08.06.20 Observatório Psicanalítico – 172/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

De Freud para torcidas organizadas

Gustavo Gil Alarcão (SBPSP)

Caros, não tenho muita intimidade com mensagens eletrônicas, sou mais afeito às cartas, escrevi centenas, milhares. Hoje, 2020, podemos contar com a velocidade e com a onipresença dos meios eletrônicos. Sei que no Brasil vocês vivem tempos difíceis, aliás, vivemos todos. Ainda há pouco tivemos mais conflitos no Rathhauspark não muito longe de minha casa. As agitações sociais estão cada vez mais sérias e tememos pelo futuro da Europa, que mal se recuperou das tenebrosas consequências da última guerra. 

Há alguns dias, recebi também uma carta do eminente Albert Einstein, em que me diz que a Liga das Nações está interessada em discutir as razões da guerra. Estou elaborando a resposta e acredito que muito do que tenho a dizer pode ser útil para vocês aí no hemisfério sul. Ainda que tenhamos condições sócio-históricas particulares e sabendo que eu jamais me atreveria a explicações simplórias para condições complexas, julgo que minhas inquietações e também minhas considerações podem lhes ser úteis. Afinal, interessando-me pela criação de uma psicologia científica, acabei formando a psicanálise, área que vem estudando incansavelmente a condição humana.

Confesso também que pouco sei de torcedores de futebol, ou mesmo desse esporte britânico, o football, que parece ter encontrado em seu território o mais fértil de todos os terrenos para se desenvolver. Procurei algumas informações para que pudesse me inteirar minimamente e saber se não falaria bobagens. Assisti alguns vídeos no youtube sobre as torcidas organizadas. Preciso assumir que fiquei embaraçado, com uma mescla de emoções difíceis de serem organizadas. Vocês já tiveram contato com algum texto psicanalítico? Fiquei indignado de não haver recebido informações sobre a existência de torcidas e torcedores antes, já que vocês corporificam como ninguém aquilo que a psicanálise chamou de pulsão, e, o melhor, fazem-no através dos grupos, o que só engrandece a relação que penso existir entre psicologia individual e psicologia coletiva, aliás, este é outro texto que lhes pode ser útil, “Psicologia das massas e análise do eu”. 

Mas voltemos, parece que os estádios brasileiros ficam repletos de milhares de torcedores e pude sentir, ainda que com o frio vienense em voga, o calor dos cantos e a energia humana que circula nas arquibancadas de vossos estádios. Não saberia descrever melhor a função da pulsão de vida quando as vozes se somam, os braços se agitam e as lágrimas emocionadas rolam, é realmente incrível, é intensamente libidinal. Ao mesmo tempo, imaginei que não utilizam adequadamente a própria denominação que têm, porque não parece haver muita organização entre vocês. Sem papas na língua, vi cenas de brutalidade difíceis de presenciar, entretanto, a pulsão de destruição e agressão é o outro eixo que a psicanálise delimitou. Penso que o futebol, escreverei em português, é um esporte muito interessante, notei semelhanças do jogo com o teatro, acho inclusive, que algum de vossos colegas, se não me engano, Leopold Nosek, já pensou algo parecido, não sei se escreveu também. Há muitas semelhanças cênicas, ritualísticas, pragmáticas e mesmo técnicas entre ambos. E a relação com o público, com a plateia é imprescindível. Talvez por isso possamos esperar que com o tempo, vossa experiência nos estádios possa ser menos violenta, sem ser menos intensa. 

Temo ter tergiversado um pouco, desculpem-me. Nessas poucas palavras gostaria de lhes lembrar que o homem, embora se imagine bem longe do reino animal, ainda pertence a ele, e que portanto, a violência lhe é constitutiva e penso que jamais, sublinho esta parte pois ela parece chocar muitos, inclusive Einstein, suporia sua eliminação da nossa condição humana. Se bem notamos, há situações em que somente a violência pode nos salvar. Isto não significa estimulá-la, apenas compreendê-la.

Dentre as várias coisas que escrevi para Einstein gostaria de destacar uma para vocês, que me parece muito pertinente nesse cenário de ameaça democrática que vivem, e, se me permitem, como elegeram um governo tão bizarro e bárbaro como este? O que são esses ataques aos juízes, essa ameaça de ditadura? O que é este menosprezo da pandemia? Serei direto: sejam inteligentes! Ao que parece vocês ainda não cativaram todas as pessoas que precisam, vocês sofrem tratamento diferenciado da polícia, provavelmente agitadores infiltrados tentarão desvirtuar seus propósitos e parte da imprensa está pronta para desqualificar a firmeza de sua posição chamando-lhes de vândalos ou arruaceiros. Sendo mais objetivo: levem celulares! Isso, filmem tudo que possam, filmem as discussões que geraram o encontro, filmem os preparativos, mostrem famílias envolvidas, mostrem as condições em que vivem, registrem seu deslocamento pacífico da periferia para o centro e o clima fraterno com que desejam ocupar a cidade, preparem vídeos, muitos vídeos, caprichem, se possível façam um filme, (Petra Costa pode ajudar, posso escrever para ela), uma música, um livro, o que for possível. 

Estou advertido de que em breve, nós judeus, iremos sofrer uma das mais terríveis violências da história, comparável à escravização africana e a outros genocídios repulsivos. Sei que não poderemos evitar a tragédia, mas deixaremos registros, narrativas e isto nos ajudará a enfrentar parte do trauma. Façam o mesmo, e sigam juntos, firmes, sem abaixar a cabeça. Vossa causa é deveras digna. Um abraço Sigmund.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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