira. As autoras pesquisaram acerca do Cais do Valongo, Memorial dos Pretos Novos, centrando-se nos efeitos psicossociais decorrentes da desvalorização do trabalho e influências do negro na fundação do Brasil. Destacaram as consequências do aniquilamento da memória desta trajetória.

– Finalmente, dia 9 de julho, desde fora dos nossos muros, é noticiado ao mundo: UNESCO declara o Cais do Valongo Patrimônio da Humanidade! O Cais do Valongo, construído em 1811 para o desembarque de africanos que seriam escravizados, foi “encoberto”, tornando-se o Cais da Imperatriz. Hoje, considerado o maior porto escravagista da história da humanidade.

Tais fatos, articulados, perturbaram ainda mais nossas delimitações entre o que é de dentro e o que é de fora da psicanálise.

Temos lidado com nossos preconceitos raciais em relação aos negros, claramente, através da desmentida. Todos sabemos que o racismo está, ora sutil, ora ostensivamente presente em nosso cotidiano, embora não o reconheçamos como fonte de profundas ansiedades.

Nestas parcerias da SPPA/SMED e Projeto Pescar trabalhamos com indivíduos das periferias socioeconômicas vulneráveis, regiões onde vive a maioria dos negros de nossa cidade. Chamou-nos atenção que, trabalhando com essa população, raramente nos detivemos nos conflitos que possam estar relacionados a emoções vinculadas à segregação imposta aos negros na sociedade brasileira.

Uma auto escuta afinada nos leva ao reconhecimento de estarmos, como cidadāos, embebidos desta “cultura”, na qual assistimos (e consentimos), no nosso dia a dia, a este tratamento dado ao “Negro” e à raça. Enquanto psicanalistas, somos em grande número descendentes de europeus e herdeiros do conhecimento psicanalítico, cujas raízes e atualizações advêm principalmente da Europa. Nossa formação repousa sobre o mesmo solo onde jazem os corpos e as mentes de uma história inaudita e a descoberta arqueológica recente desnuda o engodo de dizer que não acontece (u) o que acontece (u). O sintoma desta síndrome delirante coloca o Negro no lugar do que é não visto, nem compreendido (Achille Mbembe. 2017); da diferença, do heterogêneo, expulsos como desvalor.

A sociedade “Branca” parece necessitar de um escoadouro, que se expressa na ordem social através da definição do que é “Negro.” No nosso entender, “Negro” é o tratamento dado aos corpos e mentes de mulheres, pobres, negros, judeus, homossexuais, estrangeiros etc., cuja motivação não resiste a qualquer exercício de lógica intelectual, mas à lógica das dinâmicas passionais, que provocam exuberâncias irracionais.

A psicanálise, conforme o trabalho de Wania e seu grupo, ocupa-se de interpretar os fenômenos sociais à luz das características psíquicas dos sujeitos. Enquanto nos ocupamos de separar o intramuros e o extramuros da psicanálise, talvez devêssemos, como propõe Birman, procurar pensar a ordem simbólica e política do social como condição para a produção de sujeitos que se impõem certas regularidades psíquicas e não cogitam outras, também possíveis.

Como pensar o heterogêneo, não em uma relação de oposição ou não pertencimento, mas como afirmação, segundo suas próprias particularidades? Como pensar o diferente/de fora como um universal, sem cedermos a qualquer exercício de sua afirmação narcísica ou a algum apagamento, mas fazendo com que caiba no mesmo com todas suas diferenças sociais, culturais, religiosas, etc.? Como conceber uma psicanálise para além das fronteiras de uma sala, mas expandindo-se com as particularidades de seu modo de ver o mundo e nele plantando sua contribuição?

O discurso psicanalítico alardeado é de aceitação das diferenças, porém talvez ainda se viva de acordo com a máxima: “Cada qual no seu lugar”.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).