21.10.20 Observatório Psicanalítico – 202/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

As eleições brasileiras sem disfarce 

Valton de Miranda Leitão (SPFor)

 

O mundo assiste a um embate político sem precedentes, pois envolto pelas nuvens tenebrosas da pandemia do coronavirus. A situação geopolítica planetária mostrou recentemente, na primeira Conferência Virtual da ONU, os atores deste processo, envolvendo principalmente a configuração geopolítica que opõe EUA de um lado e China-Rússia de outro.

 

Os discursos pronunciados revelaram as posições adotadas por cada país, mais próximo ou mais distante em relação a cada um dos polos. Trump adotou retórica belicista, enquanto a China mais diplomaticamente dizia não desejar nem guerra fria, nem guerra quente. O presidente brasileiro que atende pelo nome Messias, nada messiânico, genuflexo diante do império decadente norte-americano mostrou um servilismo vergonhoso, negando qualquer altivez soberana.

 

O processo eleitoral tanto nos EUA quanto no Brasil, se dá num contexto polarizado, com posições neofascistas de um lado e busca de convivência democrática do outro. O racismo, a misoginia e o desprezo pelas minorias étnicas falados em inglês ou português, têm o mesmo colorido de violência que assusta qualquer observador crítico desta conjuntura. Negando completamente a ideia central da boa política que é a construção de consenso no dissenso, esse processo mostra a face demoníaca do inconsciente coletivo que deu origem ao nazifacismo.

 

Platão na República trazia o mito de Giges, cujo anel ao ser girado transformava o pretenso governante democrático num tirano. O diálogo apresenta Glauco que contesta Sócrates, afirmando que os homens nem sempre preferem a virtude e a justiça. Nessa perspectiva, a sociocultura brasileira se encontra mergulhada, neste momento eleitoral, numa democracia de fancaria, mais uma vez debaixo do manto da coerção militar que o law fare da toga recobre dando a falsa impressão de justiça. O Estado de Exceção abriu caminho para o uso do Direito como instrumento legitimador da aventura fascista.

 

Tal composição coloca a dinâmica eleitoral numa posição favorável ao autoritarismo, pois qualquer dinheiro (Auxílio Emergencial de poucos meses) pode mudar o voto de quem carece de teto, arroz, carne e feijão. Além disso, a aspiração ético-política esbarra no uso vergonhoso dos seguidores do protofascismo, fazendo do algoritmo malversação da verdade, construindo mentiras e caluniando em nome do emblema que sempre fascina, Nação.

 

É surpreendente este apelo nacionalista, pois o atual sistema governativo entrega ao capital estrangeiro nossas reservas minerais, enquanto destrói os equipamentos tecnológicos e devasta a Amazônia. O desmonte do Estado para favorecer o sistema financeiro torna o processo verdadeira perversão social. Além disso, outro ingrediente notável da eleição no Brasil é uma espécie de law fare evangélico pentecostalista que promete cura para os corpos e salvação para as almas. Esta mito-lógica deixa o observador da aberrante situação da desigualdade brasileira aturdido, pois são as vítimas desta crueldade que em grande medida dão suporte às condutas autoritárias e antidemocráticas.

 

O presidente Schreber faz-se presente na sua paranoica aliança com a divindade Ormudz e usa seu delírio de impressionante exuberância para afirmar sua luta contra a corrupção e seu desejo de purificação da cultura. A negação da realidade e a projeção de toda maldade no Inimigo são modelares no juiz de Dresden para compreender a problemática eleição brasileira, da qual resultará a nova ordem política do nosso sofrido país. Os componentes objetivos e subjetivos destas eleições atípicas vão ao encontro de uma esquerda desunida.

 

Linha acima disse de um Messias pouco messiânico, mas é preciso admitir que tem forte base de apoio na pequena burguesia e entre os evangélicos da periferia das grandes cidades que ocuparam o espaço no qual o Estado está ausente. Suas palavras e gestos tresloucados não são importantes para esse lumpemproletariado, pois seu aceno evangélico é apelo muito mais forte. Os evangélicos ocupam um lugar importante nesses nichos de deserdados e oprimidos, não somente pelo fanatismo, mas por terem consolidado uma imensa rede de cooperação e ajuda mútua. Bolsonaro se articula politicamente com seus líderes e tenta se afirmar também como liderança política e religiosa.

 

A incompreensão da esquerda quanto ao avanço evangélico no Brasil tornou-a incapaz de compreender que o lumpem se aliou com essa religião. Diante do avanço do fascismo que não tem muita importância para esses setores da população, pois não compreendem sua destrutividade histórica, o pensamento de esquerda entra em confusa apatia. O lumpem já foi usado tanto por Hitler quanto por Mussolini para alcançar o poder. Os estrategistas por detrás de Bolsonaro fazem algo semelhante, partindo do princípio de que existe método nessa caminhada nazifascista. Dessa maneira, o protofascismo encontrou, bem ou mal, um líder no grotesco presidente Jair Bolsonaro, enquanto a esquerda busca em Lula a salvação. O PT optou pela política de autoconstrução, desprezando o perigo nazifascista a que estamos expostos. Isso talvez se deva ao fato de que o antipetismo também invadiu grande parte da esquerda e do centro-esquerda, para não falar da “direita civilizada”.

 

A histórica desunião da esquerda está relacionada com a luta política interna por princípios muito mais fortes do que nos partidos à direita do espectro político, que se juntam pragmaticamente, tanto em busca do poder quanto pelo dinheiro. Além disso, apesar de todos os grandes avanços socioculturais conseguidos nos governos petistas, a mobilização política foi enfraquecida pelo pragmatismo eleitoral.

 

Existem hoje duas coletividades narcísicas no País: a do protofascismo, unificada em torno de um projeto moralista, e a esquerda, que tenta articular um projeto político e social de nação. O fato é que, apesar dos esforços, não existe um verdadeiro projeto sociopolítico para contrapor ao avanço da malta que domina a República obediente aos interesses geopolíticos dos EUA. 

 

Nessas condições, os componentes paranoicos da vida política colaboram para impedir uma unidade de centro-esquerda contra o fascismo. O conservadorismo latente na cultura brasileira agora se tornou manifesto em grande parcela da população. Isso tudo reunido pode consolidar o terrorismo autoritário que assola o País.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

 

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