19.06.20 Observatório Psicanalítico – 176/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Por um mundo visível  e vivível: difícil respirar

Lúcia Maria de Almeida Palazzo (SBPRJ)

 

Com perplexidade e indignação diante de tantos açoites diários nos corpos negros e em função do noticiário de mortes recentes de George Floyd e do menino Miguel, de violência, maldade e racismo explícitos, tento encontrar espaço interno para reflexão. Está muito difícil respirar e pensar. É preciso tempo, mergulhar no nosso mundo interno e nos deixar levar pela emergência de afetos e pensamentos inconscientes, pois não basta ter consciência dos fatos e cair numa barafunda de informações. Por isso a contribuição psicanalítica é fundamental no sentido de nos propiciar a experiência singular e nos auxiliar na busca de saídas coletivas. 

 

A psicanálise se faz necessária e vemos o vigor de sua atualidade com tantos analistas frequentando a pólis virtual, que é a praça pública contemporânea, como contraponto ao derrame de Lives de todos os matizes, inclusive, racistas, negacionistas e autoritários.

 

Outro dia recebi um cartaz com uma geladeira com a seguinte frase na porta: tô com medo de abrir a geladeira e sair uma Live… Insígnia dos tempos de excessos, essa mensagem usa o humor para relativizar a invasão de privacidade que pode se tornar um martírio ou revelar o grau de tensão, horror e medo que as pessoas estão submetidas diariamente. Precisamos de tempo, sim, mas paradoxalmente temos a percepção que pode nos faltar tempo para cuidar da saúde, para pensar, agir, lutar, para mudar a vida, curtir nossa família, filhos, netos e amigos, realizar os nossos projetos, etc…Todas essas experiências se misturam dentro de nós, mas, à revelia de nossa vontade e atravessados pela pandemia, impõe-se a noção de finitude e da transitoriedade da vida, como muito bem nos ensinou Freud.

 

Sem dúvida, a tarefa dos psicanalistas de circular a palavra, que se contrapõe à força traumática, tornou-se urgente. Estamos capturados por todo esse contexto e, talvez, possamos fazer um paralelo com os anos 20, do século XX, após a primeira guerra mundial, em sua efervescência intelectual e política, quando os analistas da época, inclusive Freud, tiveram a ousadia e coragem de criar dispositivos e clínicas para atender gratuitamente, confirmando que a psicanálise se reconstrói a cada urgência do seu tempo histórico. Vale a leitura do livro de Elizabeth Ann Danto: As Clínicas Públicas de Freud. Psicanálise e Justiça Social.

 

Na verdade, são tantas violências e repetidas manifestações de crueldade que é impossível deixar de tocar nas questões sobre a desigualdade social, principal abismo em que muitos são lançados. É importante que as sociedades psicanalíticas se ocupem desta pauta para promover a inclusão de pessoas pertencentes a outros segmentos sociais e que criem dispositivos de atendimento, cursos sobre o racismo estrutural, a colonização e a diáspora africana, entre outros temas. Cito Vera M. Batista (2003) em seu livro, O medo na cidade do Rio de Janeiro: Dois tempos de uma história, onde traça um histórico importante:Esse medo branco que aumenta com o fim da escravidão e da monarquia produz uma República excludente, intolerante e truculenta com um projeto político autoritário. Essa foi sempre a síndrome do liberalismo oligárquico brasileiro, que funda a nossa República carregando dentro de si o princípio da desigualdade legítima que herdara da escravidão.

 

As barreiras do racismo são muito antigas e revelam o uso de mecanismos mentais alienantes ao forjar diferenças para negar a humanidade plena desses sujeitos e projetar no outro o que não quer ver em si mesmo. A branquitude é o problema, e não o contrário. 

 

O tema da desigualdade perpassa vários eixos e, também, a questão financeira, outro assunto importante, pois não é fácil o debate sobre renda, ganhos financeiros, mais valia, exploração, em uma sociedade que não abre mão dos seus privilégios para criar oportunidades de uma vida justa para todos. Quais seriam as bases de uma vida vivível? 

 

Estamos no auge de uma pandemia, em condições muito complexas, com mudanças climáticas severas, problemas sociais agravados, políticas públicas equivocadas e distanciadas da realidade, além do esgarçamento dos laços sociais. Judith Butler abre importante reflexão em uma videoconferência para o Festival de Arte e Ciência, El Aleph, 2020, Las posibilidades de la vida, Covid-19 e seus efeitos. Butler discorre sobre vários aspectos da desigualdade, e como coabitar no planeta terra os seres humanos, os animais e demais seres vivos, assim como sobre as consequências das ações humanas e as possíveis diferenças entre vidas vivíveis e invivíveis.

 

Um mundo vivível precisa ser, também, visível, pois a invisibilidade de determinados sujeitos marginalizados por um sistema socioeconômico, político, reiteradamente excludente e moralista, que opta pela degradação social e a desconstrução das Instituições que são guardiães dos bens culturais, de educação e de justiça tributária, pode decretar o fim da possibilidade de vida vivível em um mundo com ideais civilizatórios. Instalou-se nas entranhas da nossa sociedade, por conta de nossa herança escravagista, esse vírus do racismo e da invisibilidade do outro, do sofrimento que o ataque à vida de qualquer cidadão pode causar a todos.

 

Não sem espanto, vi o presidente americano Donald Trump, num ato midiático, saindo da Casa Branca, dirigir-se a uma Igreja e, com a bíblia na mão, posar arrogantemente, em silêncio, para as câmaras. Realmente, o poder de suas armas é letal, não por sua pose, mas pelo discurso autoritário insidioso que subjaz a essas performances desprovidas de humanidade.

 

Hoje temos muitos registros e as imagens chocam, os vídeos das pessoas ainda com vida implorando compaixão é abominável. O menino Miguel buscando a mãe é extremamente doloroso. Mirtes, mãe de Miguel, pergunta: e se fosse o filho da patroa? E se fosse os nossos filhos? Por acaso, não se trata de nossos filhos?

 

Ao assistir, também, os pronunciamentos do cineasta americano Spike Lee, do rapper brasileiro Emicida, do ex-presidente americano Barak Obama, vejo que, com semblantes entristecidos e palavras de compreensão, revelaram a sensibilidade que precisávamos para respirar. Solidarizaram-se com os jovens que exprimiram nas manifestações a indignação que nos abatia, com uma demonstração da capacidade humana de se unir para impulsionar o que pode parecer impossível. Eros versus Thanatos, como sempre. Como disse Flávia Oliveira, jornalista e escritora brasileira, a esperança é negra.

 

Para a jovem psicanálise do século XXI, talvez outra peste, envio a mensagem, instigante e anônima, que recebi por WhatsApp, com uma jovem segurando o cartaz: O fascismo sussurrou em nosso ouvido: “você não é forte o suficiente para resistir à tempestade”. Hoje sussurramos no ouvido do fascismo: Nós somos a tempestade.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

Fotografia João Roberto Ripper 

 

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