22.10.20 Observatório Psicanalítico – 203/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

 

Do pênalti no futebol ao penalti na cultura: o machismo em campo 

Isabella Moreira Lasmar (SBPMG)

 

Na sexta-feira, dia 16/10/2020, veio à tona no Brasil o escândalo envolvendo Robinho, jogador de futebol brasileiro, condenado em 2017 pela justiça italiana em primeira instância a nove anos de prisão por estupro coletivo. Relembrando o caso, ocorrido em 2013 em Milão, Robinho e mais cinco companheiros, dentre eles Ricardo Falco, também condenado, foram acusados de alcoolizarem uma mulher albanesa de 23 anos na casa noturna Sio Café, onde a levaram para um camarim e lá mantiveram relações sexuais sem o consentimento dela.

 

No código penal brasileiro, ter relações sexuais com uma pessoa bêbada é crime de estupro de vulnerável. Na lei italiana, também é crime induzir alguém a ter ou sofrer atos sexuais, abusando das condições de inferioridade física ou psíquica da pessoa no momento do fato. Segundo as interceptações telefônicas, Robinho e seus amigos tinham consciência de que a mulher estava bêbada e sem condições de realizar os atos sexuais, mas, para o jogador, ele não cometeu abuso e nem estupro, seu único erro foi ter traído a esposa. Se isso para Robinho e tantos outros homens não é abuso nem estupro, liga-se o alerta vermelho de que precisamos falar urgentemente sobre o machismo e a cultura do estupro. 

 

Para começar, o caso acabou gerando tanta polêmica porque Robinho foi recentemente contratado pelo Santos Futebol Clube, o que levou à pressão dos grupos feministas e de defesa dos direitos humanos. Apenas sob ameaça de rescisão de contratos de patrocínio e repercussão negativa entre conselheiros e torcedores houve a suspensão do contrato entre o jogador e o Santos. Como resultado, Robinho reagiu com ódio, proferindo ofensas machistas, misóginas, lesbofóbicas e transfóbicas, afirmando que “infelizmente, existe esse movimento feminista. Muitas vezes essas mulheres não são nem mulheres, para falar o português claro”.

 

Para muitos homens, o fato de terem um pênis os faz acreditar que são possuidores de algo a mais, ocupando o lugar de exercício de poder e exploração sobre as mulheres, que por sua vez passam a ocupar o lugar de falta. A masculinidade construída dessa forma apoia-se em uma lógica fálica de poder, na qual a supremacia masculina é calcada na ilusão de onipotência.

 

O termo “cultura do estupro” surgiu entre os anos de 1960 e 1970, a partir das mobilizações feministas que ocorriam em diversos países da Europa, nos Estados Unidos e também no Brasil. De lá para cá, infelizmente, pouca coisa mudou. A cultura do estupro hoje continua latente e as mulheres ainda são julgadas e culpabilizadas pelas roupas que vestem, pelos comportamentos que adotam, pelos lugares que frequentam, pelo que bebem, entre outros inúmeros “motivos” pelos quais uma mulher pode ser estuprada. Isso significa que a culpa nunca é do homem, mas sempre da mulher que deu algum motivo para que tal ato acontecesse. 

 

A manutenção do patriarcado é tão forte e a ideologia de papéis de gênero enraizada de tal maneira na sociedade que mais de um século de lutas feministas ainda não conseguiram vencê-la. Podemos nos perguntar, então, por quê? Por que um grupo de homens se dá o direito de abusar de uma mulher? Por que essa mulher pode ser tratada como apenas um objeto que serve exclusivamente para a satisfação masculina? Por que esses homens famosos e bem-sucedidos se vêm acima da lei e a mulher abaixo de qualquer direito e dignidade?

 

A cultura do estupro só é possível onde há machismo, sexismo e misoginia. No Brasil, as desigualdades de gênero são tão grandes que a desumanização da mulher se torna algo natural. A objetificação feminina, propagada social e culturalmente de diversas formas, leva como consequência a uma desumanização da mulher. O homem, em uma posição de superioridade, justifica seus comportamentos abusivos e violentos por considerar a mulher um objeto sexual que está à disposição para satisfazer o prazer dele. A mulher, então, passa a servir ao homem da maneira que lhe for mais satisfatória, podendo ser troféu, prostituta, entre outras formas de objetificação. Sendo assim, o estupro não se relaciona apenas com o desejo sexual, mas principalmente com o poder e a dominação do homem sobre a mulher.

 

Lamentavelmente, o futebol é rodeado por inúmeros casos de estupros e violência contra mulheres. Assim como Robinho, muitos deles são famosos internacionalmente. O que impressiona nesses e em tantos outros casos, para além da violação e do descaso com que os agressores tratam as vítimas, é também a tolerância e a impunidade que seguem muitas vezes como o único e triste desfecho. Triste para as mulheres, porque Robinho ri de toda a situação, como se já soubesse que a cultura, o dinheiro e a fama mais uma vez o protegeriam de qualquer punição. “Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu”. Além do desdém com que trata a mulher, Robinho demonstra uma total falta de responsabilidade pelos atos, como se seu envolvimento não tivesse nada de errado. O Santos faz igual, já que, mesmo com a condenação do jogador, todas as provas e o vazamento de áudios, ainda assim não foi o suficiente para o clube repensar a contratação. O recuo e a suspensão do contrato basearam-se apenas no interesse econômico, nada mais.

 

Os impactos de toda essa impunidade são avassaladores. Robinho não está acima da lei e de todas as mulheres, mas age como se estivesse. Sabemos que no Brasil, ser jogador de futebol é o sonho de muitos meninos, mas qual é a mensagem que se passa quando a sociedade e a lei se mostram tolerantes com a violência de gênero? 

 

A normalização do abuso, estupro e violência contra mulheres se tornam referências para essas crianças que vêm nesses ídolos do futebol um ideal, modelos a serem seguidos. E é exatamente por serem fontes de inspiração para tantos meninos que tanto os jogadores quanto os clubes precisam se responsabilizar por isso. Se um time contrata um jogador condenado por estupro, a mensagem que se passa para essa criança é que está tudo bem em ser violento com as mulheres, corroborando profundamente a construção de uma masculinidade tóxica e irresponsável. Passa-se uma imagem de que ser homem, ter fama, sucesso profissional e dinheiro é apenas o que importa. Desde que se entregue os resultados em campo, não interessa o comportamento desses homens com as mulheres na sociedade.

 

Dentro dessa lógica fálica e onipotente, esses jogadores tornam-se seres não castrados, acima das leis e de todos os corpos. Se eles são tudo e as mulheres são nada, há uma total negação do desejo da mulher. “Vi (nome de amigo 2) e os outros foderem ela, eles vão ter problemas, não eu. Lembro que os caras que pegaram ela foram (nome de amigo 1) e (nome de amigo 2), eram cinco em cima dela”. Isso mesmo sabendo que “ela não conseguia fazer nada, nem mesmo ficar em pé, estava realmente fora de si”. O importante para esses homens é apenas suas próprias sexualidades, fantasias e o que acontece entre eles nessa cena grupal. A mulher está praticamente fora de cena, jogada para escanteio como um objeto à parte, apenas ali disposta para a satisfação do gozo desses homens, um corpo sem vida, sem sujeito.

 

Para que possamos mudar os rumos da violência de gênero no nosso país, o que acontece no futebol também precisa ser responsabilizado seriamente, pois estamos falando de modelos de masculinidade que são transmitidos para uma parte muito representativa de crianças. E, ao contrário do que pensa Robinho, ainda bem que existe o feminismo.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

 

Imagem: Dani Acioli

 

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