09.06.20 Observatório Psicanalítico – 173/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

O ministério da saúde adverte: nada a declarar, tudo a esconder

Sylvain Levy (SPBsb) 

Uma das características mais estimulantes de nossa profissão legalmente inexistente – porém superatuante – é ser multiprofissional.

Nela, há colegas oriundos de diversas formações, notadamente da área da saúde, dentre eles, médicos que militam na área da saúde pública. Militam porque, uma vez adentrado nessa área, nunca mais a abandonam, introjetando seus conceitos como autêntica doença autoimune que vai se tornando uma disciplina de ação.

Nesse momento, é uma tortura diária observar a condução das ações do governo federal contra a pandemia do coronavirus e as declarações de seus responsáveis. Trabalhei quarenta e três anos no Ministério da Saúde (MS), na Fundação Nacional de Saúde (FNS) e com a FIOCRUZ e INAMPS. Participei dos movimentos sanitários que antecederam ao SUS e à sua criação, inclusive na famosa VIII Conferência Nacional de Saúde. Portanto, não me peçam isenção para comentar o descalabro que estamos vivendo.

É bastante conhecida a influência da política nas questões científicas. Na mais lendária, ocorrida nos EUA, a pesquisa para a vacina contra a pólio passou a dianteira daquela que buscava a obtenção da vacina contra o sarampo, na época em estágio mais avançado. Essa pesquisa teria recebido mais recursos e prioridades para seu desenvolvimento em função do Presidente Roosevelt ter contraído poliomielite antes das eleições.

No Brasil é diferente. Não é a política que define o combate à Covid 19, mas a psique.

Jair Bolsonaro tem razão quando diz não ser um militar. O militar pauta suas ações com base na estratégia. O presidente não parece adotar esse método. Parece mais instintivo. Na verdade, é um belicista. Faz da briga, da controvérsia, da agressão, sua seiva de vida. É muito mais que uma estratégia política: é um modo de estar no mundo. Além da imprensa, objeto de ódio permanente, cultua sua idiossincrasia contra a democracia, a ciência e o conhecimento.

Isso ficou evidente na tristemente famosa reunião de 22 de abril – autêntico redescobrimento pátrio, onde, tendo sido ignorada a emergência sanitária, sob os impropérios de todos e as bobagens de alguns, a proposta que partiu da boca do próprio Presidente da República, ou projeto de presidente, foi armar o povo.

Têm-se presentes em seu governo e em particular nessa reunião, quatro características psíquicas: negacionismo, belicismo, paranoia e necrofilia, esta última revelada na negação aos esforços para conter a pandemia, na insensibilidade à mortandade e no estimulo a uma guerra civil, ao propor que o povo se arme.

A briga contra a ciência se caracteriza pelo menosprezo às orientações sanitárias da sua (sua?) equipe de saúde, o comparecimento ao vivo e a cores (ou online, segundo o jargão das redes) nas manifestações e a recusa de usar máscara. Mais que tudo, ao recusar a história negando a existência de 20 anos de ditadura, ao brigar contra o humanismo elogiando torturas e torturadores, ao negar as mudanças climáticas e desacreditar nas ciências, o presidente deixa a nu uma face obscurantista, incompatível com as possibilidades de compreensão do mundo atual e de atuação responsável e consequente.

Bolsonaro entrou para a Academia de Agulhas Negras por mérito e, acreditemos, por vocação. Na carreira militar poderia exercitar seu animus belicosus, sua intrínseca capacidade de produzir confrontos e levar os outros a se confrontarem. Não contava, porém, com sua incapacidade de suportar as imposições de disciplina e hierarquia. Durante a carreira propôs ato terrorista. Sempre foi um franco atirador, um lobo solitário, individualista que entrava em grupos e não sentia sensação de pertencimento. Não parece ter feito história ou lastro em nenhum partido político. Mudou de legenda diversas vezes. Essa característica de individualismo irá contribuir, decisivamente, na sua luta contra o isolamento social.

Países com sistemas de governo, ideologias, religiões e etnias diversas, como China, Vietnã, Índia e Coreia do Sul se saíram bem da pandemia por terem uma tradição coletivista e uma convicção de não brigar com os fatos, aceitá-los para transformá-los. Quem os nega, quem prega o individualismo e as práticas milicianas, quem vê perigo em todos os cantos e acredita que o confronto é a solução, governa, também, segundo essas convicções. Pode ser vitorioso em algumas ocasiões, mas em outras, como na pandemia do coronavirus, não dá para vencer no grito e sem a participação de todos.

Ao criticar o Diretor Geral da OMS, dizendo “nem médico ele é”, e colocando um general no Ministério da Saúde, Bolsonaro dá as costas à sua própria verdade, deixando claro que só existe uma certeza: a sua e naquele momento. Inaugurou uma nova meme: esqueçam o que pensei que tivesse pensado.

Alem do general, são mais de duas dezenas de militares ocupando postos chaves na administração do Ministério. Alguém já imaginou um médico comandando uma brigada ou divisão? Ou mero quartel? Ou sendo nomeado juiz? A única explicação possível é que para tocar uma organização que se tornou tão inexpressiva, como esse Ministério, qualquer um serve, até um general.

O que acontece nesse Ministério dito da Saúde é um acinte à memória dos sanitaristas brasileiros – nem vou nomeá-los para não envergonhá-los em seus túmulos, em respeito ao presente e ao futuro de todos nós.

Um ministro que aceita baixar um protocolo de tratamento sem conhecimento do assunto e com manifestações contrárias ao uso desta mesma droga por parte da comunidade científica, só pode ser um cumpridor de ordens, um ignorante ou insano.

Um ex-futuro quase secretário de ciência, tecnologia e inovação que nunca trabalhou na área da saúde, recomendava que as pessoas com sintomas leves procurassem os hospitais, ignorando o risco que essas pessoas correm ao comparecerem a locais perigosamente infectados, além de provocarem, involuntariamente, a superlotação de unidades de saúde. É da lavra dessa mesma “autoridade” a afirmação de que devem ser recontados os casos e os óbitos de Covid 19, “por suspeita de estarem inflando os números”, num desrespeito aos estados, municípios e, principalmente, aos profissionais de saúde que estão combatendo a epidemia com seriedade, sem a ajuda do general ou governo de Bolsonaro.

Mas quando você pensa que nada pode superar uma medida, vem outra que é ainda pior. Na primeira semana de junho, dois técnicos da Coordenação Geral de Ciclos de Vida, do Ministério da Saúde, foram exonerados por emitirem nota técnica que cita diretrizes da OMS e afirma que os serviços de atendimento à saúde sexual e reprodutiva, como o acesso a contraceptivos e o direito ao aborto nos casos previstos em lei, devem ser considerados essenciais e não devem ser interrompidos devido à pandemia.

A alegação para a demissão foi que essa norma ampliava as possibilidades de aborto no Brasil. A inteligência é tão curta quanto a palavra lida. Aborto: está constatado, crime escrito e confessado. Uma atitude que não nos causa surpresa, pois está de acordo com as orientações dadas aos diplomatas brasileiros pelo Itamaraty – outro polo do obscurantismo, que recomenda bloquear qualquer texto de organismo internacional que contenha a palavra maldita.

Mas a joia da coroa estava por vir, pois a capacidade desse governo em produzir fatos novos e ruins é insuperável. Nessa mesma semana, a divulgação dos dados sobre a pandemia no Brasil sofreria uma inflexão tão importante que a Universidade Johns Hopkins, do EUA (provavelmente, a partir de agora, considerada pelos bolsonaristas uma célula comunista naquele país), excluiu o Brasil do balanço global sobre a pandemia. Alem de retardar a emissão dos dados sobre a progressão da doença no país, para “não dar pauta para o Jornal Nacional”, num sincericídio/ato falho cometido pelo presidente, a plataforma do Ministério da Saúde sobre a Covid 19 foi reformulada, passando a omitir diversos dados que antes eram divulgados.

As duas medidas são fundamentalmente burras, pois o retardamento na divulgação enseja que todas as emissoras possam publicar edições extras, chamando muito mais a atenção para o que se pretende esconder, ao mesmo tempo que os dados continuarão disponíveis nas secretarias estaduais e municipais de saúde. Dará mais trabalho na sua consolidação, mas será só isso.

Como o ministro general não tem nenhum compromisso com a saúde, não sabe o significado da informação para o setor, tanto epidemiológica como operacionalmente, e age como militar: cumpre ordens.

É claro que essas medidas se inserem num projeto maior e mais ambicioso, mas de eficácia duvidosa, que é o de acabar com a epidemia escondendo os doentes. Isso foi tentado em 1973, em plena ditadura, com a epidemia de meningite em São Paulo, mas não funcionou. A doença continuou matando e ficou para sempre como uma nódoa na carreira de Mario Machado de Lemos, importante sanitarista e ministro da época.

De resto, essa militarização do Ministério da Saúde serve como visão do que pode ser uma intervenção militar no Brasil. Mais de mil mortos por dia.

Informação, educação e comunicação são instrumentos fundamentais para transformar o individuo em cidadão. Ir contra elas é agredir a lógica, a ciência, o conhecimento, e assim, agredir a cidadania, a verdade e a democracia.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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