07.10.20 Observatório Psicanalítico – 200/2020  

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo Contemporâneo.

Mafalda não morreu. Quino se vai… e nos deixa Mafalda   

Dora Tognolli (SBPSP)

 

Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido como Quino, e ainda mais conhecido como o criador de Mafalda, faleceu no dia 30 de setembro de 2020.

 

A notícia de sua morte operou uma viagem ao passado, a um passado não tão remoto, no meu caso os anos 1970. Confesso que conhecia muito pouco da vida de Quino, pois meu contato direto era com Mafalda, e a assinatura leve e descontraída que acompanhava seus desenhos.

 

Conheci Mafalda ao entrar na faculdade, apresentada a ela por colegas idealistas e sonhadoras, que, como eu, queriam mudar o mundo e torná-lo mais justo e harmônico. Minha memória me traiu: sempre achei que tivesse lido Quino e suas tirinhas nos jornais que meu pai assinava. Estava enganada; me dei conta de que nunca os jornais brasileiros publicaram sua tirinhas, e mais: que Mafalda foi criada em 1964 e Quino abdicou de desenhá-la em 1973, temendo que se repetisse e perdesse a poesia que o inspirou.

 

Mafalda, como eu, vivia numa casa de classe média, numa família convencional de dois filhos, e era a pessoa mais inquieta, angustiada e reflexiva de todos –  uma figura com um cabeção enorme, baixinha, um pouco brava e cheia de si, sempre a questionar a alienação a seu redor e a fazer as perguntas mais difíceis de serem respondidas, que em geral causavam incômodo.

 

Mafalda carrega em si a crônica daqueles anos de chumbo, falando da Argentina para o mundo, tratando da guerra do Vietnã, da pobreza, dos russos, da avareza, das viagens espaciais e do descuido dos homens com a  natureza, a pobreza, a ética, as cidades…

 

Para mim, trazia um perfume de cosmopolitismo, quando a Buenos Aires era a nossa mais próxima cidade em estilo europeu: um povo culto, elegante, que apreciava a vida metropolitana, a comida, a arte. Minha primeira viagem à capital argentina foi também minha primeira viagem internacional, com direito a dólares e pesos. E, além da comida e do teatro, a livraria Atheneo onde adquiríamos nossos livros de Psicanálise na língua dos hermanos, em primeira mão. E almanaques e  livros de Mafalda… As malas voltavam carregadas de livros, que nos davam a sensação de um certo poder e fortaleciam nossos ideias de transformar  o mundo injusto. Não deixo de pensar: será que evoluímos? O que Mafalda nos diz hoje? Tornou- se anacrônica, ou continua muito incômoda, uma  vez que parece que o tema é o mesmo, com enredo ligeiramente diferente?

 

Soube, a partir de uma entrevista de Quino a um canal espanhol, que Mafalda fora originalmente criada para uma campanha publicitária de eletrodomésticos, que tematizava uma família convencional: mãe, pai, dois filhos, mas que nunca foi utilizada –  ficou encaixotada até virar quadrinhos e tornar-se sucesso mundial, no Ocidente: América Latina, Itália, Finlândia, Portugal, Espanha etc.

 

Aos poucos, foi surgindo a turma de Mafalda: outras crianças  de personalidades marcantes e diversas, como Felipe, Manolito, Susanita, Liberdade e seu irmãozinho, Guille. Para seu criador, QuinoMafalda não é a melhor personagem: justiceira, insistente, estraga-prazeres. Quino dizia que se divertia muito com Manolito, que sonha ser um Rockefeller, dono de uma cadeia de supermercados, representando o sonho de enriquecimento rápido, típico das periferias do capitalismo; e também se identificava com Felipe – avoado, sonhador, disperso, mais próximo do perfil de Quino.

 

Mafalda, apesar de ser uma criança, representa, para seu criador,  uma crítica ao projeto do homem, mal terminado, e além de tudo arrogante, que afronta e destrói a natureza, contrapondo-se a ela. A personagem também tematiza as relações de poder, as injustiças, o mal-estar. A aversão de Mafalda à sopa, comida das crianças, parece uma espécie de  protesto infantil ao mundo adulto e suas imposições.

 

Mafalda nos traz a ideia da potência infantil, do bebê sábio, tema de Ferenczi, que problematiza o lugar do analista, que vai revelar o que está oculto, o que se sabe e não se sabe. Fala diretamente ao infantil no adulto, aquele lugar de retorno, num tempo a posteriori.

 

Numa entrevista onde Quino expõe sua trajetória, fica clara sua inquietação, seus tiques e movimentos, que, segundo ele, estão na base de sua compulsão para desenhar e estar sempre com um bloco e lápis na mão. Como Mafalda – menina-adulta, poderosa-dependente, ele comenta seu  não-lugar, seu estranhamento: argentino, na Espanha – espanhol, na Argentina; desenhista – não sabe desenhar; tímido  e lábil – ousado e criativo.

 

Quino também aborda a angústia do não saber e de ser habitado por um personagem que vem de dentro, se impõe, como Mafalda o fez, escravizando-o e submetendo-o a seus caprichos. Recorre a Freud, da Interpretação dos Sonhos, para dar conta do que se passa com ele: do mesmo jeito que quando deitamos, mal sabemos o sonho que nos visitará, Quino reconhece que mal sabe o que Mafalda falaria na próxima tirinha, explicação da qual compartilhamos (“antecipar uma criação  é como irmos dormir sabendo o que iremos sonhar…”).

 

Quino também trata da angústia, de sua insatisfação com seu traço (não se considera um bom desenhista, embora tenha dado seus recados em forma de ideias), de seus temores de chegar muito perto de querer dar um fim à vida, como dois desenhistas importantes que se suicidaram (um deles, Chaval). Mas reconhece que, de certa forma, algo se passa, uma espécie de chispa, que ganha expressão em seus desenhos e mensagens, liga as pessoas e promove um certo prazer. A fragilidade que ele reconhece em si, que o distancia de personagens como Mafalda e Manolito, e o aproxima de Felipe, um garoto sonhador, resvala para o humor. Parece que estamos, na companhia de Quino, em concordância com o trabalho de Freud: O Chiste e sua relação com o inconsciente.

 

Ao receber um prêmio importante , perto de 2013, Quino se surpreende que Mafalda ainda sobreviva: admira-se, no bom sentido, mas reconhece que se ela tem ainda algo a dizer, significa que o mundo ainda tem muito que aprender e se transformar…

 

Dando voz à MafaldaQuino abordou questões que nos inquietavam nos anos 1970 e ainda hoje revelam nossa incompletude, nosso mal-estar… e sua crítica a um mundo autoritário e injusto não cessa e parece ter muito a nos ensinar..

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

 

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