08.09.20 Observatório Psicanalítico – 194/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

Mergulhando no transitório

Kátia Barbosa Macêdo (SPBsB e GEPG)

No início, susto! De repente me  tiraram o movimento, a liberdade, o contato, o ver, ouvir, tocar o outro. E me vi na solidão, sentindo saudade, aquele tipo de fome de afeto. Clarice Lispector disse que a saudade só passa quando se come a presença do outro.

O que antes era vínculo e contato, passou a ser medo do contágio, da solidão, da morte. Cuidado! Então, me encolho num recolhimento para sobreviver e preservar os amados, tendo que encarar a falta de contato, ausência da presença, isolamento, medo. Sensação de estar sendo engolido…pelo silêncio? 

O Desânimo e a depressão indicam um luto pela vida que se tinha, tristeza, vazio a ser preenchido. Vontade de desistir? Ou de existir? Reação.

Com o isolamento passamos a ter um tempo disponível que também é novidade. E o que fazer com todo esse tempo que ganhei? Nós, tão acostumados a não ter tempo para nada, vivendo a 200 km por hora… 

Alguns aproveitam o tempo para se reinventar, estudando, lendo, arrumando a casa dentro e fora. Ao ter tempo, me pego prestando atenção nas raízes de uma árvore mergulhando na terra para garantir seiva e vida. Tão invisíveis e imprescindíveis quanto o inconsciente.

Se não é mais possível viajar para fora, quem sabe viajar para dentro? Introspecção. Como isso é novo, perigoso, aterrador. Acolher memórias, fatos, imagens e vivências que em mim moram. Como diria Fernando Pessoa, acessar o Eu Profundo e os outros Eus. Todos os Eus que sou vivem em mim, e para empreender essa viagem para dentro, mesmo com medo, ter a coragem necessária para entrar em contato com as vivências tão profundas e essenciais.

Visitar os tempos que moram em mim, os registros de quem fui e sou: bebê faminto, carente de comida e amor, cuidado para sobreviver; criança aterrorizada pelo medo da exclusão, adulta se sentindo à deriva, desamparada nessa condição humana de falta, de não saber… Tudo isso retorna como se um portão tivesse sido aberto em mim, e essas vivências ali, disponíveis, gritando por acolhimento, ressignificação.

Viver na carne a impotência, essa sensação de que nada do que eu fizer ou deixar de fazer irá mudar a situação, que não depende de mim, causa desassossego. Mas, será que não podemos fazer nada mesmo? Ou será que podemos aproveitar essa viagem para nos fortalecermos, para nos sentirmos melhor dentro de nossa própria pele?

Descobertas que amedrontam, mas que também desafiam. Convite para revisitar memórias, recontar histórias com novas versões e perspectivas, sob um novo ponto de vista, trocando de lugar com os personagens. Brincar e fantasiar. Exercício difícil, mas vital. Abrir mão de julgamentos, da repetição, da mesmice, da compulsão: ao mesmo tempo aterrorizador, libertador.

Toda essa situação de Pandemia e isolamento social, por mais paradoxal que pareça, se constitui numa crise. Para os orientais, uma crise não é apenas um problema, uma ruptura, mas também contém as raízes da mudança, da transformação. Como o grão de semente que, para germinar e virar árvore, tem que romper a casca.

Nos atendimentos que tenho realizado e vivenciado, para além dos relatos de angústia, crises de pânico e depressão, tenho observado também movimentos interessantes relatados por pacientes.

1- A noção do tempo mudou. Se antes nos agarrávamos à ilusão de um tempo eterno que preencheríamos com planejamentos a curto, médio e longo prazo, a nosso bel prazer, agora nos deparamos com uma limitação. Só temos o tempo presente, e aprender a viver um dia de cada vez se impõe, uma vez que não sabemos se haverá um futuro, seja ele próximo ou distante; 

2- Tempo para olhar para dentro e rever as prioridades da própria vida e planos;

3- Possibilidade de prestar mais atenção nas dinâmicas familiares. Com a proximidade maior

com a família, vários conflitos que estavam adormecidos emergem buscando resolução, fala, trocas, escutas e transformação;

4- Sentimento de gratidão e reconhecimento pelo que se é ou já conquistou, a partir da observação e comparação com tantas pessoas que estão à deriva, à mercê. A compreensão de que, na verdade, não é preciso tanta coisa, diminuindo a necessidade de consumir;

5- Vontade de ser generoso, de doar, colaborar, o que reacende o sentimento de fraternidade e humanidade; 

6- Necessidade de reinventar-se, atender a demandas de várias ordens, substituir o delicioso e conflitante contato pessoal pelo contato por máquinas, aparelhos, equipamentos e o que mais for necessário para dar continuidade à possibilidade de vínculo, mesmo diante da ameaça de total descontinuidade. Novos espaços geográficos, psíquicos, novas formas de vínculos para se fazer presente mesmo à distância, escuta. Novas rotinas, novas atividades. Aprender, testar, adaptar-se, reaprender num ciclo exaustivo, interminável, que me consome à exaustão.

Freud escreveu um texto abordando a transitoriedade, onde descreve uma conversa com o poeta Rilke que, assombrado diante da finitude, se mostrou desesperançoso. Pontua que é, justamente por essa noção de fim, que cada segundo passa a ter uma nuance especial, um convite à fruição do momento único.

Concluo com um poema de Carlos Pena Filho, que nos convida a amar o transitório.

A Solidão e Sua Porta 

Quando mais nada resistir que valha A pena de viver e a dor de amar

E quando nada mais interessar 

(Nem o torpor do sono que se espalha)

Quando, pelo desuso da navalha

A barba livremente caminhar 

E até Deus em silêncio se afastar 

Deixando-te sozinho na batalha 

A arquitetar na sombra a despedida

Do mundo que te foi contraditório Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório 

E de que ainda tens uma saída 

Entrar no acaso e amar o transitório

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

Imagem: Tela de Christian Schoele

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Os ensaios do OP são postados no site da Febrapsi. Clique no link abaixo:

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